“Não serei livre enquanto alguma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” — Audre Lorde
Nas diversas esferas sociais, o corpo masculino foi sempre considerado o padrão. Na medicina não é diferente. Mulheres nunca foram o foco de pesquisas científicas. O uso de medicamentos, realização de procedimentos e até tratamento e prevenção de doenças não são iguais para homens e mulheres, principalmente quando atravessados por outras interseccionalidades como identidade de gênero, sexualidade, raça e classe.
Campanhas de controle da natalidade, por exemplo, foram realizadas nos anos 90 como forma de esterilização em massa de mulheres negras e periféricas, em uma tentativa de higienização da população brasileira, cenário que se repete ainda hoje, também com mulheres indígenas e em situação de rua. Além disso, a medicina brasileira tem como referência corpos brancos, negligenciando as especificidades e necessidades de pessoas negras.
O atendimento médico a mulheres lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis também pode ser desatento e discriminatório, colocando suas vidas em risco, principalmente na identificação e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e câncer. De acordo com o Relatório Descritivo da 1ª etapa do I LesboCenso Nacional (2021-2022), realizado pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e Coturno Vênus, mais de 70% das respondentes relataram possuir medo ou constrangimento de falar sobre sua sexualidade em atendimentos de saúde e quase 25% já sofreram discriminação em um atendimento ginecológico.
Dessa forma, o Março Lilás — campanha nacional de conscientização sobre a prevenção e combate ao câncer do colo do útero — surge como reforço para um cuidado que precisa ser específico e direcionado, principalmente para o sexo feminino. O câncer do colo do útero é causado pela infecção pelo HPV, que ao não receber o tratamento necessário, pode provocar lesões e evoluir para câncer e infertilidade. Em pessoas do sexo masculino a infecção não costuma causar problemas tão sérios. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima-se que há por ano mais de 19 mil novos casos de câncer de colo de útero, sendo, nas mulheres, o terceiro câncer mais comum.
A prevenção é feita por meio do uso de preservativo e da vacina contra HPV, disponível no Sistema Único de Saúde para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, pessoas imunodeprimidas e vítimas de abuso sexual. O exame Papanicolau também tem papel essencial na prevenção do HPV e deve ser realizado por todas as mulheres e pessoas com útero que já tiveram atividade sexual a partir dos 25 anos a cada três anos. A vacinação, entretanto, não abarca todas as mulheres, restringindo-se a uma parcela ainda muito pequena da população, e quem fica de fora precisa arcar com custos que chegam a 3 mil reais. As ferramentas de proteção para o sexo lésbico também deixam a desejar, já que não são adaptadas para a realidade de mulheres com vulva, deixando-as mais vulneráveis ao contágio por ISTs.
Portanto, o 8M e o Março Lilás nos lembram que os direitos das mulheres ainda não estão garantidos e que a luta precisa ser coletiva para que mudanças efetivas aconteçam. A luta contra o feminicídio, lesbocídio, LBTfobia, racismo, violência sexual e doméstica, pela autonomia reprodutiva e proteção da infância, além do acesso à saúde e emprego de qualidade, são pautas que continuam em disputa e precisam urgentemente da nossa atenção.
Em fevereiro deste ano, o Governo Federal relançou o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, criado em 2023. A campanha articula os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, para amplificar a prevenção da violência, além de fortalecer a proteção às vítimas e promover a responsabilização de agressores. A iniciativa é de extrema importância para o combate à violência, disseminação de informações sobre formas de denúncia, além de contribuir institucionalmente para a relevância das pautas feministas na criação de políticas públicas que sejam realmente eficazes para a vida das mulheres.