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A falsa magia: como inventaram um parque da Disney em Curitiba

Evento da Disney foi promovido como parque, mas entrega corredor polonês de luzes e ativações publicitárias de "marcas parceiras"

A falsa magia: como inventaram um parque da Disney em Curitiba
Foto: José Fernando Ogura/Prefeitura de Curitiba
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A notícia tomou conta da internet em novembro: o Brasil iria receber um parque inédito da Disney. Um grande jornal de Curitiba informou: "A abertura oficial do parque está prevista para quinta-feira (4/12)". Outro site local manchetou: "Parque da Disney em Curitiba conta com cinema ao ar livre e gratuito".

E não foi só na imprensa local. Em um veículo de Santa Catarina, os leitores foram informados de que "Com roda gigante e tradicional show de fogos de tirar o fôlego, a Disney inaugurou um parque inédito no Brasil nessa quinta-feira (4). Curitiba, no Paraná, espera receber mais de 2,4 milhões de visitantes no Parque Barigui, onde a estrutura foi montada".

Outro site de São Paulo foi na mesma toada: "Primeiro parque da Disney no Brasil inaugura com acesso 100% gratuito". "Batizado de Parque Mágico, o espaço marca a chegada inédita do projeto Disney Celebra: Um Natal Inesquecível ao país e promete ser o destaque da maior programação de Natal já realizada pela capital paranaense", continua.

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Com a abertura do evento no último dia 4 de dezembro, porém, ficou difícil de esconder a realidade: a Disney não abriu um parque em Curitiba. Na realidade, o que os curitibanos e turistas confusos descobriram é que existe um parque, o Parque Barigui - cartão postal da cidade - que foi tomado por luzes e estações "instagramáveis" com imagens de produtos da Disney, a tradicional árvore de natal, uma tela de cinema ao ar livre que exibe filmes da marca e lojas de produtos licenciados.

Para os visitantes os únicos brinquedos disponíveis são os do parque de diversões que já existe no Parque Barigui o ano todo. Sem os brinquedos tradicionais dos Parques da Disney, a experiência dos visitantes se limita a tirar fotos na frente da imensa estátua do Mickey, da árvore de Natal (outra atração que já existia em outros eventos de natal no Barigui), das orelhas do Mickey de led que criam um corredor polonês de luzes na pista de caminhada do parque ou nas caixas com cenários de desenhos da Disney.

Outra "experiência" do "Parque da Disney" em Curitiba é a publicidade. A Prefeitura de Curitiba chama propagandas interativas de produtos de "ativações" de marcas parceiras. Ou seja, instalações para o visitante fazer propaganda gratuita das marcas registrando fotos em redes sociais.

No lançamento da iniciativa em julho de 2025, a Prefeitura de Curitiba chamou o evento de "experiência". No release de lançamento, o governo municipal informou que "o público curitibano e visitantes de todo o país poderão viver a magia de Disney Celebra: Um Natal Inesquecível, uma experiência original que integra a maior programação natalina já realizada no país".

O projeto previa três ações distintas: o espetáculo Disney Celebra: Um Natal Inesquecível no Centro de Eventos Positivo, cuja entrada é paga e cujos ingressos estão esgotados há tempos, e duas "experiências" gratuitas, o Cinema Disney ao Ar Livre, com exibições de conteúdos especiais do Disney+ e "Ativações Temáticas Disney, espaços sensoriais e instagramáveis" instalados no Parque Barigui.

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Tudo isso foi patrocinado por recursos captados via Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). O projeto, apresentado pela empresa de Pinhais (região metropolitana de Curitiba) Air Marketing e Entretenimento, pediu liberação da captação de R$ 14,9 milhões e foi autorizada a captar R$ 9 milhões. A lei Rouanet permite que recursos que seria pagos como impostos por empresas no Brasil invistam em projetos culturais.

Por que o Natal em Curitiba é patrocinado pela Lei Rouanet, o proponente é obrigado a ofertar ações gratuitas ou a preços populares. No caso do "parque da Disney", isso inclui as sessões de cinema ao ar livre, que são gratuitas. Entre o público dessas exibições estão cerca de 500 crianças de unidades de acolhimento da Fudação de Ação Social e do serviços de convivências dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) levadas para o evento em ação da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano (SMDH). A pasta é liderada pela ex-vereadora do Novo, Amália Tortato.

De experiência a "parque"

Em setembro a comunicação da Prefeitura passou a se referir ao evento como "parque" e a usar os termos "Parque Mágico" nos títulos de releases sobre o assunto. Não demorou para o assunto se espalhar por perfis de "influenciadores" nas redes sociais e em portais de notícias.

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O interesse sobre o assunto no Brasil disparou no último dia 23 de novembro, segundo o volume de pesquisa sobre o termo no Google. O interesse no assunto causou a publicação de inúmeros textos desmentindo a instalação de um parque da Disney no país, incluindo artigos em grandes veículos como a Exame.

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Nada disso desanimou o prefeito da cidade, Eduardo Pimentel (PSD) e sua equipe de comunicação. Um dia antes da abertura do evento o site da prefeitura anunciava "Com abertura do Parque Mágico, Disney Celebra: Um Natal Inesquecível estreia nesta quinta em Curitiba".

Pimentel e o Mickey inauguraram a "experiência" na noite de quinta-feira suplantando a atenção antes dada a eventos natalinos mais tradicionais na cidade, como o Coro de Natal no Palácio Avenida. Para o Prefeito, o Natal das marcas (muitas sem qualquer relação com a cidade), dá "significado ao Natal". "Não se trata apenas de entregar uma experiência, mas de criar um significado para as famílias curitibanas e quem nos visita”, afirmou Eduardo Pimentel em release da prefeitura.

A comunicação oficial, porém, não especificou exatamente qual significado há no Mickey em relação a Curitiba. No passado, a cidade sempre priorizou atividades natalinas com forte vínculo local. No Coro de Natal do Palácio Avenida, por exemplo, a maior parte das vozes são de crianças de projetos sociais da cidade.

Já no show de patinação de Natal, na praça Osório, são artistas locais que preparam e realizam o espetáculo, o que inclui atletas de patinação que representam a cidade em competições nacionais.

E não é só na divulgação que a atração estrangeira ganhou mais destaque que as locais. O Plural noticiou ainda em julho, quando a atração foi anunciada, que grupos locais estavam questionando o uso de recursos públicos para contratar empresas e profissionais de outras cidades para um evento curitibano. Não se trata de bairrismo: os projetos culturais do Natal movimentam a economia da cidade há anos, mas em 2025, o maior projeto contemplou iniciativas de fora.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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