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A morte de Soninha do Pandeiro: um crime que abalou o Carnaval de Curitiba em 1974

O Carnaval de 1974 em Curitiba prometia ser histórico, com expectativa de mais de 80 mil foliões, reforço na estrutura da Rua Marechal Deodoro e grande mobilização das escolas de samba, que celebravam a conquista de recursos públicos e a presença de jurados como Cartola. Em meio ao processo de moder

A morte de Soninha do Pandeiro: um crime que abalou o Carnaval de Curitiba em 1974
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O Carnaval de 1974 prometia ser inesquecível. A prefeitura de Curitiba organizava um desfile histórico e tinha criado mais de 1.600 lugares extras nas arquibancadas da Rua Marechal Deodoro, tudo para acomodar os turistas que viriam para a festa. Esperava-se mais de 80 mil foliões nas quatro noites de desfiles.

As escolas de samba tinham conseguido, a duras penas, recursos públicos para fantasias e carros alegóricos. Era um feito, já que a verba da prefeitura costumava se diluir em enfeites espalhados pela cidade, na maioria das vezes de gosto duvidoso.

Nas semanas que antecederam a festa os bailes fervilhavam nos clubes da capital. O sambista Cartola viria do Rio de Janeiro para ser um dos jurados dos desfiles daquele ano. Era um verdadeiro furor. Compositores viravam noites aprimorando as letras dos sambas, e as baterias ensaiavam até o amanhecer.

Entretanto, o feminicídio de uma passista da Escola de Samba Colorado, ocorrido em 21 de fevereiro daquele ano, na véspera dos desfiles, marcaria aquele carnaval.

No passo do samba, Erenilde foi morta

Em 1974 Curitiba vivia um intenso processo de modernização urbana, marcado pelo início de grandes transformações planejadas, como a implementação dos eixos estruturais de transporte, a criação de calçadões no centro como o da Rua XV. Era a primeira gestão do jovem prefeito Jaime Lerner e a capital tinha cerca de 700 mil habitantes.

O carnaval de rua ganhava força. O desfile, que antes acontecia na XV de Novembro, foi para a Rua Marechal Deodoro. E na semana do Carnaval de 1974 a cidade estava eufórica. Dias antes dos desfiles, milhares de pessoas compareceram à Boca Maldita para assistir à coroação do Rei Momo, Lafayette Queirolo, e da Rainha do Carnaval, Vera Lúcia Martins. Na mesma noite, foi lançado o livro Nem que me mordas, que contava a história da festa popular em Curitiba e era assinado por nomes como Jorge Naroszniack, Valêncio Xavier e Lúcia Camargo, com ilustrações de Alceu Chichorro e Poty Lazzarotto.

As escolas de samba ensaiavam exaustivamente. A mais antiga delas, a Colorado, prometia um desfile histórico. Mas um crime mudaria esse cenário.

No dia 23 de fevereiro de 1974, o jornal O Diário da Tarde estampava em sua capa um feminicídio que marcaria aquele Carnaval. Maria Erenilde Lopes, de 24 anos, mais conhecida como Soninha do Pandeiro, havia sido morta na noite anterior, às vésperas do desfile. Seu corpo tombou no cruzamento da Rua João Negrão com a Engenheiro Rebouças.

Soninha recebeu uma punhalada no coração pouco depois da meia-noite. O assassino, Dirceu Ferreira, homem com quem ela teve um relacionamento, fugiu do local, mas foi preso horas depois.

Soninha e Dirceu eram passistas da Escola de Samba Colorado. Ela era a principal passista e o encanto da agremiação havia cinco anos. Conhecida na avenida e nos salões, chegou a despertar o interesse de escolas de samba do Rio de Janeiro, mas decidiu permanecer em Curitiba.

A passista morava na Vila Fani e trabalhava como diarista desde moça. Dirceu, por sua vez, também era passista, mas não desfilava há anos porque cumprira pena na Penitenciária de Piraquara, por roubo.

Ele e Soninha tiveram um relacionamento rápido e instável. Meses antes, ela o flagrara em um bar com Neuzinha, sua cunhada. Depois disso, os dois se afastaram. Durante os ensaios daquele Carnaval, mantiveram distância. Porém, naquela noite, o ensaio havia se transformado em uma festa com muito chope. No meio da confraternização, Soninha viu novamente Dirceu e Neuzinha juntos.

Quando foi embora na companhia de uma amiga, pouco depois da meia-noite, encontrou Dirceu na Rua João Negrão. O chamou de “destruidor de famílias”. Os dois discutiram, e Dirceu a apunhalou com um único golpe, certeiro no coração.

Os gritos atraíram uma multidão, mas nada pôde ser feito: a passista sucumbiu em instantes. Dirceu foi preso pela polícia por volta das 3h da manhã, em sua casa, na Avenida das Torres, no bairro Guabirotuba.

Aquele Carnaval não seria mais o mesmo. Batuqueiros e passistas foram profundamente afetados. O samba se vestiu de luto naquele ano.

Soninha foi enterrada às 17h do dia 22 de fevereiro de 1974, sob grande comoção. A Colorado desfilou naquela noite. Abalada, a escola ficou em segundo lugar, perdendo o título do Carnaval para a Dom Pedro II.

 

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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