Jornalista, crítica de teatro e agora poeta. Aos 38 anos, Luciana Eastwood Romagnolli acaba de lançar seu primeiro livro de poesia, “O Mistério de Haver Olhos”, pela Quintal Edições. A obra foi viabilizada por meio de projeto aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, cidade onde a curitibana vive há dez anos. Por conta disso, ficou bastante acessível: custa R$15 no site da editora.
Em entrevista ao Plural, a autora falou de temas que permeiam a obra: a perda do pai, assassinado em 2003; a partida da sobrinha, que nasceu e morreu em 2019; a recente descoberta da maternidade, marcada pelo espanto. Acompanhe a conversa.
Plural: Os primeiros poemas do livro denotam uma dor latente pela morte do seu pai. Eram escritos engavetados? Qual é a temporalidade deles?
Luciana: Eles são recentes, acho que de 2019, talvez alguma coisa de 2020, mas a temporalidade do inconsciente é outra, né? Tem coisas que não ficam só na cronologia. Acho que talvez por acontecimentos mais recentes, isso tenha vindo à tona de novo. E aí, pela primeira vez, saiu assim, como poesia. Quando o meu pai morreu, eu era mais nova e até esbocei escrever alguma coisa na época, mas não aconteceu. A minha relação com a poesia ficou precarizada, sabe? Então, são poemas de um tempo depois, mas talvez de um processo de revisão desse luto.
Você consegue identificar o que te fez voltar o olhar para esse momento?
Tem pelo menos três ou quatro coisas. Tem toda uma questão do país - acho que a política me trouxe um luto dos ideais para ser processado. Tem o luto recente da minha sobrinha, que foi abrupto e muito forte. Tem a maternidade, que é uma experiência muito radical e também exige toda uma reconfiguração de quem a gente é... E tem a pandemia. O luto se fez presente e bastante espalhado pelo Brasil. Acho que foram muitos desencadeamentos pra que isso voltasse e estivesse tão presente no livro.
Há um movimento bastante vivo de mulheres buscando desromantizar a maternidade. No release que recebemos, você fala de um estranhamento. Isso fica bem marcado na segunda parte do livro, especialmente no poema que dá nome à obra. Pode nos contar de que forma o seu processo de ser mãe te inspirou a criar?
Eu faço parte de uma geração de mulheres multitarefas, que têm deveres a cumprir na sociedade: elas têm que ser profissionais muito competentes, mulheres muito decididas, enfim, existem muitos, muitos campos de atuação que não passam pela maternidade. E aí eu via dois caminhos, dois destinos. Um de seguir uma maternidade mais convencional e outro de recusa dessa maternidade. Nenhum desses dois destinos me contemplava quando me tornei mãe. Acho que me tornar mãe nessa configuração de uma mulher que cresceu valorizando a mulher profissional me colocou diante de uma experiência para a qual eu não estava preparada. Eu não tinha noção do que seria de fato o exercício da maternidade. Para a geração de mulheres do grupo social ao qual pertenço, creio que a maternidade é, mais do que nunca, uma invenção a ser feita, porque são mulheres que vão ter que viver a maternidade ao mesmo tempo que seguem sua vida profissional, têm outros desejos, outras aspirações... Fica difícil dar conta de tudo.
"a devastação chegou com teus olhos
Luciana Eastwood Romagnolli
demorados sobre os meus mudos
a devastação chegou no teu choro
eco de outro mundo
meu colo acolheu o estranho espanto refletido
a devastação chegou com o assombro
desconhecida aos olhos espelhos
da mãe a devastação
no mistério dos seus-meus olhos
o mistério de haver olhos"
Criou-se uma nova Luciana.
Sim, a maternidade não responde às perguntas que a gente tenta fazer. Eu me encontrei com alguém completamente diferente, uma pessoa que conheci naquele momento do parto. Acho que é uma experiência que quando vivida intensamente, faz com que a gente se desconecte um pouco desses discursos que estão tão prontos na sociedade sobre como viver a vida, como se relacionar com os outros, como deve ser uma pessoa, como deve ser um filho, como deve ser uma mãe… Ela coloca duas pessoas únicas ali pra descobrirem uma relação entre si. A gente fica 9 meses gestando e quando nasce é uma pessoa completamente diferente da gente, alguém a se descobrir. Só que a gente também se transforma. Eu tive que descobrir como me relacionar comigo mesma de novo.
É o que você chama de estranhamento, certo?
Exato. Eu acho que nos discursos da desromantização da maternidade, eu ainda vejo, às vezes, mães meio arrependidas. Qual é a palavra pra isso? Não sei, acho que vejo um certo rechaço. E o que eu queria sustentar no livro é algo que não é nem romantização e nem rechaço, então eu chamo de estranhamento. É o espanto, o susto, né? E a partir desse susto tem que ser feita uma invenção.
Isso passa pela manutenção rotina, mas também passa muito pela transformação do corpo...
Absolutamente. É um corpo atravessado. O corpo da mulher já é algo tão em questão... Muitas mulheres cis passam por processos intensos por causa da menstruação, e na gestação eles são avassaladores, o corpo passa a ser abrigo de um outro corpo. Eu acho que eu tinha uma certa ilusão de que seria uma experiência de conhecimentos. E o que eu descobri foi uma experiência de desconhecimentos muito grande. O tanto de coisa que o meu corpo é capaz de fazer sem que eu tenha consciência! Depois esse corpo é atravessado, literalmente, por esse filho que sai e há um todo um processo de redescoberta e de reconfiguração de um corpo que foi, de certa forma, rompido. Em seguida ainda tem a presença do filho, tem um redescobrir-se mulher, redescobrir o modo de estar no mundo com tantas identidades, né? Porque a mãe é só uma delas.
Você atuou como jornalista cultural em Curitiba e ainda o faz em Belo Horizonte. Agora, estamos falando do seu livro de estreia na poesia, lançado pela Quintal, mas há um próximo livro encaminhado, uma peça que será publicada pela Urutau. Como tem sido transitar entre linguagens, sempre se apropriando da palavra?
Eu trabalho com jornalismo porque a linguagem sempre se fez enigma pra mim. Gosto da possibilidade de me comunicar com os outros, mas também gosto dos lapsos, os impossíveis dessa comunicação, os mal entendidos… No teatro, a partir do momento que eu comecei a trabalhar com crítica, com curadoria, me confrontei também com a presença do corpo. Quando escrevo poesia e teatro, eu entendo que são essas duas dimensões - texto e corpo - que busco relacionar ou estranhar, porque relacionar não quer dizer necessariamente fazer consenso delas. Em cada área isso vai ser diferente. Na poesia, a minha criação é mais solitária, mas também discute essas materialidades: o corpo da mulher, o corpo perecível, o corpo que morre, o corpo da palavra, o corpo do papel - isso tudo aparece no livro de poesia. Quando eu vou para o teatro, a diferença é que levo tudo isso para a cena. Eu penso num corpo que fala diante de outros corpos e eles se olham. Isso inaugura uma outra dimensão para a minha escrita.

Pode nos contar um pouco sobre o seu próximo livro?
O meu livro de teatro chama “Hoje, não?”. É uma pergunta. Ele será lançado pela editora Urutau. Nele tem muitas questões que ecoam do livro de poesia, mas eu acho que tem uma presença até mais forte do olhar, sabe? A personagem é uma mulher que entra num teatro e se depara com o olhar da plateia. É a partir daí que ela fala.
Ele já tem uma data de lançamento?
Não, ele está em pré-venda no site da Urutau, mas a gente ainda não fez o lançamento por causa do livro de poesia. Vamos dar mais um tempinho. Aconteceu que foi uma coincidência os dois saírem muito perto.
Falando em Urutau, no livro de poesia você agradece o Francisco Mallmann, um dos poetas lançados pela Urutau, entre vários outros poetas paranaenses. Como é a sua relação com a poesia feita por aqui?
A Urutau faz seleções região a região e isso faz com que eles publiquem muitas pessoas que talvez não tivessem outros caminhos. O Chico, em específico, é um dos poetas contemporâneos que mais me inspiram. Ele assina a orelha do meu livro de poesia! É um poeta que tem uma trajetória com pontos em comum com a minha - ele também é dramaturgo, também é crítico de teatro e a gente tem um diálogo profissional por conta dessas coincidências, mas ele também é uma pessoa que eu admiro muito, acho doce e interessante de acompanhar. Ele é o poeta paranaense que mais me inspira no momento.