A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deve decidir nesta sexta-feira, dia 5, se obriga a Hapvida, maior operadora de planos de saúde privados do país, a republicar os balanços financeiros de 2024 e 2025. A medida pode aprofundar uma das crises mais graves já enfrentadas pela companhia, que perdeu 40% de seu valor de mercado apenas em novembro.
A controvérsia envolve a inclusão antecipada de R$ 900 milhões referentes à renegociação de uma dívida da empresa com o Sistema Único de Saúde (SUS). Há indícios de que a Hapvida contabilizou o efeito de um acordo antes de sua consolidação formal, prática que pode ter distorcido indicadores financeiros usados por investidores e pelo próprio mercado regulado.
Da fusão à crise: como a Hapvida se tornou gigante — e por que isso importa agora
A Hapvida só alcançou a posição de maior operadora de planos de saúde do país em 2021, quando realizou uma fusão bilionária com a NotreDame Intermédica. Na época, a direção da empresa apresentou a seus acionistas um plano ambicioso: aumentar a rentabilidade por meio de verticalização dos serviços — ou seja, concentrar o atendimento na rede própria de hospitais, clínicas e laboratórios.
Essa estratégia difere de outras operadoras, como a Unimed, que combinam rede própria com uma extensa base de médicos, clínicas e consultórios credenciados.
O modelo verticalizado, porém, parece não estar garantindo baixo custo no atendimento. Segundo o último balanço da empresa, a sinistralidade aumentou e os custos se elevaram. A pressão regulatória e financeira de 2024 e 2025 expôs ainda mais as fragilidades da estratégia.
A renegociação bilionária com o SUS
Em dezembro de 2024, a Hapvida informou ter aderido a um acordo para quitar R$ 2,9 bilhões em dívidas com o SUS por R$ 1,7 bilhão. Esse valor se refere ao ressarcimento que as operadoras pagam quando seus clientes utilizam o sistema público.
A ANS avalia se a empresa adiantou a contabilização de parte desse impacto — cerca de R$ 900 milhões — antes da validação definitiva do acordo. Se a agência decidir que a contabilização foi precoce, isso implica que ela pode melhorado artificialmente os resultados divulgados pela companhia:
- EBITDA cresceu 19,4% no 4º trimestre de 2024;
- Lucro Líquido Ajustado aumentou 170,3% no mesmo período
A republicação dos balanços pode reduzir esses números e alterar a percepção do mercado sobre a real situação da empresa.
Queda histórica na Bolsa e desconfiança crescente
A crise contábil foi apenas o estopim de um movimento mais amplo. A partir de janeiro de 2025, as ações da Hapvida abriram o ano cotadas na casa dos R$ 30 e, após a divulgação dos resultados do 3º trimestre, despencaram para R$ 17 em 13 de novembro, a mínima histórica.
A deterioração financeira fez bancos e casas de análise revisarem suas projeções:
- JP Morgan reduziu o preço-alvo da ação de R$ 52 para R$ 39, afirmando que o prognóstico da empresa é “incerto”;
- BTG Pactual apontou geração fraca de caixa, “resultados poluídos” e ambiente “volátil” dentro da companhia.
A sucessão de rebaixamentos reforçou a desconfiança do mercado sobre a capacidade da Hapvida de reverter as perdas.
Impacto direto no Paraná: 120 mil atendidos em Curitiba
No Paraná, a Hapvida controla a Clinipam, segunda maior operadora privada de saúde de Curitiba. Ao todo, cerca de 120 mil beneficiários dependem do atendimento da rede local, que inclui o Hospital e Maternidade Santa Brígida e os Hospitais Ônix.
A dimensão nacional da empresa também preocupa. Com 8 milhões de clientes, a Hapvida detém cerca de 16% de todos os beneficiários de planos de saúde do país — o dobro do segundo colocado, o Bradesco Saúde.
O que a ANS avalia
A agência reguladora analisa três pontos principais:
- Momento da contabilização do acordo com o SUS;
- Impacto direto nos lucros e no valor de mercado;
- Transparência e governança das informações divulgadas.
Se houver determinação para republicação dos balanços, será um movimento raro no setor e de grande impacto reputacional.
O que pode acontecer nos próximos meses
Analistas apontam três possíveis desdobramentos:
- Nova queda no preço das ações, caso os resultados revisados venham piores que o esperado;
- Reestruturação interna, com cortes de custos e revisão de operação nas praças menos rentáveis;
- Venda de ativos ou desaceleração de projetos de expansão.