Diz-se que Astrid Roemer é uma escritora surinamesa. Em verdade, partiu para a Holanda bem jovem. Mas voltou a morar alguns anos no Suriname. Acho importante frisar isso: sua passagem pelo Atlântico, daqui para lá, de lá para cá e novamente o início da jornada de um país do sul global para um país do norte global, justamente o país que dominou a antiga Guiana Holandesa por mais de 300 anos. Chamo a atenção para esse vai-e-vem da autora, que recentemente esteve em Paraty para a FLIP, porque um número grande de teóricos da negritude trata justamente das passagens de um continente a outro – e a própria vida de Roemer aponta para essa experiência “de passagens”.
Paul Gilroy comenta esses deslocamentos, o ir e vir de cá para lá e vice-versa, no caso dela, algo literal, mas no caso de milhões de pessoas um deslocamento bastante simbólico. Paul Gilroy faz muitas perguntas e tira muitas conclusões a respeito delas, entre as quais “a que cultura pertence uma pessoa negra que nasceu nas Américas?” Há tantas gerações de homens e de mulheres negras nas Américas que podemos dizer que os laços com seus antepassados foram rompidos há tempos, a começar pela proibição do uso dos nomes das famílias e dos grupos sociais originários.
Abro um adendo aqui, antes de continuar com Paul Gilroy: leio muitas vezes que tal ou qual autor “escreve na língua do colonizador” e que “deixou a língua dos antepassados”. Mas como eu escreveria na língua dos meus antepassados se não a conheço? No meu caso, eu uso o português que é língua materna e também oficial do meu país. Não faço ideia quais línguas falavam meus antepassados diretos. Tenho apenas uma noção de quais poderiam ter sido. Línguas africanas, línguas indígenas, que eu nunca ouvi em casa. A história das proibições de línguas faladas no Brasil é antiga – e não cabe aqui, enfim, discutir isso. Em resumo: falamos a língua do colonizador, sem muita opção. Não à toa o Brasil tem a maioria dos falantes monolíngue.
Ainda em relação a Paul Gilroy, a experiência humana do homem negro e da mulher negra nas Américas é extremamente complexa. Sua busca por um ser-estar no mundo passa por: a) uma busca por autoemancipação da escravidão e seus respectivos horrores; b) a busca por uma cidadania substantiva, negada pela escravidão; c) a busca por um espaço autônomo no sistema de relações políticas de cada lugar para onde o sujeito negro foi levado[1].
Então, não há como separar a experiência de vida de Noenka, a personagem principal desse livro poderoso, com sua situação numa ex-colônia neerlandesa. Ela é mais uma vítima do Atlântico tornado, à revelia, negro. E ela é mulher. E ela tem relações com outra mulher. Se uma das palavras da moda, para o bem e para o mal, é “interseccionalidade”, eis um caso muito relevante na literatura.
Seria interessante, antes, situar o livro numa linha temporal, para melhorar a análise dele. O copyright é de 1982. Embora a discussão pareça “atual”, e embora a edição brasileira (primeira vez que a autora é publicada no Brasil) alcance outras tantas publicações recentes sobre o tema (ou similar), mais de quarenta anos nos separam da primeira edição do livro de Roemer. Sem esticar demasiadamente a questão – e sem comparações apressadas –, Beloved e The colour purple foram publicadas, respectivamente, em 1987 e 1982, dentre tantas outras obras. Tanto um quanto outro ainda hoje recebem críticas – mesmo de grupos negros ou de teoria queer – a respeito do modo como os negros são tratados no livro, a maioria, segundo as críticas, como ignorantes e violentos. A pergunta que me faço aqui, sem ter respostas prontas, é: seria um modo de os anos 1980 fazerem uma leitura do legado branco em relação aos negros escravizados e seus descendentes? A pergunta não é simples, pois envolve uma série de áreas do saber para tentar respondê-la. Só anoto isso porque creio piamente que alguns leitores talvez não apreciem o modo como Astrid Roemer descreve suas personagens. Só sei de uma coisa: Noenka é vítima de toda sorte de violências: sexuais, físicas, psicológicas, monetárias, de classe, trabalhistas. O fato de ser mulher, numa ex-colônia, não branca, dona de suas vontades, tentando ser livre, é um prato cheio para a sociedade absolutamente desigual que os colonizadores deixaram como legado nas colônias mundo afora.
Preciso abrir outro adendo aqui e emprestarei da pesquisadora argentina Florencia Luna sua versão para a vulnerabilidade social. Para a professora, todos nós podemos ser mais ou menos vulneráveis em algum momento da vida (por doença, por dificuldades financeiras, por solidão), mas alguns corpos são mais vulneráveis que outros: o corpo negro, o corpo lgbt, o corpo presidiário, talvez a mulher grávida. Mas em alguns casos, o mesmo corpo tem “camadas de vulnerabilidade” que andam, infelizmente, juntas. É o caso de Noenka, como é o caso de milhões de mulheres mundo afora. Noenka torna-se vulnerável porque é tornada vítima primeiro pela família, depois pelo marido, depois pelos empregadores, e pelo sistema como um todo. Haverá momentos em que essas camadas de vulnerabilidade, todas juntas, farão com que ela realmente não tenha saída caso deseje permanecer viva. No correr das partes do livro, eu imaginava Noenka como uma espécie de Justine negra: para onde corresse, ele encontraria violência. Quando ela descobre paz, um momento em que pode respirar, seguir seus desejos, “ser ela mesma”, em linguagem vulgar, há todo o peso social que a retira desse lugar, como se a ela não fosse permitido simplesmente ser.
Claro, muitas obras brasileiras, africanas, caribenhas, de outras comunidades, trazem personagens marcadas pela perseguição social, como o caso de Noenka. São tantas autoras, que seria inócuo fazer uma lista porque certamente eu seria injusto. Mas creio já ter falado aqui de autoras tão diferentes entre si como Pilar Quintana e Ayọ̀bámi Adébáyọ̀. Há também uma riquíssima crítica (feitas por mulheres negras) que servirá de base para uma leitura mais ampla e profunda de Sobre a loucura de uma mulher. Com muita felicidade devemos receber essa tradução, feita com muito cuidado pela tradutora paranaense Mariângela Guimarães. Em certo sentido, é um romance brutal, eivado de grandes belezas.
O romance de Roemer abre caminhos para uma série de discussões muito atuais sobre a mulher e sobre a mulher negra. Demorou para chegar, mas está aí.
[1] Adaptado de GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo, Editora 34; Rio de Janeiro, Universidade Cândico Mendes, 2. ed., 2012, p. 225.