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Bom momento do cinema nacional mostra como arte resistiu à ameaça do bolsonarismo

Prêmios para "O Agente Secreto" vêm exatos cinco anos após discurso goebbelsiano de Roberto Alvim sobre a necessidade de uma arte "heróica"

Bom momento do cinema nacional mostra como arte resistiu à ameaça do bolsonarismo
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Os prêmios para “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, neste domingo (11), vieram quase exatos cinco anos depois de um dos momentos mais aterradores para a arte e a cultura brasileiras. Em janeiro de 2020, o então secretário de Cultura do Governo Federal, Roberto Alvim, declarava que a arte brasileira “da próxima década” teria de ser heroica e nacional, ou não seria nada.

"A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada", disse Alvim, em um vídeo tristemente célebre.

O vídeo acabou derrubando o então secretário (o Ministério da Cultura tinha sido extinto um ano antes por Jair Bolsonaro) por ser uma cópia de uma declaração de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista. Alvim entregou a renúncia, lamentando o ocorrido, mas insistiu que a frase, em si, era perfeita.

Arte submissa

O significado da frase e de sua reiteração é profundo e difícil de compreender. O que fica claro é que, assim como no nazismo, e na verdade como na maior parte dos regimes autoritários, o desejo do governo é que a arte sirva como meio de elevação de conceitos como pátria e desenvolvimento. O que se quer não é apenas calar a arte crítica, que faz pensar; é também inocular por meio dos produtos culturais as ideias que são caras ao regime.

Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura de Jair Bolsonaro
Roberto Alvim: citação a Goebbels. Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil

O ufanismo e o elogio da raça nacional estão tanto no nazismo quanto nos governos soviéticos. O desejo de retratar homens fortes, capazes de se sacrificar pela Nação, que obviamente encontra no governo seu símbolo maior.

Felizmente, a arte desejada por Alvim não se tornou o destino do Brasil. Nem por uma década, nem pelos terríveis quatro anos do governo Bolsonaro. Houve sempre algum tipo de resistência.

E ao contrário do que pregava a declaração de Alvim-Goebbels, a arte brasileira desde então só atingiu lugares mais altos. Ao invés de se tornar um “nada”, vem sendo reconhecida internacionalmente como poucas vezes antes.

Arte, cultura e memória

Muito se tem falado que o Brasil, por ter prendido os generais e o presidente que tentaram dar um Golpe de Estado e acabar com a democracia no país, virou exemplo para o mundo. Pode-se dizer o mesmo de nosso cinema e de nossa arte em geral.

Ao receber o prêmio neste domingo, tanto Kleber Mendonça quanto Wagner Moura relembraram a ditadura e fizeram uma ode à memória. O filme brasileiro que ganhou o Oscar ano passado, “Ainda Estou Aqui”, era igualmente um ajuste de contas com a ditadura e uma lembrança da importância da democracia.

A arte brasileira é nacional, sim, mas em outro sentido. E foi heróica ao resistir ao que se pedia dela nos anos terríveis que o país viveu entre 2019 e 2023. E deve ser celebrada inclusive por isso: pelo papel insistente que tem feito de relembrar nossas feridas e de apontar a importância de tudo o que vivemos, sem jamais deixar de lado a liberdade necessária para que sejamos um país melhor.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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