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Brasil era estratégico para Facebook, diz livro

Obra de ex-responsável pelas políticas da empresa destaca papel da ex-presidente Dilma no processo de expansão de mercado da rede social

Brasil era estratégico para Facebook, diz livro
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O Brasil era o principal alvo do projeto do Facebook de levar internet a pessoas ainda sem acesso à rede em 2015 e o plano da empresa para chegar a dois bilhões de usuários. A informação está em Careless People - A Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism, lançado no último dia 11 de março.

A empresa, que lançou ações na Bolsa de Valores em 2012 e levantou na ocasião US$ 16 bilhões, estava trabalhando para ampliar sua base de clientes para manter o aumento do valor de suas ações. Naquele ano, a rede social chegou a 1 bilhão de usuários, um crescimento que impunha um desafio: crescer fora dos EUA e da Europa.

Os novos usuários viriam de mercados ainda em ampliação: China e outros países asiáticos, África e América Latina. A estratégia, relata a autora de Careless People, Sarah Wynn-William, era promover o projeto Internet.org, que prometia promover acesso barato à internet.

Sem conseguir fazer a iniciativa decolar, o Facebook tentou conquistar a adesão de países-chave.

"Brazil is our biggest target in this hemisphere. It's the largest nation in Latin Americam and half its population is still offline, which makes it critical for Facebook and for Internet.org", explica.

Wynn-William deixou uma carreira na diplomacia para trabalhar no Facebook porque - como explicou no livro - acreditava que a rede social iria melhorar o mundo. Parte desse papel, diz a autora, seria através da participação na construção de políticas públicas em torno do desenvolvimento e uso de tecnologias digitais.

Inicialmente sem interesse por política, o fundador do Facebook, Mark Zuckenberg começa a se dedicar a encontros com lideranças de países na Ásia e América Latina para convencê-los a aderir ao Internet.org e a permitir a atuação livre do Facebook em seus país.

Mas a tarefa se mostra difícil. Os dignatários cortejados pelo Facebook se mostram resistentes ao projeto.

"We thought we had convinced the Mexican president to launch Internet.org after our meeting last year but, like so many of the Internet.org launches, it has stalled out. Even more worrying is the president of Brazil. We learn that she has serious concerns about Internet.org that we need to address"

A então presidente do Brasil, Dilma Roussef, aceitou se reunir com Zuckenberg no Summit of the Americas no Panamá, em 2015. Para o Facebook, o Brasil representa os desafios que a empresa deve enfrentar. O país tinha acabado de aprovar o Marco Legal da Internet em 2014 e estava trabalhando no que viria a ser a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, promulgada em 2018), liderando as iniciativas de regulamentação do setor na região.

No encontro com Roussef, Zuckenberg oferta trabalhar com as operadoras de telecomunicações para ampliar o acesso à internet e trabalhar com o governo na criação de sites institucionais. Mas Roussef quer mais. Ela quer dinheiro e infraestrutura.

"Brazil is so important as a leader for the internet and is so influential. Facebook can help you achieve your goals to bring the benefits of the internet to all the Brazilian people. Our program is called Internet.org".
Unsurprising, she already knows the name, and as they into the substance, Rousseff transitions from charm to a steely grasp of the technical aspects of internet regulation. A trained economist, she asks pointed questions that Mark has ahard time answering about zero rating - where services like Internet.org get subsidized by telecoms, which underpins the whole project. She deflects Mark's efforts to get her to endorse or partnet with us to launch the Internet.org app and instead asks for real ways to provide free internet in Brazil. She wants infraestructure. She wants investment".

O Brasil não aderiu ao Internet.org e continuou a avançar na regulamentação das redes sociais e ferramentas digitais. Careless People é um retrato do encontro entre liderança tecnológica e seus impactos sociais. A Meta, empresa que hoje é proprietária do Facebook e do Instagram, conseguiu impedir na justiça que Wynn-William pudesse promover o livro.

Apesar da briga jurídica, o livro estreou em terceiro lugar entre os mais vendidos da Amazon nos Estados Unidos. Além do relato sobre a tentativa de Zuckenberg de se aproximar de líderes mundiais, a obra relata como a empresa lidou com os desafios de ser publicadora do conteúdo de bilhões de pessoas, como a veiculação de conteúdos de ódio, violência, racismo e ataques pessoais.

O Brasil aparece em outro episódio importante da história: quando o vice-presidente do Facebook no Brasil, Diego Dzodan, foi preso após a empresa se recusar a atender a determinação da justiça de entregar mensagens de um traficante transmitidas pelo Whatsapp (que também pertence à empresa).

Zuckenberg tenta transformar o caso em uma batalha pelo direito de não se submeter à Justiça. Pouco antes o Whastapp viu seu concorrente Telegram ganhar 1,5 milhões de usuários quando foi bloqueado no Brasil por dois dias, também por ordem judicial.

Em resposta, Zuckenberg postou em sua rede social uma mensagem pedindo a população brasileira que se manifestasse junto ao governo contra a decisão. A chuva de manifestações irritou a presidente Dilma, que não tinha nenhuma relação com a ordem judicial. Zuckenberg apagou a frase em que pediu o envio de mensagens para o governo depois de ser comunicado do mal-estar causado no governo brasileiro.

No episódio das mensagens de traficantes pelo Whatsapp, Zuckenberg resolve usar a situação para defender "nossa proteção de nossa comunidade, nossa cultura e nossa tecnologia". E escreve um relato para postar online:

"I have a heartwarming story to share.
To protect our community and keep you safe, all messages you send on Whatsapp are encrypted. This means your messages are so secure that we couldn't access even if we wanted to, and neither can goverments or hackers"
Of course some governments that want access to your messages don't like this, and yesterday Brazilian police arrested Diego Dzodan, the leader of our Sao Paulo office, for protecting someone in our community and not turning over messages we couldn't access ourselves.

O problema para Zuckengerg é que nesse caso, essa pessoa "parte da comunidade" é alguém acusado de tráfico de drogas e de ameaçar matar o juiz do caso. A equipe do CEO do Facebook alerta que não só o post aumentaria o clima ruim entre a empresa e o governo brasileiro, como complicaria a defesa dela na justiça. Até ali, a estratégia legal do Facebook era de defender que o Whastapp não era a mesma empresa que o Facebook, portanto Dzodan não poderia ser responsabilizado.

Apesar da insistência até da equipe jurídica do Facebook, Zuckenberg insiste querer publicar o texto. Os advogados da companhia alertam que tal ação não só poderia manter Dzodan por mais tempo preso, como complicaria a situação de outros funcionários da empresa que possam ser presos no futuro.

O tema geral por trás de todo o livro é que o Facebook, como todas as redes sociais, tem como base de seu plano de negócios serem publicadoras de conteúdo, mas não querem se responsabilizar pelas repercussões que esses conteúdos possam ter.

Apesar de ainda não ter versão em português, Careless People está disponível para compra na Amazon por R$ 94,90 na versão e-book.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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