Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
O Paraná registrou 280 novos casos de hanseníase em 2025, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan Net), do Ministério da Saúde. O número coloca o estado como líder em registros da doença na região Sul, à frente de Santa Catarina, com 103 casos, e do Rio Grande do Sul, que contabilizou 77 notificações no mesmo período.
Em resposta ao Jornal Plural, a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná afirma que o aumento no número de casos deve-se à vigilância ativa, pois, “apesar das fragilidades estruturais que ainda persistem, o volume expressivo de notificações pode ser interpretado como uma consequência direta de um manejo mais robusto na detecção e no acompanhamento dos pacientes, evidenciando um sistema de saúde que busca identificar a doença de forma mais presente do que em outras localidades.”
Conhecida historicamente como lepra, a hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Ela afeta principalmente a pele, mucosas e nervos periféricos, podendo provocar perda de sensibilidade, dores neurais e, em casos mais avançados, deformidades físicas. Transmitida por vias respiratórias de pacientes não tratados, tem longo período de incubação – entre dois e dez anos –, o que dificulta a percepção inicial. Apesar disso, a doença tem cura e deixa de ser transmissível logo após o início do tratamento adequado.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ocupa a segunda posição mundial em número de casos, atrás apenas da Índia. Mesmo com avanços no diagnóstico e no tratamento, a hanseníase segue como um problema de saúde pública no país — agravado pelo estigma histórico que ainda afasta pacientes dos serviços de saúde. ESPECIALISTA FALANDO SOBRE
Os sinais iniciais incluem manchas claras ou avermelhadas na pele com alteração de sensibilidade, formigamentos, dores nos nervos e diminuição da força muscular. O diagnóstico é clínico e laboratorial, podendo envolver baciloscopia e biópsia das lesões, com classificação da doença em paucibacilar ou multibacilar. O tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e dura, em média, de seis a doze meses, podendo ser estendido conforme a gravidade do caso.
O maior pico da hanseníase no Brasil foi registrado em 2003, com 51.941 novos casos. Em resposta à persistência da doença, o Ministério da Saúde instituiu, em 2016, o mês de janeiro como marco nacional de conscientização, dando origem à campanha Janeiro Roxo, voltada à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao combate ao preconceito.
No Paraná, que conta com 733 casos ativos, segundo a Sesa, as ações da campanha estão alinhadas ao Plano Estratégico para o Enfrentamento da Hanseníase 2025–2030, que articula a Atenção Primária à Saúde, a Vigilância Epidemiológica e iniciativas de Promoção da Saúde. Entre as estratégias previstas está o incentivo à busca ativa de casos suspeitos, capacitação de profissionais e ampliação da informação à população. “A campanha encoraja a população a buscar ajuda imediata sem o temor do julgamento social, fator que historicamente retarda o diagnóstico e agrava as sequelas”, destaca a nota.
Durante o Janeiro Roxo, os municípios podem promover o chamado “Dia da Mancha e dos Nervos”, ação voltada à avaliação clínica de pessoas com sinais suspeitos da doença. A iniciativa utiliza ferramentas como o Questionário de Suspeição de Hanseníase (QSH) e a avaliação neurológica simplificada, facilitando a identificação precoce de alterações cutâneas e neurológicas. Em Curitiba, até a data de publicação desta reportagem, a atividade ainda não havia sido realizada.