Foi sob ameaça de prisão que o comerciante Benedito da Silva precisou deixar sua lanchonete, a Cana Caiana, durante a ação de desapropriação conduzida pela Prefeitura de Curitiba na Travessa Nestor de Castro, no dia 14 de outubro de 2025. Ao lado de outros cinco lojistas, Benedito desocupou a galeria comercial, que foi demolida no mês de novembro para realização das obras da Rua da Memória.
“Foi terrível. O oficial de justiça perguntou o que eu iria fazer com a mobília, e eu disse que não tinha para onde levar. Então ele disse que precisava doar tudo. Falei que não, e ele me deu voz de prisão. Uns 20 minutos depois, quando meu advogado chegou, foi retirada a voz de prisão”, conta.
Benedito alugou um galpão às pressas, para onde levou todos os pertences. As geladeiras, balcões, estufas e fornos ficaram guardadas por meses, até que conseguisse encontrar um ponto para reabrir a loja. No meio tempo, precisou fazer acordos com funcionários e se endividou para começar as reformas da nova lanchonete.
Além de Benedito, outros cinco comerciantes precisaram deixar os imóveis desapropriados pela Prefeitura: Lurdes Trevizan, proprietária do salão Sharon Cabelereiros; Jairo de Souza, dono do bar Boesia; Tom, do Bar e Lanchonete do Tom; e os imigrantes sírios Wessam Al Hraki e Elli Salloum, do restaurante Al Beek Gastronomia Árabe e da tabacaria Shisha King, respectivamente.
Mais de quatro meses depois daquele dia, as marcas da ação da Prefeitura seguem vivas no cotidiano dos empresários. Entre dívidas, ações trabalhistas e episódios depressivos, os lojistas lutam para se reestruturar e esperam juntos na justiça por alguma indenização vinda da Prefeitura.
Batalha na justiça
A briga na justiça começou em dezembro de 2023, quando os comerciantes descobriram por acaso que o imóvel seria desapropriado. Na ocasião, Jairo de Souza abriu uma correspondência por engano, destinada aos proprietários do local. A carta da Prefeitura determinava que o imóvel deveria ser desocupado até fevereiro de 2024, sem previsão de indenização para os inquilinos.
Os lojistas se reuniram e contrataram um advogado para negociar o prazo da desapropriação e buscar algum tipo de indenização. Durante todo o processo, contam que tentaram entrar em contato com a Prefeitura diversas vezes, mas receberam apenas repostas negativas.
A ação judicial defendia que os inquilinos têm o direito da manutenção da posse dos imóveis até que as devidas indenizações fossem pagas. Segundo jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em caso de desapropriação, locatários comerciais têm direito a indenização por fundo de comércio – a soma de todos os bens necessários para o desenvolvimento da atividade comercial.
“Em nenhum momento eles quiseram resistir a desapropriação, queriam apenas negociar um prazo para poder se reorganizar. Conseguimos o prazo que conseguimos por meio de incontáveis recursos judiciais. O município foi totalmente inacessível”, diz o advogado Silvenei de Campos. “As ações estão tramitando. Até hoje, ninguém recebeu um centavo”.
O prazo final para desapropriação, na terça-feira 14 de outubro de 2025, chegou apenas quatro dias antes da data, em uma sexta-feira. A essa altura, praticamente todos os comerciantes já haviam encontrado um ponto para se realocar, mas precisavam terminar reformas para fazer a mudança.
No dia 13 de outubro, segunda-feira, Campos entrou com um pedido para a concessão de mais 15 dias, para que pudessem desocupar o imóvel voluntariamente. Em menos de duas horas, o pedido foi negado e, às 7h30 de terça-feira, os oficiais de justiça aparecem para cumprir a desapropriação.
O prejuízo
Benedito, que estava na galeria comercial desde 2001, conta que tomou um prejuízo de cerca de R$ 500 mil para reabrir a lanchonete, agora localizada na Rua Barão do Serro Azul. “Nos primeiros 40 dias, nem consegui sair de casa. Fiquei pensando no que ia fazer. Tudo que eu tinha estava ali e, de repente, você não tem mais nada. Fiquei sem chão”, diz.
Na loja antiga, o empresário empregava 16 funcionários. Depois de 60 dias da desapropriação, conseguiu fazer acordos com alguns deles, enquanto outros procuraram a justiça do trabalho. “Não consegui pagar nada do que tinham direito. Férias, 13º salário... Agora, estou endividado. A nova loja abriu e meu objetivo é pagar as contas. É um novo começo”, conta.
A desapropriação às pressas fez com Wessam Al Hraki perdesse boa parte de sua mercadoria. “Tinha freezer cheio de carne, verduras... Com o tempo para abrir o novo restaurante, até os refrigerantes passaram da validade. Tive que jogar tudo fora”, explica.
Wessam precisou desembolsar mais de R$ 200 mil para reabrir o Al Beek, que continua na Travessa Nestor de Castro, mas do outro lado da rua. “Demorou dois meses para reformar aqui. Dei aos funcionários um mês de férias e no próximo mês vieram aqui me ajudar com a reforma”, diz.
Antes do aviso da desapropriação, Wessam conta que o restaurante tinha oito funcionários, mas precisou diminuir o ritmo de trabalho aos poucos até chegar a três empregados, que continuam com ele na nova loja.
Elli Salloum também se mudou para o outro lado da rua, e o Shisha King reabriu ao lado do novo Al Beek. “Fiquei desanimado depois da desapropriação. Joguei minhas coisas aqui e fiquei um mês e meio em casa, deprimido porque não tinha dinheiro. Tive que sujar meu nome para fazer reforma. Gastei cerca de R$ 60 mil, tudo emprestado do banco”, conta.
Lurdes Trevizan saiu da galeria em fevereiro de 2025, e instalou seu salão de belezas na esquina da Rua do Rosário com a Praça Tiradentes. Mesmo com a saída antecipada, Lurdes conta que não conseguiu recuperar o movimento da loja antiga, que ficou 38 anos no mesmo lugar.
Agora, trabalha para quitar a dívida de R$ 100 mil que adquiriu na mudança. “Fico bem triste com o que aconteceu. Foi falta de consideração da prefeitura. Estávamos ali há tantos anos, sempre trabalhando certinho”, diz. “Vai longe para eu pagar isso ainda. Esperamos alguma compensação na justiça”.
Enquanto isso, as obras da Rua da Memória seguem paradas desde a demolição dos edifícios. Segundo o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), o edital para a contratação da empresa que deve conduzir as obras será publicado no segundo semestre deste ano.
Silvenei de Campos destaca que, caso o município tivesse ampliado o prazo da desapropriação em alguns meses, não haveria nenhum prejuízo para o projeto. “Se pudessem ter ficado lá até janeiro ou fevereiro, teriam aproveitado o fim de ano, quando as vendas são um pouco melhores. Eles teriam pago os funcionários e poderiam se mudar com calma”, afirma.
Além do descontentamento com a atuação da Prefeitura, os empresários também criticam a postura do ex-prefeito Rafael Greca (MDB), que saiu em defesa da obra e fez uma postagem em seu perfil do Instagram em que chamou os comércios de “lojinhas de uso duvidoso”, em outubro do ano passado.
“Duvidoso por quê?”, questiona Trevizan. “No ano passado, até ganhei uma homenagem da Assembleia Legislativa do Paraná, pelo tempo que estou aqui. Sempre trabalhei certo, isso não se fala.”
“Cada um tem uma história, cada um tem um sonho nessas lojas que o ex-prefeito diz que são de ‘uso duvidoso”, diz Salloum. “Tenho família aqui e tenho família na Síria que dependem de mim e da minha loja. Não somos duvidosos”.
Insegurança
O combate à insegurança é um dos pilares centrais do programa de revitalização Curitiba de Volta ao Centro, lançado pela Prefeitura no ano passado e do qual a Rua da Memória faz parte. Desde a demolição, o terreno baldio que ocupa metade da quadra foi fechado com tapumes e nada foi feito.
Com o fluxo de pedestres reduzido, a insegurança segue sendo uma das principais preocupações dos comerciantes da região. Segundo relatos, o ponto de tráfico de drogas apenas mudou de quadra. As vendas continuam à céu aberto, mas agora se concentram na Rua José Bonifácio, transversal da Nestor de Castro.
Wessam Al Hraki, que está na rua desde 2014, conta que ação da Prefeitura fez pouca diferença na segurança da região. “O policiamento não aumentou depois da obra. Faz mais de dez anos que estou aqui, já vi várias pessoas serem mortas na rua, e não mudou nada. A polícia chega depois que as coisas acontecem”, afirma.
Para Elli Salloum, o jeito de enfrentar a insegurança é convidar amigos e familiares para fazer companhia durante seu turno na loja: “Se ficasse sozinho, com certeza seria assaltado”.
O que diz a Prefeitura
O Plural questionou a Prefeitura de Curitiba sobre a falta de diálogo com os comerciantes e forma como a desapropriação dos imóveis foi conduzida. Em nota, a Prefeitura afirmou que “todos os trâmites de desapropriação seguiram a legislação vigente”.
Confira o texto na íntegra:
Os cinco imóveis que foram parcialmente ou totalmente desapropriados pela Prefeitura de Curitiba foram declarados de utilidade pública em 2022, para a implantação da Rua da Memória, na Travessa Nestor de Castro.
Os imóveis foram demolidos em 2025, após cumprimento do mandado de imissão de posse em favor do Município, que ajuizou as ações entre 2023 e 2024. Todos os trâmites de desapropriações seguiram a legislação vigente.
Rua da Memória
A Rua da Memória está conectada às ações de revitalização da região central, dentro do projeto Curitiba de Volta ao Centro. A estrutura vai fazer a ligação entre o Memorial de Curitiba e a Casa da Memória, unindo espaços multiculturais que preservam a história e o patrimônio cultural de Curitiba.
A intervenção vai contribuir para a recuperação urbana da região central e a valorização da arquitetura de prédios e monumentos por toda a capital. Também vai fortalecer a mobilidade ativa, com calçadas e estrutura cicloviária integradas a um sistema de transporte coletivo.