A chapa de Rafael Greca ficou finalmente pronta, depois de muita turbulência, articulação, algumas traições e uma bela pitada de ousadia. O prefeito, agora no DEM (e não mais no minúsculo PMN) e seu vice do coração, Eduardo Pimentel, agora no PSD (e não mais no PSDB do proscrito Beto Richa) partem para a reeleição com caminho mais ou menos limpo.
Greca deu o pulo do gato ao convencer Ratinho Jr. (PSD) a ficar do seu lado. Como disse João Arruda nas redes sociais, o posto de prefeito de Curitiba às vezes fica mesmo parecendo um cargo em comissão do governador. Ainda mais quando o governador está de caneta cheia e popularidade em alta.
Ao convencer Ratinho, Greca conseguiu tirar Ney Leprevost, seu principal adversário, da jogada. A articulação foi feita com uma certa brutalidade. Eduardo Pimentel, com sua fama de bom moço, foi entrando como quem não quer nada na sede do PSD e, de repente, viram que ele tinha ido com escova de dentes e cuia de chimarrão.
Como nenhum partido pode lançar duas chapas ao mesmo tempo, Leprevost ficou sem saber o que fazer. Correu pra lá e pra cá, disse que confiava na palavra de Ratinho. Bom, pode ter sido só da boca pra fora. Mas, se acreditou mesmo, deu uma da Velhinha de Taubaté. Todo mundo sabia que, apesar da cara de paisagem, Ratinho estava por trás daquilo.
Greca ainda deu sorte. Numa promoção do tipo compre um, leve três, acabou ganhando de brinde as desistências de Luciano Ducci e Luizão - seus partidos foram também alegremente cooptados pelo Palácio Iguaçu.
Sobravam dois adversários com alguma força. Mas Gustavo Fruet (PDT), sem ver chances reais e perdendo a força alheia para impor um segundo turno, preferiu evitar um possível desastre eleitoral que poderia afundá-lo de vez. Sobrou só Francischini (PSL) que, sozinho, dificilmente pode fazer algo.
Os outros candidatos, convenhamos, estão pensando em fazer nome, construir carreira, atrapalhar um pouco... Mas dificilmente acreditam a sério que podem chegar a um segundo turno. Goura (PDT) é um deputado promissor. Jovem, terá a chance de se apresentar para o curitibano e, quem sabe?, carimbar a passagem para Brasília daqui dois anos.
Greca tem tudo para ser reeleito. Tudo. Apoio do governador. Máquina da prefeitura na mão. Dinheiro. Partidos. Vereadores para servirem de cabos eleitorais. Tudo. Seu verdadeiro "opositor" é a própria língua: é improvável que ele chegue a outubro sem soltar mais uma das suas.
Em 2016, estava quase eleito quando falou que vomitou por causa do cheiro de um mendigo. Disse que as mulheres não precisavam ser empoderadas, e sim amadas. Agora, aquecendo a língua para a reeleição, já disse que os mortos por Covid em Curitiba são gratos a ele. Vá saber o que dirá nos próximos dias.
Caso consiga levar a eleição, Greca será o primeiro prefeito eleito três vezes na capital. Jaime Lerner, seu herói pessoal que hoje não quer nem ouvir falar no nome do discípulo, teve três mandatos, mas dois como biônico (só foi eleito mesmo na terceira vez, em 1988). Taniguchi e Beto tiveram duas eleições cada. Três vitórias, ninguém.
Imagina o ego do homem.