Em 2017, Vicky Marquez, 28, e seu filho Karím, 6, partiram da Ilha de Margarita, no nordeste venezuelano, passaram por Puerto La Cruz, Santa Elena de Uairén e chegaram na fronteira brasileira. Sem dominar o português e com informações limitadas, converteu todos os bolívares acumulados por R$ 30, conseguiu duas semanas de visto, passou dias pedindo esmolas e noites dormindo nas ruas de Roraima até começar a se estabelecer na região.
A virada começou com a ajuda de brasileiros que lhe ofereceram abrigo, trabalho e orientações essenciais sobre documentação. Dois anos após, em 2019, mãe e filho cruzaram a Linha do Equador e desembarcaram em Curitiba — capital com uma das principais comunidades venezuelanas do país.
No mesmo ano em que Vicky deixou terra natal, a migração venezuelana para o Brasil registrou um crescimento contínuo e atingiu seu pico em 2023. Números compilados pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) mostram que, de janeiro de 2017 a outubro de 2025, houve mais de 621 mil pedidos de residência e 282 mil solicitações de refúgio por venezuelanos.
Os registros parciais de 2025 (de janeiro a outubro) apontam para uma possível inflexão na tendência, com cerca de 69 mil pedidos de residência e pouco mais de 17 mil de refúgio no período. Caso se mantenha, o ritmo levará a resultados inferiores aos de 2022 e 2023, ainda que em patamar elevado.
Além da quantidade, a distribuição geográfica dos imigrantes também vem se modificando, conforme a rota escolhida por Vicky até o Paraná. Segundo o Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA), em 2025 o Paraná é o segundo estado mais procurado pelos venezuelanos, com 12.018 solicitações, atrás apenas de Santa Catarina, com 13.544 registros.

Foi justamente para orientar essa multidão de compatriotas que a migrante se reinventou. Há quase uma década no Brasil, a venezuelana se apresenta nas redes sociais como Vicky en Brasil e faz o que lhe trouxe reconhecimento: a produção de conteúdo informativo sobre o Brasil para venezuelanos, além de uma curadoria jornalística em tempo real do que acontece em seu país.
Inicialmente, em meados de 2017, publicava vídeos informais para mostrar as rotinas no novo país, desde os preços nos mercados, tipos de empregos disponíveis, diferenças culturais e serviços públicos. Com o aumento dos acessos nas redes, percebeu que poderia usar suas experiências para orientar outros venezuelanos. A partir disso, centenas de compatriotas passaram a buscá-la para solicitar informações sobre os trâmites migratórios.
Somando as principais redes (Facebook, Instagram, TikTok e YouTube), a comunicadora independente interage com pouco mais de 380 mil pessoas que, na maioria, comentam em espanhol. O perfil alterna entre conteúdos para os recém-chegados no Brasil e os informes mais relevantes da Venezuela.
Em vídeo publicado em março de 2018, Venezuelana mostra a diferença do câmbio entre os países. Imagem/Reprodução.
Dentre os conteúdos noticiosos, um post publicado na madrugada do dia 3 janeiro 2026, por exemplo, destacava uma declaração do Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que acusava os Estados Unidos de "criminosa agressão militar". O conteúdo, referindo-se a ações norte-americanas que capturaram Nicolás Maduro, ultrapassou 200 mil visualizações em suas redes.
A partir da experiência de noticiar fatos urgentes, a comunicadora conta que passou a desenvolver um senso de responsabilidade jornalística e a investir no acompanhamento dos noticiários. Foi a partir dessas práticas que começou a desenvolver uma comunicação para os venezuelanos no Brasil sobre o cotidiano conturbado.
Sobre a situação atual em seu país de origem, Vicky avalia que a maioria dos venezuelanos que a seguem celebraria uma mudança de poder em Caracas — posicionamento que atribui às realidades vividas pela população, como a pobreza, a falta de medicamentos, a repressão e o controle sobre a liberdade de expressão.
Quanto à possibilidade de voltar para a Venezuela no futuro, sua visão é ambígua. "Todo mundo gostaria de voltar, só que não é a mesma situação. São saudades que remetem a um passado que não existe", disse. Nesse sentido, Vicky relata ter perdido familiares enquanto migrava e não ter tido a chance de se despedir. Seu filho, por outro lado, está totalmente integrado ao Brasil.
Após esses longos anos, ao olhar para trás, a comunicadora se sente grata pelo suporte recebido. Para ela, a superação não foi um esforço solitário, mas fruto de sua fé e da receptividade que encontrou em solo brasileiro. "É incrível o que conquistei. Há alguns anos, eu estava pedindo comida e dormindo em rodoviárias. Se o Brasil não fosse um país tão receptivo, o destino de minha família teria sido outro", recorda.

Maduro, Trump e uma Venezuela em 2017
Quando Vicky cruzou a fronteira, em 2017, a Venezuela colecionava momentos de tensão na esfera política e econômica. Em março daquele ano, enquanto o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, recomendava a suspensão do país da organização, o próprio Maduro solicitava ajuda à Organização das Nações Unidas (ONU) para combater a escassez de medicamentos.
A tensão tomou as ruas em abril com a repressão aos protestos, a cassação do líder opositor Henrique Capriles e a histórica "Mãe de todos os protestos" — que deixou mortos e centenas de detidos. Como resposta, Maduro anunciou a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte em maio, instalada em agosto.
Em questão de dias, destituiu a procuradora-geral crítica Luisa Ortega Díaz, ocupou o Parlamento, assumiu suas competências legislativas e viu o Mercosul decretar uma nova suspensão da Venezuela. Em dezembro, o líder chavista decretou que partidos opositores que boicotaram eleições municipais estariam proibidos de disputar a presidência em 2018.
No mesmo ano de 2017 em que mãe e filho deixaram seu país para trás, o líder chavista convocou exercícios militares em resposta a possíveis ameaças de uma "invasão norte-americana". Segundo reportagem do jornal El País, em 15 de agosto, o presidente se dirigiu a milhares de apoiadores na avenida Urdaneta, em Caracas, em um ato de repúdio às declarações do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que não havia descartado uma intervenção militar na Venezuela.
Exatos 3.063 dias após a fala ao povo venezuelano, Maduro foi retirado do poder a mando de Trump e levado para os EUA. O governo americano acusa o chavista de liderar um cartel de drogas e cometer atos de terrorismo.