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Falta de debate político e isolamento levaram a intolerância nas escolas, dizem especialistas

Plural promoveu debate sobre agressividade de estudantes de Curitiba após a vitória de Lula

Falta de debate político e isolamento levaram a intolerância nas escolas, dizem especialistas
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A falta de discussão sobre política nas escolas pode ter sido um dos fatores decisivos para que alunos de colégios particulares de Curitiba tenham se pronunciado de maneira tão agressiva e intolerante sobre as eleições nos últimos dias. Segundo especialistas ouvidos em um debate promovido pelo Plural nesta quinta (17), a ideia de que a escola deve se ater a conteúdos mais "técnicos", somada ao isolamento de alunos que passam a dialogar somente com quem pensa igual, pode ser danosa para a convivência democrática entre os adolescentes.

O debate foi chamado depois que alunos de diversos colégios de elite de Curitiba reagiram com agressividade à eleição de Lula no último dia 30. Escolas como Positivo, Bom Jesus e Santa Maria conviveram com atos de intolerância nos dias anteriores ao segundo turno e na semana posterior ao resultado. Houve tumultos, agressões verbais e até mesmo quem se expressasse desenhando a suástica nazista.

https://youtu.be/QGOC4e6SRzE

"O cerceamento do debate é um dos problemas", disse Michel Ehrlich, coordenador de História do Museu do Holocausto, um dos participantes da conversa. Segundo ele, a escola particular tem hoje como regra não discutir política. E foi isso que os colégios em geral fizeram quando viram que a situação estava saindo de controle: tentaram proibir as manifestações políticas dos alunos.

"Embora emergencialmente a gente entenda que essa seja uma saída, como solução em si ela é muito problemática", diz Ehrlich. Para ele, é preciso compreender que falar de política e se manifestar não é o problema - isso faz parte do jogo democrático. E no caso dos alunos, a escola, sendo um lugar onde se passa mais tempo e mais se socializa, passa a ser um palco natural para essas discussões.

"O problema é que a escola diz: a gente vai aprender conteúdos e isso vai ficar pra fora", afirma ele, como se fosse possível separar tudo em caixinhas. "A manifestação não é o problema. O problema é se essa manifestação tem fascismo, golpismo." E discutir esses critérios deveria ser parte do trabalho da escola, embora obviamente isso comece em casa - a culpa nesse caso jamais será unicamente dos colégios.

Para a professora Claudia Moreira, o problema tem origem também na formação socioeconômica do Brasil. "Essas escolas eram voltadas para uma formação de uma elite no Brasil. Acontece que nossa elite está abrindo mão de ser elite do ponto de vista intelectual", afirma ela.

Doutora em Educação e professora da Universidade Federal do Paraná, a educação que as escolas estão fornecendo "nem conteudista é". O que se pratica, segundo ela, é um "treinamento para fazer provas", e as provas serviriam unicamente para que o aluno tenha acesso ao ensino superior. Ou seja: não há uma preocupação com uma formação mais global dos estudantes, o que incluiria uma dedicação maior a práticas humanistas.

Marcos Ferraz, professor do Departamento de Educação da UFPR, diz que o isolamento da classe média e classe média alta nessas escolas só agrava o problema. "Há uma desresponsabilização do estado de fornecer educação para a elite", diz ele, mencionando que os alunos de famílias com mais posses dificilmente ficam no ensino público.

"E nas escolas particulares, o que você tem é a formação de grupos que já são isolados e sectários desde o começo. O corte está no valor da mensalidade", afirma o doutor em Educação. "Se a gente for olhar em todos esses colégios, o nível socioeconômico é o mesmo, com uma ou outra exceção. A escola pública está repleta de diversidade. E aí o impacto é menor, porque não tem como não conviver com a diversidade", afirma.

Mediadora do debate, a jornalista Rosiane Correia de Freitas, coordenadora-geral do Plural, diz que em princípio pode parecer estranho que o comportamento anticivilizatório tenha partido exatamente de quem mais tem acesso a livros, à cultura. Mas tanto ela quanto Cláudia Moreira concordam que não é de espantar.

"Esses alunos às vezes não têm acesso ao mais importante, que é a diversidade", afirma a professora. "A escola pode ajudar, mas você não aprende a ser tolerante no teórico", diz ela.

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