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Divulgação científica é política institucional, não atividade secundária

O que a experiência da Agência Escola UFPR revela sobre a comunicação nas universidades públicas

Divulgação científica é política institucional, não atividade secundária
Foto: Divugação
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As universidades públicas brasileiras são responsáveis pela maior parte da produção científica nacional e desempenham papel central no avanço do conhecimento e na formação de recursos humanos altamente qualificados. Entretanto, ainda enfrentam desafios estruturais, culturais e políticos no que se refere à comunicação e à divulgação científica. O que se percebe é um imenso acervo de conhecimento em ciência, tecnologia e inovação, em grande parte restrito aos círculos acadêmicos e distante do cotidiano da população que o financia e que mais se beneficiaria de sua apropriação social.

Nas últimas décadas, o campo da comunicação pública cresceu, mas o dia-a-dia das assessorias e superintendências de comunicação ainda é marcado por sobrecarga, escassez de concursos e falta de estrutura para o desenvolvimento de estratégias de longo prazo, como políticas de comunicação que norteiam as atividades e possibilitem planejamento estratégico. Nesse cenário, a comunicação que deveria aproximar universidade e sociedade ainda ocupa um lugar periférico.

Essa lógica se expressa, também, na ausência de uma formação sistemática voltada tanto ao letramento midiático de pesquisadores quanto ao letramento científico de profissionais da comunicação. Falta capacitação para que cientistas compreendam as dinâmicas da mídia e saibam comunicar seus achados, assim como faltam bases científicas sólidas para que divulgadores cubram ciência com rigor. A inexistência de projetos continuados, disciplinas específicas, linhas de pesquisa nos programas de pós-graduação e outras iniciativas institucionais evidencia uma lacuna estrutural que compromete a mediação qualificada entre ciência e sociedade.

Nesse contexto, fica a pergunta: se as universidades públicas são responsáveis pela maior parte da produção científica do país, por que a divulgação científica ainda não é reconhecida como área estratégica e permanente nos planos institucionais? Enquanto essa área seguir dependente de editais pontuais ou do esforço isolado de docentes e estudantes, ela continuará vulnerável - e o direito da sociedade à informação científica, comprometido.

Vale destacar que, nos últimos anos, a divulgação científica passou a integrar critérios de avaliação em grandes editais e agências de fomento. No novo documento de área da Capes, unidade responsável por avaliar a pós-graduação no país, o impacto social e a popularização da ciência passaram a ser considerados imprescindíveis para uma boa avaliação, o que sinaliza uma mudança no sistema. No entanto, essa nova demanda precisa ser acompanhada de políticas institucionais robustas, que ofereçam formação continuada, financiamento específico e integração entre os diversos setores e agentes envolvidos na produção e na comunicação da ciência.

Assim, iniciativas de divulgação científica baseadas nos princípios da Comunicação Pública da Ciência assumem papel estratégico e transformador. Elas rompem com a lógica hierárquica que tradicionalmente separa cientistas e cidadãos, promovendo um modelo de comunicação que valoriza o diálogo, o reconhecimento da ciência como ferramenta para a solução de problemas cotidianos, os saberes populares e o engajamento social.

É urgente reconhecer que o fortalecimento de uma cultura científica é tarefa de todos dentro das universidades, e não apenas das áreas de comunicação. Democratizar o conhecimento requer uma mudança que envolva docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes, rompendo a lógica que separa quem produz o saber de quem o consome.

Essa mudança passa por revisar o próprio modo como compreendemos a ciência e sua relação com a cultura. A ciência não é um sistema isolado de verdades; ela é um processo social, histórico e coletivo. Comunicar ciência não é apenas traduzir resultados, mas abrir espaço para o diálogo, para o confronto de ideias e para a co-produção do conhecimento. Conceitos como ciência aberta, ciência cidadã e letramento científico e midiático precisam deixar os textos acadêmicos e ocupar o cotidiano das práticas universitárias.

A experiência recente de diferentes universidades demonstra que é possível construir caminhos alternativos. Núcleos, laboratórios e projetos dedicados à Comunicação Pública da Ciência vêm se consolidando como espaços de formação, experimentação e integração entre áreas. Foi o caso da Agência Escola UFPR (AE) que, ao longo dos últimos sete anos, construiu uma trajetória sólida no campo da Comunicação Pública e da Divulgação Científica. Atuando como Projeto de Desenvolvimento Institucional, consolidamos, sobretudo, um eixo formativo que uniu prática e reflexão, experimentação e compromisso público.

Formamos mais de 140 bolsistas de graduação e pós-graduação que, junto a professores, técnicos, profissionais de comunicação e parceiros institucionais, contribuíram para o fortalecimento de uma rede de divulgação científica na UFPR e no Brasil. Nossas produções, em diferentes formatos e plataformas, alcançaram prêmios, publicações, eventos e colaborações. Foram mais de 400 notícias publicadas, mais de 430 vídeos produzidos, 30 produções científicas e nove prêmios nacionais e regionais. A AE também esteve presente, por meio de suas produções, em sete festivais de cinema e audiovisual, em centenas de ações de extensão - muitas delas voltadas para a educação básica - e em conferências de Ciência, Tecnologia e Inovação. Outro marco importante foi a ampliação das parcerias institucionais e da distribuição de conteúdos, reforçando o papel estratégico da comunicação para a universidade pública.

Agora, encerramos um ciclo que deixa legados profundos em todos nós, mas que também abre novos caminhos. A Agência volta a atuar como projeto técnico-científico voltado à pesquisa, à comunicação estratégica da ciência e ao fortalecimento de parcerias institucionais. A formação, antes eixo central das atividades, fortalece-se agora no diálogo com parcerias interinstitucionais, nas pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e na busca por editais e colaborações que ampliem nosso alcance. Mantemos o compromisso com o ensino, a experimentação e o trabalho colaborativo, agora orientados por dois eixos: a produção de conhecimento em Comunicação Pública da Ciência e a mediação comunicacional para a divulgação e a popularização da ciência.

Mais do que uma experiência institucional, a trajetória da AE mostra que é possível construir, dentro das universidades, um ecossistema de comunicação que seja ao mesmo tempo crítico, formativo e transformador. Quando a ciência se abre ao diálogo, ela se torna parte da cultura, e a comunicação deixa de ser instrumental para se afirmar como processo de mediação e participação social.

O que vivenciamos na Agência Escola é a prova de que comunicar ciência é também fazer ciência - com ética, sensibilidade e compromisso público. E é justamente essa compreensão que as universidades brasileiras precisam fortalecer: a de que a divulgação científica não é acessória, mas um eixo estratégico de sua missão social.

Se quisermos uma universidade capaz de dialogar com os desafios contemporâneos, de combater a desinformação e de inspirar confiança pública na ciência, precisamos investir em estruturas permanentes, em políticas institucionais consistentes e em processos formativos que integrem comunicação, pesquisa e sociedade.

Encerramos um ciclo, mas o aprendizado permanece: é no encontro entre a ciência e a sociedade que a universidade se reconhece - pública, diversa, democrática e viva.

Regiane Ribeiro

Regiane Ribeiro

Professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação UFPR

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