Em artigo publicado no dia 13 último, a jornalista e editora do Plural, Rosiane Correia de Freitas, foi direto ao ponto ao afirmar, categórica e acertadamente, que não há razão que justifique a UFPR abrigar o tal evento sobre os “abusos do STF”, na semana passada, e que resultou na invasão do prédio histórico da Santos Andrade pela PM de Ratinho Jr (PSD).
E não apenas pela falta de credenciais acadêmicas de seus promotores, o vereador do Novo, Guilherme Kilter, e o advogado Jeffrey Chiquini, para falar sobre o STF. Mas porque a universidade, embora possa ser, também, espaço de discussão e debate político, tem a obrigação ética de frear a truculência fascista e resistir a ela.
E não uso fascista de maneira infundada ou irresponsável. Historiador, sei bem o que as palavras designam, e cuido para não as empregar inadequadamente. Mas já passou da hora de chamar as coisas pelo nome.
O circo armado pelas lideranças políticas de extrema-direita na noite do dia 09 não foi uma “confusão”, resultado de um “confronto” entre dois grupos militantes, os da extrema-direita e os estudantes de esquerda. Ele atualiza uma prática comum às milícias e grupelhos fascistas, que nas décadas de 1920 e 1930, miravam as universidades e fizeram delas alvo constante de suas investidas ideológicas e violentas.

Na Itália, durante a ascensão de Mussolini, os squadristi atacavam fisicamente estudantes e invadiam campi e salas de aulas. Na Alemanha, estudantes nazistas organizados na Nationalsozialistischer Deutscher Studentenbund, agrediam discentes e hostilizavam professores em público, mais ou menos como aconteceu com a professora Melina Fachin, hostilizada na rua por um transeunte bolsonarista.
Tentativas de resistência eram dura e brutalmente reprimidas pela polícia e milícias nazistas, como as SA.
Não foi diferente na Espanha, onde as falanges investiam, violentamente, contra os campi universitários sob a alegação de deter o avanço da esquerda nas universidades. Não apenas estudantes, mas professores eram intimidados verbal e fisicamente, e muitos docentes optaram pelo exílio ainda antes do fim da Guerra Civil que culminou com a instalação do governo fascista do general Franco.
O uso da força física foi, no contexto de organização e ascensão dos movimentos e regimes fascistas, parte de um projeto que, de um lado, se alimentava e retroalimentava o anti-intelectualismo característico de movimentos extremistas. De outro, contribuía para uma campanha sistemática de deslegitimação e desacreditação de instituições responsáveis pela produção do conhecimento, da ciência e da cultura.
Não casualmente, além de universidades, o ensino básico e bibliotecas, galerias de arte e museus foram, com maior ou menor ferocidade, igualmente atacados. Na Alemanha nazista, por exemplo, toda arte não coerente com a estática nazista era considerada “degenerada”, e ainda nos choca, principalmente porque ameaçadoramente atuais, as imagens de fogueiras gigantescas onde centenas de milhares de livros foram queimados.
Nunca foi cortina de fumaça
No Brasil, depois da eleição de Jair Bolsonaro (PL), em 2018, além do estrangulamento financeiro e dos ataques sistemáticos, o governo tentou instrumentalizar e alinhar as universidades ao seu projeto político de poder – como fizeram, no passado, os regimes fascistas –, cooptando docentes, pesquisadoras e pesquisadores ou nomeando reitores e reitoras à revelia das escolhas da comunidade acadêmica.
A derrota eleitoral de Bolsonaro não fez recuar a sanha anti-intelectual do bolsonarismo e dos bolsonaristas.
Somente na UFPR, além dos eventos da semana passada, militantes do MBL, incluindo o hoje vereador João Bettega, do União Brasil – partido cujo presidente é denunciado por supostas ligações com o PCC – invadiram, em setembro de 2023, um dos edifícios da reitoria. Na ocasião, além de estudantes, o grupo agrediu com um soco no estômago uma funcionária terceirizada, responsável pela faxina do local.

Equivocadamente, mesmo analistas de esquerda passaram os últimos anos afirmando que a chamada “pauta dos costumes”, de que o ataque às universidades é parte, era uma “cortina de fumaça” para “passar a boiada” do projeto econômico neoliberal. Um engano, porque a “pauta dos costumes” nunca foi uma cortina de fumaça, mas, ontem como hoje, parte fundamental do projeto fascista de poder.
Trata-se, primeiro, de colocar em descrédito aquelas instituições que, em alguma medida, oferecem resistência a esse projeto porque, sabemos, parte de sua eficiência vem da sua capacidade propagandística e de seu negacionismo. O conhecimento produzido na universidade é, nesse sentido, um antídoto incômodo aqueles que usam a desinformação e a mentira como estratégias políticas e eleitorais.
Mas o mais importante: a produção simbólica não é algo apartado da realidade material. Em outros termos, a capacidade de produzir valores simbólicos é parte indissociável e fundamental das condições materiais de uma sociedade, da sua produção e reprodução.
Conhecimento e autonomia
Um projeto de poder que se sustenta na supressão de direitos e liberdades, na vulnerabilização e marginalização das chamadas “minorias”, na precarização econômica de trabalhadoras e trabalhadores, e no recrudescimento da violência, institucional ou não, precisa de instituições frágeis.
Uma universidade débil e descredibilizada é, nesse sentido, garantia de que um dos potenciais vetores de resistência ao fascismo terá sua capacidade de enfrentamento exposta e diminuída.
O conhecimento que a universidade produz, e o acesso a ele, permite que se vislumbrem outras possibilidades e modos de vida, que se reconheça a pluralidade do mundo que habitamos e que, para além do tempo homogêneo, linear e vazio dos fascismos, temporalidades múltiplas colocam em xeque nossa relação com o presente e o passado, abrindo novas possibilidades de futuro.
E isso não diz respeito apenas a algo etéreo, separado da vida cotidiana e material. Quanto mais limitada nossa capacidade de pensar e de produzir simbolicamente, mais estreita nossa disposição crítica e mais estreitos nossos horizontes de expectativas.
E quando estreitamos nossas possibilidades de escolha, mais suscetíveis ficamos às mentiras e manipulações daqueles que usam a paranoia, o ódio, o medo e a sensação de incerteza e insegurança, para produzir condições materiais de vida que legitimam e sustentam seus projetos autoritários de poder. O fascismo se alimenta desses afetos, depende deles.
O sorriso, a alegria incontida, quase infantil, do vereador e seus aliados na noite em que invadiram o prédio histórico, que podemos ver nos vídeos que circularam essa semana nas redes sociais, mostra que eles sabem o que querem e o que estão fazendo. Não é cortina de fumaça. É fascismo e, como afirmei na abertura desse texto, precisamos tratar as coisas pelo nome.