INTERIOR – GABINETE PRESIDENCIAL - NOITE
É 16 de dezembro de 2022, um dia depois do mais recente golpe militar no Brasil. Nada de novo no front. General Heleno sai de uma porta lateral com uma edição do Estadão enrolada debaixo do braço. Ao fundo ouvimos o som de descarga. À sua frente, com os dois pés na mesa da Presidência da República, o general Braga Netto ouve A Voz do Brasil, apresentada excepcionalmente pelo Alexandre Garcia. No outro canto da sala, o almirante Garnier fornica (a expressão fornica é adequada somente para almirantes) com uma garota fantasiada de Temis, a deusa da Justiça. O general Paulo Sérgio Noronha observa pela janela o pandemônio na Praça dos Três Poderes; as labaredas vindas do STF; os vidros quebrados dos prédios públicos; corpos de políticos progressistas sendo arrastados por cavalos da PM; os espelhos de água vermelhos (de Q-Suco, será?), homens com metralhadoras nas mãos bradando nas cúpulas do Congresso, a jihad bolsonarista; tanques de guerra estacionados nos gramados; bandeiras do Brasil, EUA e Israel trepidando; camisetas pretas com o rosto de Jair Bolsonaro e seu olhar de ódio e coração seco. Colunistas de jornais conservadores - jornalistas nunca perdem uma boca livre, impressionante - cantam o hino nacional a plenos pulmões.
BRAGA NETTO: - Presidente!!!
HELENO: Somos, porra! Somos!!! Hashtag “somos todos presidentes”.
NORONHA: - Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas e então, o que vamos fazer com este país?
GARNIER (arfando): - Exatamente o que estou fazendo agora.
HELENO: - Acho que, para manter a coesão do novo Estado e a integridade das instituições, é premente uma medida honesta de pacificação nacional. Que mostre nossa boa vontade com os vários atores sociais. Um aceno. Uma proposta de armistício. Uma mensagem de paz.
BRAGA NETTO: - Tipo?
HELENO: - Um substancial aumento salarial para os militares.
(Urros de felicidade. NORONHA simula metralhar o ar. HELENO e GARNIER se abraçam e fazem a dança cossaca.)
BRAGA NETTO: - Ato Institucional nº 1!!!
GARNIER: - A gente merece, porra. As pessoas acham que é fácil dar golpe. Que é só chegar e colocar os tanques nas ruas, construir um campo de concentração para dissidentes políticos, jogar opositores no mar e pronto. Não, o buraco é mais embaixo. Por falar em buraco, toma aqui seus honorários, madame. Obrigado pelo fist fucking, querida.
GAROTA: - Quando precisar, só chamar. Braço forte, mão amiga...
NORONHA: - Nós fizemos por merecer.
GARNIER: - Enquanto todo mundo estava na praia vagabundeando, tomando sua caipirinha, fazendo ioga, saltando de paraglide, nós estávamos aqui, conspirando contra essa abstração chamada Estado Democrático de Direito. Corroendo os alicerces da Democracia dia após dia com uma britadeira de desinformações. E o brasileiro?
BRAGA NETTO: - Ah, brasileiro é tudo vagabundo.
HELENO: - O brasileiro tinha que ser proibido.
DIOGO MAINARDI (surge de uma janela lateral): - Ser brasileiro é uma falha de caráter.
GARNIER: - Ser brasileiro é imoral.
BRAGA NETTO: - Ser brasileiro não tem cura.
NORONHA: - Ser brasileiro devia ser crime.
HELENO: - Quando eu nasci isso aqui ainda se chamava Terra dos Papagaios, então, tecnicamente, não sou brasileiro.
BRAGA NETTO: - Ei, pergunta: já enforcaram o “nove dedos” e os ministros do STF?
NORONHA: - Ficou para amanhã. Com transmissão ao vivo pela Rede Vida.
HELENO: - Só não sabemos se antes ou depois da missa. Jojo Toddynho vai cantar o hino nacional. Vai ser uma coisa. Vou até tomar um Viagra, para baixar a ansiedade.
(General MOURÃO entra na sala.)
MOURÃO: - Tão sabendo da novidade? O dólar baixou e a Bovespa disparou feito uma salva de canhões com o anúncio da abolição da democracia.
HELENO: - Enfim uma abolição que é boa para o país.
GARNIER: - E como está o apoio nos estados?
MOURÃO: - O Paraná é o mais pirilampo. A elite local condicionou o apoio ao golpe desde que os "kids pretos" não entrassem no Palácio do Planalto. Aí tive que explicar que “kids pretos” era por causa do uniforme e tal… gente ignorante, sabe?
GARNIER: - São uma aberração cognitiva.
(Risos histéricos de todos)
HELENO: - O governador Ratinho Jr. diz que vai implementar a "creche-civil militar" no estado, para puxar nosso saco murcho e grisalho.
NORONHA: - Um grande empresário que vai distribuir hambúrgueres de madeira grátis para a população. Exceto para a de rua, que merece tomar bala na nuca. A coisa tá bonita de ver.
MOURÃO: - Já Curitiba vai substituir a Família Folhas pela Família Piche como símbolo da cidade, uma vez que ecologia não é mais o cartão postal da capital, mas sim o asfalto e os tratores fumacentos.
HELENO: - E o que isso tem a ver com a porra da história?
MOURÃO: - Nada, é só que o autor tinha que dar um jeito de inserir essa crítica no texto.
Então, o estampido de uma explosão. Quando a fumaça se dissipa, vemos um grupo de homens armados, de máscaras pretas, descendo do teto por cordas. Os generais estão todos estirados no chão, mortos. Os homens tiram as balaclavas. São os “kids crentes”.
SILAS MALAFAIA: - A boca é nossa! Hahahaha.
EDIR MACEDO: - Glória aleluia. E aí, o que vamos fazer com esse país?
MARCOS FELICIANO: - Ora, o que mais? Aumentar o dízimo, porra!
SILAS MALAFAIA: - Ato Institucional nº 1!!!!
(Então todos dançam um funk que faz É o Tchan! parecer uma pregação do Menino da Tábua, de tão inocente.)