José Pires, Luís Lomba e Pedro Carrano, da Vigília Agência de Comunicação
Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.
O Atendimento no Centro de Referência Afro (Creafro) é o primeiro espaço institucional feito para acolher famílias negras e oferecer um caminho diante da violência racial. Ali, como informa o site da prefeitura, pessoas negras, vítimas de racismo, intolerância religiosa e xenofobia contam com um serviço especializado em seu atendimento, com destaque para o atendimento psicológico e jurídico.
Ao longo da pesquisa para esta reportagem, várias mães citam a importância do Creafro no contexto da luta e desgaste que estão passando. Na avaliação da vereadora Giorgia Prates (PT), idealizadora do espaço, o objetivo é justamente esse. “Foi uma luta muito grande, que busquei e briguei para que fosse materializada. É uma conquista para o povo negro da cidade, pois toda a estrutura foi pensada para acolher devidamente os casos de racismo em Curitiba”, aponta.
Karla Roberta e o “contexto” do Bombril
A vida de Karla Roberta e de sua filha tornou-se uma ferida aberta há três anos quando, no Cmei Dona Ruth, na cidade de Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, com menos de cinco anos de idade, a pequena conheceu o impacto do racismo, quando foi feita, na atividade escolar, a representação de uma pessoa negra com o uso de um Bombril.
“Ela está com oito anos e até hoje não se vê com o cabelo black, que é lindo”, lamenta Karla. O episódio fez com que a menina passasse por constrangimentos no Cmei diante de outras crianças. “Zoaram ela, é uma criança negra, isso até hoje mexe com ela”. Há três anos, Karla considera que há um processo kafkiano de “enrolação”, que se iniciou pelo ambiente da direção da escola, passou pela delegacia e chegou ao Ministério Público.
“Há três anos aguardo posição, tive que ir até a delegacia, para concluir e enviar a denúncia ao Ministério Público. O delegado mal leu o caso, não vê nenhum tipo de racismo”, critica.
Karla aponta que, inicialmente, não desejava o conflito, mas que a resolução do caso fosse feita da forma mais rápida possível, como é normal para quem se vê numa situação desgastante. No entanto, a resolução não aconteceu. Outros pais haviam se solidarizado e alertado Karla para o absurdo da situação. O que poderia ter sido enfrentado de imediato, foi na realidade uma sessão de recusas. “Foi uma mãe que protestou, depois um senhor do bairro, que falou que o trabalho está estranho, aí uma mãe me ligou e falou, mas as professoras não queriam tirar (o Bombril) do trabalho, alegando que havia ‘um contexto’. Que contexto?”, se indigna.
Depois disso, e com a recusa de o espaço escolar aceitar o erro que cometeu, Karla protestou com toda a força. “Falei que ia tirar com minhas próprias mãos, porque isso é crime, no Instagram deu repercussão muito grande, precisou que eu fizesse escândalo para que tirasse o trabalho. O delegado, que mal leu relatório, concluiu que que não via ato de racismo”, lamenta.
Hoje, sua filha está no terceiro ano do ensino fundamental, mas os casos de racismo, infelizmente, se repetem. A luta de Karla ao menos garantiu que o caso mais recente tivesse um procedimento correto por parte da escola. “Uma aluna chamou ela de ‘macaquinha’. Ela chegou em casa, fui até a escola e recebida, foi feito um relatório e já iria encaminhar para a secretaria de Educação, que iria chamar a psicóloga do território para ter uma conversa com os pais”, relata. Hoje, a trabalhadora afirma que se apega na Lei 10.639/03 que garante o ensino de História e Cultura Africana na escola, o que considera fundamental.

Na avaliação da vereadora Giorgia Prates, ao falar sobre a necessidade de criação do Creafro, menciona um cansaço que Karla Roberta conhece bem. “Os desafios estão justamente na estrutura que ainda tenta isolar os casos como se fossem exceções, e não parte de um problema sistêmico. As mães chegam cansadas porque percorrem diversos órgãos, repetem suas histórias e, muitas vezes, encontram portas fechadas ou profissionais despreparados. Precisamos exigir do poder público uma atuação com seriedade.”
Amanda Cristina: ameaças no interior da escola
A filha da trabalhadora coletora de materiais recicláveis, Amanda Cristina Corrêa Mestre Antônio, chegou a perder o ano letivo, mesmo tendo se empenhado, e hoje está afastada das aulas devido a episódios de racismo frequentes, que se desdobraram em ameaça de violência da PM no interior do ambiente escolar da Escola Municipal Eny Caldeira.
“Houve uma audiência cancelada, a respeito do que aconteceu ninguém fez nada, a minha filha tem esquizofrenia, já não gostava de ir para a escola, sofria bullying, não aguentava o povo chamando de ‘burra’, ‘macaca’, então ela partiu pra agressão também, tem um mês que ela parou de estudar”, afirma a trabalhadora.
Antes do afastamento, Amanda Cristina conta que foi marcada uma reunião com a mãe de outra estudante que vinha cometendo racismo. Diante de um clima turbulento, um PM à paisana chegou a entrar na escola a pedido da mãe da outra aluna. “Disseram que estaria ‘difamando a imagem da escola’”, conta Amanda.
Mais de um depois, a mãe recorreu a espaços como Creafro e o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Colombo e afirma que não teve espaço para resolução do problema. Sequer um encaminhamento. “Quero respostas, quero uma solução que tenha benefício para minha filha”, aponta.
Giorgia Prates aponta ainda que, no caso de ferramentas como o Creafro, existem desafios tais como: ampliar equipe, garantir orçamento, fortalecer o encaminhamento intersetorial e, principalmente, romper com a resistência institucional que tenta minimizar ou invisibilizar o racismo. “Precisamos que as escolas reconheçam o problema, formem seus profissionais e adotem protocolos claros de atendimento às vítimas”, indica.
A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Imprensa do Ministério Público do Paraná pedindo uma nota de esclarecimento sobre as denúncias trazidas nesta reportagem. No entanto, até a publicação da mesma, o MP-PR não tinha respondido.