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Grupo ajuda negros a enfrentarem o ensino médio e a universidade

Roda de conversa entre os coletivos tem como objetivo proporcionar acolhimento diante do esgotamento que muitos estudantes sentem

Grupo ajuda negros a enfrentarem o ensino médio e a universidade
Encontro de alunos negros: apoio mútuo para se adaptar a instituições historicamente brancas. Foto: Vitória Smarci
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Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

O Encontro de Coletivos Negros da UFPR e do Colégio Estadual do Paraná reúne estudantes que compartilham a experiência como pessoas negras dentro de instituições historicamente brancas. Entre relatos emocionados, críticas ao racismo institucional e demonstrações de afeto coletivo, o evento consolida uma rede de apoio que tem sido essencial para a permanência desses jovens na vida acadêmica.

A roda de conversa entre os coletivos tem como objetivo proporcionar acolhimento diante do esgotamento que muitos estudantes vêm sentindo. Lanielle de Menezes, estudante de Psicologia da UFPR e integrante do coletivo psicoblack, conta que o ensino superior é difícil e estar em grupo é reconfortante. “Quando entramos na universidade estamos meio perdidos. É raro alguém ter outra pessoa aqui dentro para mostrar caminhos e dar possíveis soluções. Em Psicologia, temos muitos alunos adoecidos e o próprio curso não cria mecanismos de proteção à saúde do futuro psicólogo”.

Lanielle aponta que, dentro da graduação, existe o preparo para atender outros cursos, mas ela mesma encara a dificuldade de fomentar essas estratégias. “O coletivo veio para ser esse lugar de troca, que foi muito importante para mim, tanto numa estrutura física da coisa quanto no simbólico. É muito importante porque nele nos reconhecemos pertencentes e passamos a acreditar que a nossa identidade faz parte desse espaço que vai para além do campus, mas que também constitui a nossa subjetividade, a nossa identidade, o nosso senso de pertencimento e o nosso sentido de estar aqui dentro.”

Após a pandemia, estudantes negras do Colégio Estadual do Paraná se organizaram para formar um coletivo que pudesse enfrentar, de maneira conjunta, as questões raciais e emocionais que marcam a trajetória escolar. Desde então, esse grupo tem construído pontes importantes com alunos da graduação, criando um ambiente intergeracional de apoio e fortalecimento. Nessas conversas, adolescentes do ensino médio compartilham vivências de solidão e expectativas para a construção de uma carreira acadêmica. 

Para Lanielle, é preciso direcionar o olhar também para os adolescentes que irão entrar nessa nova etapa da vida. A aproximação permite que visualizem futuros mais amplos, entendam seus direitos, cultivem confiança em suas próprias trajetórias e construam redes de apoio que rompem o isolamento e fortalecem suas identidades. Ela considera fundamental aproximar as perspectivas do ensino médio, onde desde cedo enfrentam a solitude, as cobranças e o peso da luta dentro do ambiente de estudo.

Participar das reuniões, segundo ela, acaba se tornando quase uma terapia coletiva, um ambiente seguro de fala e escuta, onde podem expressar angústias, serem ouvidas e começar a construir estratégias de cuidado consigo mesmas.“Por isso, considero esse um espaço de fortalecimento potente, que amplia nossa visão e nossa perspectiva sobre nossas capacidades e sobre quem podemos ser. É o que nos afasta do olhar branco como medida de valor e nos permite nos enegrecer, nos apropriar das nossas identidades e acreditar que podemos existir e nos reconstruir, afinal, também foi erguido sobre o nosso suor, nosso sangue e nossas lágrimas.”

As discussões entre os coletivos abordam práticas que dificultam a permanência de estudantes negros, como reprovações constantes e processos de expulsão compulsória. Muitos relatam a sensação de não conseguir frequentar as aulas devido ao esgotamento mental — algo que esses encontros permitem verbalizar e ressignificar. A dimensão dos afetos surgiu como uma força política e emocional, já que, em suas trajetórias acadêmicas, esses estudantes precisam não apenas lutar por pautas raciais, mas também cuidar da própria saúde mental e uns dos outros. Preservar-se e manter a mente firme torna-se parte da luta, alinhada à ideia potente de “aquilombar-se dentro de uma instituição branca, dentro de paredes brancas”.

Do ensino médio para a vida

Brenda Elissa, estudante negra de Medicina prestes a se formar, afirma que os coletivos marcaram profundamente sua trajetória, oferecendo cuidado e apoio para persistir na graduação. Ela conheceu o Negrex em 2021, durante a recepção de calouros, e percebeu a importância do grupo em um curso onde estudantes negros ainda são poucos. O Negrex UFPR reúne estudantes e médicos que promovem inclusão e diversidade na Medicina, combatendo o racismo e fortalecendo a presença negra na área da saúde por meio de eventos, debates e atividades.

O Censo 2022 do IBGE mostra que a Medicina no Brasil ainda é predominantemente branca: cerca de 75,5% dos formados se declaram brancos, enquanto negros representam aproximadamente 22%, sendo 2,8% pretos e 19,1% pardos.

Como ex-aluna do CEP, Brenda considera especialmente significativo ver o coletivo se conectar com outros grupos e alcançar jovens que ainda nem entraram nessa etapa “Fico feliz de ver o coletivo crescer no colégio. Na época, não havia abertura para discutir racismo ou compartilhar os problemas. Frequentar esses espaços é um gesto de transformação, que permite identificarem as especificidades de cada curso, com suas particularidades, e vivências parecidas. Isso é muito bonito. Durante a reunião, percebi como eles conseguem se ver em nós, projetar perspectivas de futuro e entender que podem chegar onde estamos. A universidade pertence a eles também.”

Um dos pontos debatidos é uso comercial da imagem dos coletivos por instituições que buscam aparentar diversidade sem assumir compromissos reais de acesso e contratação de professores negros. Também foi discutido o Comitê para uma Educação Jurídica Antirracista e Multicultural, instituído no Setor de Ciências Jurídicas da UFPR a partir da proposta e articulação  do coletivo Resistência Ativa Preta, iniciativa que busca garantir que graduandos e docentes tenham acesso e continuidade em suas trajetórias acadêmicas.

O RAP começou em 2019 como um grupo de estudos em Direito e relações raciais, voltado para debater raça. Com o tempo, se consolidou como um grupo de pesquisa dedicado à produção de conhecimento negro e passou a pautar questões políticas dentro da universidade, especialmente demandas dos alunos. 

Daniel Paulino, recém-formado em Direito, e um dos integrantes explica o trabalho de analisar o ensino jurídico hegemônico, trazer as vivências negras para a universidade e se articular politicamente para levar essas demandas adiante. “Discutimos permanência estudantil, acesso de estudantes e professores negros, além de questionamentos a editais e ações institucionais. A ideia do comitê é acompanhar e revisar ementas, realizar formações, identificar gargalos na entrada de docentes negros e propor sugestões ao setor de Ciências Jurídicas e à Reitoria, contribuindo para contratações representativas e efetividade de políticas de permanência”.

Os coletivos assumem um papel estratégico de articulação política, proteção e mobilização dentro da UFPR de forma estruturada. Daniel conta que foram criados espaços contínuos que permitem respostas rápidas as demandas pautadas por alunos e episódios de violência institucional: “Trabalhamos juntos elaborando notas conjuntas e oferecendo apoio direto em situações de racismo, por exemplo. Essa união fortalece a interlocução com instâncias como o Núcleo de Pesquisas, Ensino e Extensão sobre Relações Étnico-Raciais e com a pró-reitoria, que coordena políticas de inclusão e permanência na UFPR. Incluímos debates sobre ações antirracistas e programas como o Novembro Negro e o Negritude.”

Daniel Paulino e outros integrantes do coletivo Resistência Ativa Preta. Foto: Acervo pessoal

Eles mostram que a mudança depende da articulação entre experiências individuais e ações coletivas, criando oportunidades para pensar novas metodologias de ensino, ampliar o acesso a cargos e fortalecer a representatividade. Influencia percepções sociais e inspira novas gerações, contribuindo para a construção de uma universidade que reconheça e valorize a diversidade em todas as suas dimensões.

Os encontros vão além das reivindicações, funcionando como espaços de formação, convivência e troca. A aproximação entre diferentes áreas de estudo ajuda a ressignificar sentimentos de não pertencimento ao ocupar lugares historicamente negados à população negra e periférica. Ver profissionais negros formados reacende a esperança e inspira a transformação de espaços que ainda relutam em reconhecer plenamente a diversidade e o potencial da comunidade negra.

Vitória Smarci

Vitória Smarci

Estudante de Jornalismo na UFPR, fotógrafa e engajada com o jornalismo socioambiental

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