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Entre fios, barro e fé: exposição do MAE-UFPR celebrou a cultura popular brasileira por quase uma década

“Assim Vivem os Homens” se despede após nove anos em cartaz; mostra dá lugar à exposição comemorativa dos 60 anos do museu

Entre fios, barro e fé: exposição do MAE-UFPR celebrou a cultura popular brasileira por quase uma década
Assim Vivem os Homens divulgou a cultura popular por quase uma década. Foto: Douglas Fróis
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Após quase uma década encantando visitantes com objetos, imagens e sons que narram histórias, saberes tradicionais, rituais e cotidianos de comunidades de todo o Brasil, a exposição de longa duração Assim Vivem os Homens encerrou sua trajetória no dia 15 de junho de 2025. 

Instalada no primeiro andar do prédio histórico do século XVIII que abriga o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), em Paranaguá, a mostra será desmontada para dar lugar à nova exposição comemorativa dos 60 anos do museu.

Organizada pela Unidade de Cultura Popular do MAE, a exposição foi concebida como um gesto de reconhecimento e valorização das práticas culturais que se mantêm vivas na fala, no corpo, nos gestos e nos objetos do cotidiano. 

Para Bruna Portela, atual diretora do MAE, essa concepção também estreitou os vínculos entre museu e sociedade. “Esses contatos com a comunidade local trazem para dentro do espaço do museu as pessoas que estão fazendo a cultura popular hoje em dia, algo essencial para tornar as instituições museológicas espaços mais democráticos e acessíveis”, afirma.

Entre tradição e resistência: o MAE como lugar de memória

A exposição foi inaugurada em 2016 como a terceira de longa duração do museu, instituído em 1963 com o propósito de reunir, pesquisar e divulgar acervos arqueológicos e etnográficos do Paraná e do Brasil. Localizado no coração do centro histórico de Paranaguá, o MAE abriga coleções que dialogam com a formação das populações locais, especialmente as caiçaras, e conecta a universidade às comunidades tradicionais do litoral.

Museu de Arqueologia e Etnologia, no centro histórico de Paranaguá, litoral paranaense. Foto: MAE/UFPR

Tecendo memórias: os núcleos da exposição

A exposição foi dividida em núcleos temáticos que abordam os modos de fazer e viver nas culturas populares. Um dos principais eixos expositivos era o dos saberes manuais, que apresentava utensílios de cerâmica, cestaria e tecelagem. Tipitis, cestos, rodas de fiar e almofadas de bilros revelavam o engenho técnico e a beleza estética desses objetos, ao mesmo tempo funcionais e simbólicos.

A cerâmica, por exemplo, estava representada nas esculturas de Mestre Vitalino, artista pernambucano cuja obra eternizou cenas do cotidiano nordestino. Também estavam expostos potes e panelas doadas por Herta Loëll Scheuer, que atuou na década de 1980 para enriquecer o acervo do museu.

Outro eixo da mostra se debruçava sobre a religiosidade popular, com destaque para a Congada, a Festa do Divino, o Espiritismo, a Umbanda e o Candomblé. A mostra também dedicou espaço às benzedeiras e seus saberes tradicionais de cura por meio de plantas e orações — uma prática ancestral que ainda resiste, mesmo diante da modernização da medicina. Altares, instrumentos ritualísticos, vestimentas e bandeiras davam corpo às manifestações da fé brasileira e convidavam o público a refletir sobre o sincretismo e a força espiritual de comunidades historicamente marginalizadas.

No campo do lúdico e do festivo, brinquedos artesanais como petecas, piões e bonecas de pano se misturavam aos adereços do Boi de Mamão, do Pau de Fita e do Fandango. O acervo sobre a cultura caiçara, que inclui instrumentos feitos por artesãos do litoral paranaense, representava não só a materialidade desses modos de vida, mas também sua transformação contínua. 

Mais do que uma mostra de objetos, Assim Vivem os Homens foi um convite à escuta e à sensibilidade. Criou um espaço museal onde o saber não estava apenas nos textos e vitrines, mas nos gestos, nos sons, nas cores e nas histórias compartilhadas. 

Durante seus nove anos em cartaz, a exposição recebeu quase 160 mil visitantes, acolhendo escolas, projetos de extensão e comunidade em geral com oficinas e rodas de conversa. A mostra se consolidou como uma das ações mais significativas do MAE-UFPR no campo da educação patrimonial.

Com o fim da exposição, o museu se prepara para inaugurar sua nova mostra em comemoração aos seus 60 anos de existência. Mas o legado de Assim Vivem os Homens permanece. “Não há dúvida de que a exposição ficará na memória de muitos visitantes que estiveram no MAE ao longo desses quase nove anos”, afirma Bruna Portela. “Para a população local, se ver representada no museu é algo importante para a valorização da identidade cultural e da história da região”, ressalta.

Festejos, brincadeiras e objetos: exposição cobriu com amplitude o cotidiano de comunidades tradicionais. Foto: Douglas Fróis

Nesse sentido, a exposição cumpriu o que prometeu: mostrar que a cultura popular não está apenas no passado a ser preservado, mas no presente que se reinventa — nas mãos que trançam, nos corpos que dançam, nas vozes que rezam e nos brinquedos que ainda resistem à lógica do consumo. Em tempos de apagamentos e disputas por memória, museus como o MAE-UFPR reafirmam seu papel como guardiões e transmissores de saberes que pertencem a todos nós. Afinal, como bem lembra a curadoria da mostra: os outros também somos nós.

Rodrigo Matana

Rodrigo Matana

Estudante de jornalismo na UFPR

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