O Plural noticiou no último domingo um marco: Curitiba terá sua primeira vereadora lésbica, a fotógrafa e militante negra Giorgia Prates (PT). Como se tornou comum, instantaneamente a redação do jornal recebeu manifestações via whatsapp e comentários avisando que o destaque ignorava uma outra vereadora que atualmente ocupa a vaga pelo PV, a médica-legista e ginecologista Maria Leticia.
Nas primeiras vezes em que o jornal se referiu a Giorgia como potencialmente a primeira vereadora lésbica da Câmara de Curitiba, a cobrança sobre um posicionamento a respeito da parlamentar Maria Leticia também ocorreu. O que nos levou a fazer algo inerente ao nosso trabalho como jornalistas: checar a informação sobre o assunto, mesmo não sendo papel do Jornal interferir ou noticiar questões de cunho pessoal e privado que não tenham impacto ou relevância no interesse público.
Jornalismo não é só escrever (ou falar). Trata-se de uma atividade intelectual que lida com a perenidade e volatilidade dos fatos, bem como mudanças sociais significativas. Como um jornal jovem, plural e interessado em fazer justiça a essas mudanças, o Plural se esforça para ser responsável com o que noticia e, dada a reação e relevância do assunto, o Plural e esta repórter acham pertinente esclarecer a situação.
Ocorre que a suplente de vereadora, Giorgia Prates, é uma pessoa que milita pelos direitos dos negros e também os direitos LGTBQIA+. A identidade dela como mulher lésbica é parte de sua militância, de forma que apresentá-la em conteúdo jornalístico como tal é fazer justiça a forma como ela mesma se apresenta.
A situação não é diferente com a vereadora Maria Leticia, que no quesito representação e defesa da diversidade tem mostrado seu compromisso. A diferença, pontuada em conversa com Maria Leticia e o Plural, é que a vereadora não enxerga seu trabalho a partir deste foco, não sendo sua atuação parlamentar pautada por esta questão.
Com a ascensão de Prates a uma vaga na Câmara, o assunto voltou ao Plural, bem como a cobrança para registrar o fato de que Maria Leticia também é uma vereadora lésbica na Câmara de Curitiba. O Plural não poderia deixar de sublinhar o marco que é a chegada de mais alguém da comunidade LGBTQIA+ a um parlamento extremamente conservador e muitas vezes até agressivo com essa população (essa é a Câmara em que se aprovou homenagem a psicóloga que promove “cura gay” e que registrou em plenário um vereador relacionando homossexualidade a pedofilia).
Por outro lado, nós do Plural também sublinhamos o direito das mulheres, mesmo em função pública, de não terem sua vida pessoal exposta. Esse portanto é um dilema que faz parte das escolhas da prática jornalística: a necessidade de noticiar o fato (a chegada de mais uma militante lésbica à Câmara), e a de respeitar a privacidade das mulheres públicas, sobretudo nesses tempos de vastos ataques às mulheres em espaços de decisão e poder.
Como jornal, nós não temos a ambição de ter todas as respostas certas. Nós aceitamos e lidamos da melhor forma possível com os desafios de reportar as histórias de uma sociedade que é complexa e dinâmica. Mas não abrimos mão do respeito à privacidade e ao direito de cada um de viver sua vida em paz. Esse esclarecimento busca tratar da melhor forma possível o assunto sem ferir nosso compromisso com os direitos e a segurança das mulheres.