Quando a professora Daniely de Quadros, do Colégio Estadual do Paraná (CEP), começou a treinar garotas para o futsal na escola, o que ela queria era um espaço de formação para as alunas, que muitas vezes não praticavam o esporte por falta de incentivo ou por sofrer com o machismo. Uma década e meia depois, embora continue focada em formar cidadãs, quando alguém fala do time feminino da escola, a primeira lembrança que surge é a alta performance das atletas. E isso não é um caso.
O time da escola é formado por alunas e ex-alunas que agora atuam como professoras no projeto criado por Daniely, que atualmente atende 120 meninas a partir dos 5 anos. Os treinos acontecem em Curitiba, no CEP e em Colombo, Região Metropolitana.





Atletas que representarão o Colombo/CEP na Argentina (à esquerda) e professoras à direita (de preto) | Fotos: Tami Taketani/Plural.
A parceria com a prefeitura de Colombo começou quando a Secretaria de Esportes da cidade notou que as atletas do CEP de desenvolviam e performavam melhor à medida que frequentavam os treinamentos. Desde o firmamento do convênio, as categorias de base treinam em Colombo e as atletas que disputam competições oficiais, no CEP.
Para além da quadra
Quando a fixa Thaíssa Menon, de 22 anos, conheceu o projeto do CEP, era uma das atletas destaque. Jogava bola desde cedo, em um campo atrás da casa onde mora com os pais, às vezes até sozinha.
A habilidade dentro da quadra, porém, muitas vezes não era suficiente para o círculo familiar. Havia cobranças para arrumar um emprego formal e trazer dinheiro para casa e, em paralelo, uma grande dificuldade na escola.

No projeto, porém, a professora Daniely exige mais que jogar bem. É preciso ser uma cidadã. Para continuar defendendo as cores do CEP/Colombo, Thaíssa precisava terminar os estudos e “se aprumar” na vida. Com ajuda da professora, concluiu o ensino médio, e agora estuda Educação Física na Unisinos. “É, não foi fácil. Eu sou a primeira pessoa da minha família a fazer faculdade e agora eles veem que o futsal pode mudar as coisas”, diz, embargada.
Do outro lado da mesa, com olhos cheio de lágrimas, a professora Daniely reforça que para além da quadra, o esporte tem capacidade de mudar a vida das atletas pessoal e financeiramente.
A dedicação da docente também vai além do futsal. Thaíssa tinha uma bolsa de estágio que terminou há poucos meses. Entre as atividades da bolsa estava o treinamento para as categorias de base femininas do time, mas com o encerramento do aporte, a atleta teria que procurar outra fonte de renda. Isso não foi necessário porque Daniely e uma outra professora pagam do próprio bolso o valor que era destinado para Thaíssa, que é capitã do time e uma das jogadoras mais importantes.
Para além do caminho
De Fazenda Rio Grande para Curitiba a distância é de 29 quilômetros. De Curitiba para Colombo outros 11 quilômetros. Em tempo, mais ou menos uma hora de deslocamento por trecho, sem contar a volta. Este itinerário é feito pela ala Mariane Godoi, de apenas 16 anos, que também é atleta do Colombo-CEP e treina em dois períodos para realizar o sonho de viver do futsal.
Para além do caminho, a atleta também fala sobre a mudança de comportamento quando ingressou no projeto. “Eu era mala mesmo, todo mundo não gostava de mim, mas com a convivência aqui, com as falas da professora, percebi que dava para ser diferente, aqui todo mundo apoia, conversa, ajuda”, revela.
A melhora no comportamento permitiu que Mariane disputasse competição internacional, na Argentina, jogando pela Seleção Brasileira sub-17. Assim como ela, outras atletas do time também já usaram a Amarelinha no Brasil e fora para defender o país.

“Ouvir o hino nacional, você ali perfilada, é muito emocionante. O projeto mudou a minha vida”, analisa Ashley Costa Siqueira, de 19 anos.
A atleta está no projeto desde 2022. Ela chegou até o CEP porque foi jogar bola com a mãe – que também pratica o esporte – e uma das pessoas que estava na partida sugeriu que ela conhecesse o treinamento do CEP.
Na torcida
Quando o Colombo/CEP joga em Colombo a casa está sempre cheia. Familiares, amigos e torcedores se mobilizam para acompanhar o time que está na quarta colocação na Chave Ouro do Paranaense e que atualmente é um dos melhores times do estado.
Entre um gol e outro as famílias vendem pastel, bolo, refrigerante e outras guloseimas na porta do ginásio para viabilizar a participação das atletas na competição. Isso, aliado ao aporte de editais de empresas como a Copel, a Itaipu Binacional e a prefeitura de Colombo, permite que mesmo entre dificuldades o time avance.
A evolução do time passa pelas mãos de Nayara Has, de 20 anos, goleira-artilheira do Colombo/CEP que há dez anos está no projeto. Ela joga desde os seis anos e é uma das atletas mais experientes do time, inclusive defendendo a Seleção Brasileira no mundial disputado em 2022, na Argentina.

Assim como as demais atletas, Nayara, que sempre gostou de esportes, começou praticando futsal com meninos, por falta de times femininos à época. Quando recebeu o convite para integrar o projeto se tornou uma das atletas mais importantes do futsal feminino no Paraná e, a exemplo de outras jogadoras, também é uma das professoras que atua treinando as categorias de base.
Todas as jogadoras integram a comitiva que vai à Argentina, ainda nesta semana, para a disputa do Intercontinental Cup Cup de Fútbol de Salón, em Buenos Aires, na Argentina. O embarque será na sexta-feira (27) a competição começa no dia 28, sábado. A competição é organizada pela Federação Internacional de Futebol de Salão (Fifusa).
Além do Colombo/CEP, participam do torneio equipes de sete países. As brasileiras estão no grupo C, com Mar Chiquitos (Argentina) e Etoité (Haiti).
O coração no bico da chuteira
Comandar um time em competições em outros países não é uma atividade nova para a professora Daniely, que já integrou a comissão técnica da Seleção Brasileira inúmeras vezes como treinadora. A expertise e os resultados positivos nas competições nas quais comanda o Colombo/CEP, aliados aos anos de experiência no esporte, a tornaram não só a mente por trás do projeto vitorioso, mas o coração.
Para a diretora do CEP, professora Cláudia Ayaka Tamura, a colega é genial. “Ela mudou tudo. Ela é uma liderança, tem uma força no projeto que muda famílias, muda a vida das nossas alunas”, menciona a educadora.
As treinadoras Maria Eduarda de Melo Silva e Nicole Janine Batista, membras do projeto, ex-alunas de Daniely e agora colegas de trabalho concordam. O mesmo para um grupo de trinta meninas das mais variadas idades, vestidas com roupas esportivas e chuteiras coloridas que olham com atenção o que a educadora tem a dizer.

Uma das meninas diz que não sabia nem chutar uma bola antes de entrar no projeto. A outra fala que melhorou o relacionamento com a família. Do lado oposto, uma delas fala que o sonho é ser profissional.
Encabulada e modesta, a Daniely responde. “Não é um trabalho só meu, não. É um trabalho feito a muitas mãos, com muita gente, muito esforço envolvido. E, de novo, a performance vem e a gente gosta de entrar para vencer mesmo, mas o projeto não é sobre isso, o projeto é sobre formação, é sobre vidas”.