As tardes de domingo são sagradas no Parque Náutico, na divisa entre Curitiba e São José dos Pinhais. É ali que centenas de migrantes venezuelanos e cubanos se juntam para fortalecer vínculos, praticar softball e reviver fragmentos das lembranças de casa, embalados por música e comida típica. Essa movimentação começou em 2020 e transformou o parque em um ponto de encontro marcado por afeto e identidade.
A ideia de reunir os conterrâneos foi se espalhando de boca em boca, até que o grupo decidiu se organizar formalmente. Assim nasceu a Lisisfron — Liga de Softball Integração Sem Fronteiras, que atualmente reúne cerca de duzentos atletas distribuídos em dez equipes. Os venezuelanos são maioria no coletivo. Neste meio tempo, o projeto ganhou o reconhecimento de várias entidades, desde a Prefeitura de São José dos Pinhais até a Federação Internacional de Esportes para Refugiados (IRSF).
Na Venezuela, o beisebol e o softball ultrapassam os limites esportivos — são componentes essenciais da cultura do país. Sua grande aceitação entre os venezuelanos têm raízes em uma trajetória histórica que une influências externas, que chegou ao país no começo do século XX, por meio dos empregados estadunidenses que atuavam no setor petrolífero.
A criação da Liga Venezuelana de Beisebol Profissional (LVBP), em 1945, consolidou o esporte no território. Com três títulos mundiais nas décadas de 1940 e 1950, e nove pódios ao todo, a Venezuela ocupa hoje o terceiro lugar no ranking histórico do torneio internacional, atrás somente dos Estados Unidos e de Cuba.
Embora semelhantes, as duas modalidades têm suas diferenças: o beisebol é jogado em campos maiores, com bolas mais duras e arremessos feitos por cima do ombro; já o softball, escolhido pela liga, ocorre em espaços menores, com bolas maiores e mais macias, além de arremessos feitos por baixo, em movimento circular.
Sem um espaço exclusivo em Curitiba e região, os migrantes adaptam o campo de futebol do parque, improvisando a estrutura nas marcas de escanteio. E onde antes só havia futebol, hoje há também tacos, luvas e correria entre bases. As equipes que participam da Lisisfron carregam identidade própria: nomes, escudos, cores e uniformes personalizados. Os Atléticos vestem branco com detalhes verdes; a Brasven joga com uma camisa de botão em um tom de vermelho quase alaranjado; os Piratas adotaram o preto; os Compadres de Venezuela jogam de azul — e assim por diante.
No centro destas celebrações esportivas, a organização é um valor primordial, como destaca Angel Blanco, 44 anos, vice-presidente e um dos porta-vozes da Lisisfron. Vindo do sul da Venezuela, Angel passou a se envolver com o grupo logo após sua chegada ao Brasil, em 2021, e desde então participa ativamente. A representação ultrapassa fronteiras locais e, atualmente, mantém articulações com refugiados de outras localidades: São Paulo, Cascavel, Chapecó, Joinville e outros.
Para Angel, a liga é apenas a porta de entrada para algo maior: a integração social e o fortalecimento do senso de comunidade. “Os jogadores sempre vão acompanhados da família — esposas, filhos — porque esse é um momento de lazer, de reencontro, de união cultural. É uma oportunidade de aliviar a mente das preocupações do dia a dia: trabalho, contas a pagar. Então, nos reunimos aos domingos naquele espaço e transformamos o dia em uma verdadeira festa venezuelana e cubana. É uma celebração saudável, com esporte, partidas de dominó, brincadeiras entre famílias, comida típica, troca de pratos, música e muito intercâmbio cultural”, disse.
Pelas imagens divulgadas dos encontros, é possível ver como o Parque Náutico se transforma em uma verdadeira festa latina aos domingos. A língua nativa domina as conversas e as comemorações quando o som do bastão acerta a bola. Assim, o contraste cultural também salta aos olhos: o softball — paixão nacional em países como Venezuela e Cuba — sendo praticado no mesmo espaço onde reina o futebol, símbolo máximo da identidade esportiva brasileira.
Essa cena, aliás, desperta cada vez mais a curiosidade dos brasileiros que frequentam o parque. “Eles são curiosos… observam, se aproximam e perguntam como funciona o jogo; querem entender do que se trata, como são as regras. E nós os convidamos a jogar, a participar conosco”, comenta o vice-presidente.
A presença da cultura venezuelana na Grande Curitiba cresceu — e cresce — na mesma medida em que os migrantes são acolhidos. Nos últimos anos, a região se consolidou como um dos principais destinos de refugiados venezuelanos que fogem das múltiplas crises em seu país de origem. De acordo com dados do Boletim de Imigração, entre 2010 e 2025, mais de 500 mil venezuelanos cruzaram a fronteira brasileira em busca de proteção e melhores condições de vida. Desta massa imigratória, estima-se que cerca de 150 mil tenham atravessado o país até chegarem a Curitiba e à Região Metropolitana.
Entre esses migrantes está Daniel Galindo que, aos 38 anos, deixou sua cidade natal, Puerto La Cruz — município litorâneo do estado de Anzoátegui, com aproximadamente 200mil habitantes — em busca de novas oportunidades. Em 2019, chegou a Curitiba após passar por Roraima, em um dos voos de reassentamento promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Na capital paranaense, foi acolhido, junto a outros venezuelanos, em um abrigo da Igreja Católica, com apoio da organização Cáritas, que atuava em parceria com a ONU.
Foi no ambiente de trabalho que Galindo soube da existência de um grupo de imigrantes que jogavam softball. Logo se integrou à equipe e reencontrou conterrâneos. A modalidade, que o acompanhava desde a infância em sua terra natal, tornou-se uma ponte simbólica entre passado e presente. Na nova casa, em Curitiba, a Liga Lisisfron passou a representar a continuidade de algo que ama — agora, do outro lado da fronteira.
“Praticar o esporte que amamos é muito gratificante. Nós nos organizamos, levamos nossas famílias — crianças, esposas, pais e mães dos jogadores. Não é apenas a nossa alegria, é algo familiar”, destaca Galindo, que também faz questão de reforçar: “Viemos para trabalhar, sim, mas também para compartilhar nosso conhecimento esportivo. As pessoas vão saber que estamos aqui fazendo beisebol e softball, que isso existe em Curitiba — e que foi trazido por nós, venezuelanos e cubanos.”
A primeira temporada de 2025 se encerrou em maio, no dia 7. Como desfecho, a equipe do Galindo, Atlético, se consagrou como campeã do segundo campeonato organizado pelos refugiados. Tudo como um dos líderes do time, Galindo relata que bons atletas venezuelanos têm vindo para Curitiba nos últimos tempos, e que a região já tem essa fama esportiva em seu país de origem. Por isso, o nível de competitividade da Lisisfron é alto, sendo um dos melhores do Brasil atualmente.
Angel e os organizadores planejam um retorno ao Parque Náutico em 8 de junho. Para saber mais e acompanhar os novos encontros da Liga de Softball Integração Sem Fronteiras, basta seguir a organização pelo Instagram @ligalisisfron. Além disso, é possível conferir as transmissões das partidas no canal do YouTube, neste link.
*Andry Lista, de 29 anos, nasceu na Venezuela e se mudou para Curitiba em 2021. É fotógrafa da Lisisfron — Liga de Softball Integração Sem Fronteiras.
Este texto faz parte do projeto Periferias Plurais, que abre espaço para jovens contarem a vida de comunidades em Curitiba e região. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam.