Faz anos que comerciantes e vereadores vinham fazendo cerco ao Mesa Solidária, restaurante criado pela Prefeitura na Praça Tiradentes para atender quem não tem o que comer. Os comentários menos agressivos falavam do "incômodo" de haver tantos pobres juntos no Centro. Os mais agressivos diziam que o restaurante só aumentava a falta de segurança - porque, evidente, aqueles falsos pobres eram na verdade meros criminosos.
Nesta semana, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) anunciou o fechamento da unidade. Em seu lugar, dizem que vai surgir um outro posto de atendimento para a população em situação de rua, ali perto na Dr. Muricy, mas com outra estrutura e outras regras. Ainda não está claro como deve ser o tal programa BASE, mas em tese além da alimentação serão oferecidos serviços de saúde e apoio para a busca de empregos.
Sempre existe a chance de ser uma mudança para melhor, e não custa dar o benefício da dúvida à Prefeitura. Mas uma medida que vem depois de ataques tão descaradamente preconceituosas como os que sofreu o Mesa Solidária tem cheiro, gosto e jeito de higienismo. Um mero modo de tirar os pobres do campo de visão dos demais cidadãos.
Uma das primeiras preocupações da comunicação foi justamente dizer que no novo endereço não haverá filas nas ruas. Quem procurar comida ali será imediatamente posto para dentro. Ótimo, que bom que as pessoas não vão esperar na rua. Mas fica evidente a pressa em dizer que não haverá pobres a serem vistos - não se preocupem, diz o texto da Prefeitura, tudo será feito com discrição para quem ninguém precise ver os indesejáveis.
Mais do que isso: o comunicado oficial explica que não há riscos para a segurança. Porque os pobres em geral não são criminosos? Não é isso: é que a Prefeitura promete Guarda Municipal o tempo todo observando essa gente diferenciada que continuará precisando ter o que comer.
Aliás, o próprio endereço do antigo Mesa Solidária agora será sede de uma unidade da Guarda Municipal. Nada mais simbólico do populismo embutido na medida da Prefeitura. Se o problema eram os pobres vistos como criminosos, tiram-se dali essas pessoas e coloca-se no lugar gente armada para dar a todos a sensação de tranquilidade de um lugar isento de povo necessitado.