Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.
O bairro Orleans, na zona oeste de Curitiba, é marcado por contrastes que raramente figuram nos guias turísticos. Situado no limite entre a capital e Campo Largo, a região é cortada pela Rodovia do Café (BR-376), via que liga a metrópole ao interior. A presença deste asfalto moldou o fluxo de veículos e converteu o Orleans em um canteiro de caminhões estacionados nas vias.
Em dez cliques, David Milani, compartilha um lugar que preserva ares de interior, mas enfrenta problemas típicos de uma grande cidade. Nas caminhadas fotográficas por onde vive, encontrou algumas memórias coletivas do eletrofunk curitibano, além de araucárias, hortas comunitárias, 'namoradeiras' nas janelas e congestionamentos.
Nesse registro para o presente-futuro, recorda que o Orleans não nasceu urbano. E que como a vizinha Santa Felicidade, sua origem está nas colônias. Essa herança ainda se mostra nas fachadas das casas antigas, feitas de madeira da época e terrenos largos com jardins. Diferente do centro verticalizado, mantém-se a horizontalidade nas construções.
Geograficamente, o Orleans tem mais da metade de seu território está na Área de Proteção Ambiental (APA) do Passaúna, garantindo um índice de arborização singular.
No entanto, para Milani, as fronteiras invisíveis da condição social são nítidas. "De um lado, os prédios de alto padrão do Ecoville; do outro, a comunidade da Vila Gabineto, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). A divisão geográfica é literal, mas as pessoas não se encontram no dia a dia. É um aspecto comum das grandes cidades", observa.
Confira as imagens selecionadas e os comentários autorais.

O viaduto do Orleans, que cruza a Rodovia do Café, é a 'pedra no sapato' da região. Ele liga Campo Comprido a Santa Felicidade e é passagem quase obrigatória, mas às 18h vira um inferno. O problema afeta vários bairros (São Brás, Santo Inácio, Mossunguê, CIC, Campo Comprido). Reclamações e projetos de reforma ou reconstrução circulam há anos, mas nada sai do papel.

Essa imagem da namoradeira... já vi umas quatro ou cinco casas com esse elemento por aqui. Não sei bem o que refletir sobre isso, mas traz uma vibe bem característica de casa de bairro, quase de interior. É um conjunto de coisas: o cachorrinho solto na rua, essas coluninhas na frente das casas... Tem bastante residência com essa estética.

Essa horta comunitária é gigantesca, ocupa um quarteirão inteiro. Quis registrar essa questão comunitária porque ela é mantida pelos próprios moradores, que plantam, compram e consomem alimentos sem agrotóxicos ou transgênicos. Fiz uma breve pesquisa e vi que ela já tem mais de 13 anos. A prefeitura regularizou em meados de 2022.

Acho que cada bairro tem a sua linha do interbairros. No meu caso, é o quatro, que sai de Santa Felicidade e vai longe até o terminal no Pinheirinho. Selecionei essa imagem por ser uma rota que usei muito.

Essa é a minha foto preferida entre as selecionadas. Ela reflete bem a história do bairro, que foi uma colônia polonesa – como Santa Felicidade – antes de ser incorporada a Curitiba. A imagem captura a estética das casas antigas, com seu ar rural que ainda persiste. Elementos como as janelas grandes de madeira, as araucárias e a área verde são parte dessa identidade. O que mais quis registrar foi a simetria das duas janelas.

É um terreno baldio na Rua Túlio, com aquela plaquinha: "Proibida a entrada de pessoa estranha". Tirei a foto mais porque gosto da placa, acho curiosa. Não tem muito o que falar sobre o lugar em si, mas talvez mostre que ainda há bastante terreno vago por aqui, o que não é comum na maior parte da cidade, que já está toda ocupada.

A Sistema X foi uma das maiores casas de música eletrônica e vida noturna de Curitiba nos anos 90. Foi ali, inclusive, que nasceu o electro funkcuritibano, gênero que ganhou projeção com artistas como Ed Lemos, MC Maiara, Jair da Rocha e DJ Kleber Mix. Frequentei muito, especialmente numa época por volta de 2010 a 2015, quando havia open bar de cerveja Bavaria nas terças-feiras. Era um ponto de encontro famoso na cidade. O espaço fechou na pandemia. Acho curioso que, sempre que passo por lá, a inscrição "Sistema X" ainda esteja lá na parede. Quem viveu a época vai se identificar.

Quando pensei no que gostaria de registrar, a vista do Porto Sol foi uma das primeiras coisas que me veio à mente. No processo de documentar o Orleans, acabei descobrindo o formato real do bairro. Eu nem sabia direito onde ele começava e terminava. Foi quando percebi que grande parte dele está inserida na reserva, próximo ao Parque Passaúna, e compreendi que se trata, de fato, de um lugar extremamente arborizado.

A igreja do Orleans é um ponto de referência aqui. É bem antiga, de origens polonesas, e tem suas histórias — inclusive, dizem que um dos sinos foi doado pelo Imperador Dom Pedro II. É o nosso lugar ecumênico. Fica na beira da estrada, da BR-277 para Ponta Grossa, ao lado do cemitério. E à noite, fica bonita e chamativa com essas luzes.



