A elite brasileira tem má fama e não é sem razão.
Ou, nas palavras de Darcy Ribeiro: “O Brasil tem uma classe dominante ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir para a frente”.
Tem uma outra frase do San Tiago Dantas também: “A Índia tem uma elite maravilhosa, mas um povo de merda. No Brasil nós temos um povo maravilhoso, mas uma elite de merda”.
Mas claro que toda regra tem exceção. E aqui a exceção são os irmãos Moreira Salles. Não sei dos outros da família, mas tanto o João quanto o Walter Moreira Salles têm feito coisas impressionantes.
Herdeiros de banco, bilionários, poderiam estar defendendo ditaduras e governos autoritários, como tantos outros (e como bilionários americanos têm feito nos últimos dias). Podiam estar fazendo lobby contra redistribuição de renda e defendendo práticas malucas do agro. Ou podiam estar simplesmente torrando dinheiro sem pensar em nada. Mas longe disso.
“Ainda estou aqui” é a parte mais visível no momento do que os irmãos têm feito. Mas o conjunto da filmografia de Walter Salles, que já nos levou a indicações ao Oscar e, mais importante, ao Urso de Ouro em Berlim, mostra o peso do que ele tem feito.
E, além de fazer filmes bons, tem escolhido histórias que são importantes para o país. Para o debate de ideias e para a consciência de quem assiste. Diários de Motocicleta, Central do Brasil, Abril Despedaçado…
João Moreira Salles, na minha opinião, tem feito ainda mais. A revista Piauí é a melhor do país, de longe. A ideia de legar a revista a um conselho, então, é de uma inteligência e de uma generosidade redentoras.
Ainda tem o Foro de Teresina, os filmes dele. E a esposa dele, Branca Viana, ainda me funda a Rádio Novelo…
E a família ainda tem o Instituto Moreira Salles, que entre outras coisas vai cuidar do legado de Dalton Trevisan a partir daqui. E o Instituto Ibirapitanga, que patrocina projetos importantíssimos ligados à cultura negra, como o Projeto Querino. Um instituto que tem como prioridade a defesa da democracia, vejam só…
E no fundo é disso que trata o filme sobre Rubens e Eunice Paiva. Uma defesa da democracia e uma denúncia dos que querem (azedos, ranzinzas, cobiçosos) evitar que o país vá para a frente.
Vida longa aos irmãos.