Os efeitos da nova tabela do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para 2026 começaram a ser sentidos nesta semana por trabalhadores assalariados que recebem até R$ 5 mil brutos por mês. A partir dos salários pagos desde janeiro — com reflexo nos pagamentos de fevereiro — essa faixa passou a ter isenção total do imposto. Já quem ganha até R$ 7.350 passa a contar com redução gradual do valor retido na fonte.
Segundo estimativas do Ministério da Fazenda, cerca de 16 milhões de pessoas devem ser beneficiadas em todo o país. Em Curitiba, o alcance da medida tende a ser significativo: 31% da população empregada recebe até dois salários mínimos e 51% até três salários mínimos. No Paraná, o rendimento médio da população ocupada é de R$ 3.758, valor que fica abaixo do novo teto de isenção.
Um desses trabalhadores é o pedreiro Genival Gil, de 49 anos, morador do Distrito Federal. Com carteira assinada há três meses e salário pouco acima de R$ 2,7 mil, ele espera ver no próximo contracheque o dinheiro que antes era descontado. “Vai ajudar a pagar umas contas a mais da casa”, diz Genival, que vive de aluguel no Paranoá, a 20 quilômetros do centro de Brasília.
Com a nova regra, ficam totalmente isentos do IRPF — desde que a renda mensal total não ultrapasse R$ 5 mil — trabalhadores com carteira assinada, servidores públicos, aposentados e pensionistas do INSS ou de regimes próprios. A isenção também vale para o 13º salário. Para rendimentos acima de R$ 7.350, segue em vigor a tabela progressiva atual, com alíquotas que chegam a 27,5%.
O jardineiro Arnaldo Manoel Nunes, de 55 anos, que trabalha em um shopping de Brasília e recebe o piso da categoria (R$ 2.574), também comemora. “Mal dá para o cara se manter. Mas vou gastar com água e luz, que estão um absurdo”, afirma.
Falta de informação ainda é um obstáculo
Nas ruas, a reportagem encontrou trabalhadores que ainda desconhecem as mudanças. A atendente de farmácia Renata Correa, que ganha R$ 1.620, se surpreendeu ao saber que não terá mais desconto de IR. “Vou guardar esse dinheiro para o fim do ano ou para uma emergência”, planeja. Ela mora em Santo Antônio do Descoberto (GO) com as três filhas e promete alertar os colegas para conferirem o contracheque.
Para o conselheiro do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) Adriano Marrocos, quem tem emprego formal não precisa se preocupar com cálculos. “A isenção até R$ 5 mil e os descontos graduais até R$ 7.350 são automáticos nos sistemas de folha de pagamento. O trabalhador deve apenas observar o cálculo combinado com o redutor adicional e o desconto simplificado”, explica.
A cozinheira Elisabete Silva Ribeiro dos Santos, de 48 anos, diz que a notícia encheu os olhos — mas a falta de comunicação no trabalho gerou desconfiança. “Eu acho excelente, mas vamos ver se vai valer mesmo!”, comenta. Para evitar dúvidas, Marrocos sugere que empregadores enviem comunicados claros: “É importante explicar que não se trata de aumento de salário, e sim de redução de imposto”.
Na sexta-feira (30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nas redes sociais que a mudança já está valendo. “Quem ganha até R$ 5 mil agora tem Imposto de Renda zero. E quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7.350 está pagando menos imposto. É mais dinheiro para cuidar da família”, escreveu.
Como será compensada a renúncia fiscal
A renúncia fiscal estimada com a ampliação da isenção é de R$ 25,4 bilhões. Para compensar a perda de arrecadação, o governo criou o Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo (IRPFM), que incide sobre salários elevados, lucros e dividendos e rendimentos financeiros tributáveis.
A nova cobrança atinge cerca de 141 mil contribuintes. Desde 1º de janeiro, passam a pagar:
- quem tem renda mensal acima de R$ 50 mil (R$ 600 mil ao ano), com alíquota progressiva de até 10%;
- quem recebe acima de R$ 1,2 milhão por ano, os chamados super-ricos, com alíquota mínima efetiva de 10%.
Para Marrocos, o impacto líquido na arrecadação deve ser pequeno. “Antes, já havia isenção até dois salários mínimos. A renúncia fica concentrada entre R$ 3.036 e R$ 5 mil. Em contrapartida, o governo passou a tributar rendimentos que eram isentos, como a distribuição de lucros”, avalia.
O gerente de loja Pedro Henrique Mendonça Marques, de 23 anos, vê justiça na medida. “Quem recebe mais paga mais; quem recebe menos paga menos. Essa é a lógica”, diz. Com renda mensal de cerca de R$ 2,3 mil, ele planeja contribuir mais nas despesas de casa — e até pensar em sair da casa da mãe.
Declaração do IR: o que muda (e o que não muda)
De acordo com o Ministério da Fazenda, a correção da tabela só terá reflexo na declaração de 2027, que considera os rendimentos de 2026. Para a declaração a ser entregue em maio deste ano, nada muda.
As principais deduções permanecem as mesmas:
- dependentes: R$ 189,59 por mês;
- desconto simplificado mensal: até R$ 607,20;
- educação: até R$ 3.561,50 por pessoa ao ano;
- declaração anual: desconto simplificado até R$ 17.640.
Quem tiver mais de uma fonte de renda poderá precisar complementar o imposto na declaração anual, mesmo que cada rendimento isolado seja inferior a R$ 5 mil. A recomendação é conferir atentamente o Informe de Rendimentos e revisar a declaração pré-preenchida da Receita Federal antes do envio.
Crédito: Daniella Almeida, Agência Brasil