Há um ano, uma abordagem policial no Jardim Santiago, zona oeste de Londrina, terminou com a morte dos jovens Kelvin William Vieira dos Santos, de 16 anos, e Wender Natan da Costa Bento, de 20. Num estalar de dedos, as vidas de Cirlene Vieira dos Santos e Vanessa Pereira da Costa, mães dos rapazes e moradoras da comunidade Bratac, mudaram completamente.
Até então donas de casa e frequentadoras da igreja evangélica, elas passaram a ocupar outro lugar na cidade: o de militantes por justiça. Aprenderam a organizar protestos, conceder entrevistas e discursar em atos públicos, impulsionadas pela necessidade de manter viva a memória dos filhos e cobrar respostas do Estado.
As mortes, ocorridas em 15 de fevereiro de 2025, comoveram Londrina e provocaram forte reação sobretudo nas periferias. Dois dias depois, em 17 de fevereiro, protestos se espalharam por diferentes regiões da cidade. A repressão policial foi intensa e levou, inclusive, à suspensão do transporte público naquela noite.

Hoje, com o inquérito civil que apura o caso ainda em andamento, o cansaço emocional é visível nas duas mães. Ainda assim, elas afirmam que não irão recuar enquanto os fatos não forem completamente esclarecidos.
“O psicológico da gente não é mais o mesmo. A estrutura emocional muda, o comportamento muda. É um cansaço que não passa”, resume Vanessa. Para ela, a demora na apuração também agrava o sofrimento. “É uma demora cansativa. A gente sabe que o tempo faz parte do processo, mas parece que é feito para a família desistir, como acontece em tantos outros casos. Só que nós não vamos desistir. Pode levar um, dois anos, o tempo que for. A gente sabe que foi uma execução.”
Vanessa relata que, desde o início, enfrentou obstáculos para a realização de procedimentos básicos. No Instituto Médico-Legal (IML), precisou insistir para que fosse feito o exame residuográfico nas mãos do filho. “Disseram que, se eu pedisse o exame, o corpo ia demorar para ser liberado. Eu respondi: ‘Eles já estão mortos. Pode demorar’. Desde aquele dia, tudo é demorado. Desde o dia das mortes”, conta.
Questionada sobre a convicção de que não houve confronto, ela aponta inconsistências na versão apresentada. “Conheço meu filho desde pequeno, sei a criação que dei para ele. As armas apareceram dentro da viatura, limpas, sem um pingo de sangue. Existem outros fatores também, mas o processo corre em segredo de Justiça e a gente não pode falar”, afirma.
A mesma exaustão, misturada à resistência, aparece no depoimento de Cirlene Vieira dos Santos, mãe de Kelvin. Emocionada, ela diz que seguir lutando se tornou um exercício diário de sobrevivência. “Não é fácil. Às vezes dá vontade de parar com tudo, mas eu falo para a Vanessa e para mim mesma: não vamos desistir.”
Cirlene reforça que a mobilização das famílias não teria sentido se os filhos fossem criminosos. “Se nossos filhos fossem bandidos, ladrões, se tivessem passagem pela polícia, nós jamais estaríamos lutando por essa causa. Mas eles eram trabalhadores, inocentes. Por isso vamos até o fim”, diz.

Ela relata que situações cotidianas escancaram a ausência irreparável do filho. “Esses dias fui matricular minha filha na escola e me emocionei. Era para eu estar matriculando o Kelvin também. Esses policiais não acabaram só com a vida dele, acabaram com a vida da família inteira”, desabafa.
Segundo Cirlene, o objetivo das famílias nunca foi indenização ou visibilidade. “Nós não estamos atrás de dinheiro, nem de aparecer. Nós queremos a verdade. Mostrar que nossos filhos eram inocentes e que os sonhos deles foram destruídos.”
A mãe de Kelvin também questiona a morosidade do sistema de Justiça. “Se fosse o Kelvin ou o Wender que tivessem matado um policial, eles não estariam soltos. Já estariam punidos há muito tempo. Por que essa demora quando são policiais?”, questiona.
Embora reconheça a existência de profissionais honestos nas forças de segurança, Cirlene faz críticas diretas aos envolvidos na ocorrência. “Sabemos que existem policiais honestos, mas aqueles foram covardes. Tiraram a vida de dois jovens trabalhadores. Isso não acaba com a criminalidade. Matar jovens não resolve nada.”
Ao final, ela faz um apelo às autoridades e a outras mães que vivem dramas semelhantes. “Nós moramos numa favela, somos faveladas, sim, mas somos honestas, trabalhadoras. Será que o governo vê o nosso sofrimento? Nós só queremos justiça pelo Kelvin e pelo Wender. Às mães, eu digo: não desistam dos seus filhos. Pode demorar, mas a justiça vai ser feita.”
Para marcar um ano das mortes, no próximo domingo (15), familiares e amigos dos jovens realizam uma passeata da Bratac até o local onde foi feita a abordagem policial, no bairro vizinho. A concentração será feita na praça da comunidade e a saída está prevista para as 16h30.
