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Manu Santos achou sua voz, e agora ajuda outras pessoas a também se encontrarem

Aos 23 anos, jovem rege seu próprio coral, é cantora, pianista, estudante de Licenciatura em Música pela UFPR e DJ nas horas vagas

Manu Santos achou sua voz, e agora ajuda outras pessoas a também se encontrarem
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Este texto faz parte de uma série de perfis preparados pelo Plural para o Mês da Consciência Negra

O futuro de Manu Santos, é no palco. Aos 23 anos, a jovem rege seu próprio coral, é cantora, pianista, estudante de Licenciatura em Música pela UFPR e DJ nas horas vagas. Gentil desde o primeiro momento, a jovem, conhecida pelo nome artístico de Kimera, usa roupas cheias de significado e tem o corpo repleto de tatuagens; Kimera já mostra no estilo de vestir aquilo que está refletido em sua música: a mesma dramaticidade exibida no corpo e nas roupas se reflete na gravidade e na doçura da voz ao cantar.

Manu nasceu e cresceu em Curitiba e, aos 13 anos, apenas com papel e lápis, viu no mangá sua entrada para o mundo das artes. “Eu comecei fazendo um curso de desenho de mangá. No ano seguinte, comecei a fazer aulas de guitarra naqueles projetos gratuitos da prefeitura. No início eu era muito do rock e, aos poucos, comecei a cantar”, conta.

Hoje, a guitarra costuma ficar guardada, e o piano, junto com a voz, tornou-se o instrumento favorito. No canto, Manu viu uma oportunidade de transformar suas experiências individuais em coletivas. “Relembrando algumas experiências que tive como coralista, de estar cantando em um coral majoritariamente de pessoas cis. A dinâmica de divisão de vozes era excludente. Por exemplo, eu sou uma cantora de voz grave e é comum em coro chamar as vozes graves de vozes masculinas e isso gera um desconforto para pessoas trans”, diz.

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Para que outras pessoas trans, travestis e não binárias pudessem exercer sua musicalidade em um espaço seguro e confortável, surgiu o coral LLista Trans. O coral foca na musicalização de pessoas trans, travestis e não binárias e busca compreender as especificidades dessas vozes.

O coral surgiu em setembro de 2023 e já se apresentou em diferentes espaços de Curitiba, como a Casa Pagu. “Tudo começou de uma forma mais experimental. Ao longo desse um ano eu fui percebendo algumas demandas que as pessoas trans, em geral, sentem como uma vontade de ter um espaço de acolhimento. De apenas ter um lugar que você pode ir, trocar suas experiências, porque a gente tá sempre muito armado, sabe? Então é difícil a gente desarmar e ficar num espaço tranquilo, e o coral traz um pouco dessa tranquilidade”, explica Manu.

O que começou de forma experimental agora tem um caráter acadêmico. Para os próximos anos, Manu espera transformar as experiências do coral em seu tema de pesquisa para o trabalho de conclusão de curso. Além disso, ela também pensa no seu futuro na música. “Ainda não tenho músicas autorais, mas pretendo ter. Há um tempo tenho feito o exercício de escutar uma música, a letra e sentir esse coletivo do que a música tá falando e transmitindo. Então eu sinto que é um treino que eu tô fazendo pra começar a escrever e começar a falar das coisas que são significativas para mim”, conta.

Mesmo sem um repertório próprio, Manu já canta e toca a discografia de cantores que ela admira e se espelha. “Eu trabalho especificamente com a Black Music, que é onde eu sinto mais conforto atualmente. Costumo trabalhar com alguns repertórios de pessoas pretas que me inspiram, como a Liniker, a Nina Simone, e, para o ano que vem, estou me planejando para cantar Elza Soares.”

A escolha de cantar as músicas de Nina Simone, Liniker e Elza Soares vai além de um conforto técnico e vocal. Para a jovem, as letras cantadas por essas mulheres refletem também suas experiências de diferentes formas enquanto uma mulher negra.

No entanto, quando está nos palcos, Manu se apresenta com o nome de Kimera. “Então, tem um livro chamado ‘A Última Quimera’ que conta a história do poeta Augusto dos Anjos. O livro fala sobre a metáfora da quimera. É sobre esse poeta que não era muito fácil de definir o estilo dele. Então tem essa metáfora da quimera como um ser mitológico, que são vários bichos juntos. E eu me identifico muito com isso por pegar referências de vários lugares, de várias pessoas e de vários trabalhos”.

Como no poema de Augusto dos Anjos, ‘Versos Íntimos’, que cita a última quimera e fala sobre dualidade e mudanças, Manu é assim: uma pessoa cheia de nuances, de voz grave ao cantar, mas suave e gentil na fala, de batom escuro nos lábios enquanto canta Oceano, de Djavan, e que, através da música, encontrou ao meio de se expressar.

Julia Sobkowiak

Julia Sobkowiak

Formada em jornalismo pela PUCPR.

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