Caro amigo,
Li a sua última cartinha e ri muito com uma mania que desenvolvemos ao longo desses quarenta anos de convivência nas salas de professores: contar as mesmas histórias várias vezes. Mas não esqueço que há um código moral intransigente para esses acontecimentos. Quando um de nós diz: “já contei isso pra você?”, o outro deve, incondicionalmente, responder: “não, nunca ouvi.”, mesmo que conheça a história palavra por palavra.
Falamos do Vesúvio, o restaurante que ficava, penso eu, na Brigadeiro Franco, um buffet de comida popular que frequentávamos dia sim, dia também. Como é de nossa obrigação, conversávamos com todo mundo e fizemos amizade entre os garçons. “Já te contei essa história?” Pois bem, lá vai. Lembra que as proteínas eram servidas por unidade e as massas e legumes eram à vontade. Sentávamos à mesa com nossos pratos - o seu sempre mais repleto do que o meu, embora os estudantes sempre caçoassem de mim, pedindo pra que eu "deixasse comida para os outros" - e aguardávamos a chegada do garçom com nosso bife ou frango ou peixe. Com o tempo fui me aproximando, conhecendo o nome, a história de vida e, sem que fosse esse o objetivo principal, mas sem negar que não fizesse parte da coisa toda, consegui “subornar" o garçom, que passou a deixar duas unidades de proteína para cada um de nós. Viu, amigo, a importância desse amigo sefardita na sua vida? Sem esse plus proteico, como imaginar termos forças para as longas jornadas de aulas, com turmas de 110 alunos, sem microfone?
Você falou do futebol. Sim, outra lembrança espetacular. E pensar que já faz mais de vinte anos que larguei as quadras e os gramados, mas ainda sonho com as partidas que disputávamos juntos, com os colegas do colégio. E, de fato, eu não ia mal com a pelota. Sempre fui um apaixonado pelos esportes, mas meu corpo nem tanto. Como ele responde mal aos acepipes e guloseimas que ingiro, acabou inflando como uma bola e, como uma antimatéria, afastou-me do futebol. Hoje restam-me as graças e as desgraças do meu time de sempre, monogâmico assumido que sou, o Botafogo.
Os anos noventa foram particularmente especiais, não? Uma coisa engraçada: depois de quase trinta anos da eleição do salvador da pátria Jânio Quadros, os brasileiros voltaram a eleger um salvador da pátria, Collor de Mello. De fato, não parece que fomos mesmo feitos para a Democracia Constitucional. Mas também tivemos alguns bons momentos, principalmente com as manifestações contra os excessos do desgoverno, como foram, por exemplo, os caras pintadas, os jovens que empunharam cartazes e vestiram-se de preto, com o rosto pintado de verde e amarelo, gritando “fora, Collor”. Como sempre, enchemo-nos de esperança, lembra, compadre? Afinal, jovem é para isso, para questionar, para contestar, para exigir um mundo melhor, mais livre, mais justo.
Naquela época, muitos de nossos alunos faltavam as aulas e iam acompanhar os carros de som gritando por um Brasil melhor. Ninguém podia supor que trinta anos depois, elegeriam mais um salvador da pátria. Pior. Desta vez, optaram por um destruidor da pátria. Mas, enfim, a História é caprichosa e nem sempre gentil como nossos desejos. Como dizia o velho Walter Benjamin nessa passagem famosa:
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.
Sei que o colega anda meio desanimado com esses tempos, mas lembre da nossa incrível caminhada. Muitas vezes estamos em um lugar e chega um homem, já com seus cabelos branqueando, ou uma mulher, com filhos adolescentes ao lado e, alegremente nos interpela e diz: fui seu aluno, fui sua aluna. E ali, naqueles semblantes gentis, emanando amizade e reconhecimento, que percebo que toda essa caminhada valeu a pena. O presente é só um átimo da jornada. Afinal, como alertava o mestre Drummond, como imaginar que não existiriam pedras no caminho?
Um grande abraço, querido amigo. Espero sua próxima carta. Fale das brincadeiras que fazíamos na sala dos professores. E dos bons tempos da estabilidade do dinheiro. Afinal, apesar de tudo, o Plano Real foi um sucesso, não? Hehehehe. Não ligue. Esse é meu espírito social democrata inticando com o seu brizolismo.
Mas que deu certo, deu.
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