Pular para o conteúdo

Mobilização conquista moradia estudantil para estudantes indígenas da UFPR

No dia 2 de outubro foi inaugurada a Moradia Estudantil Indígena da UFPR. A Casa, que fica no bairro São Francisco, tem a capacidade de abrigar até 30 estudantes e é fruto de diversas mobilizações.  

Mobilização conquista moradia estudantil para estudantes indígenas da UFPR
Foto: Marcos Solivan/SUCOM UFPR
Publicado:

Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do censo da educação superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram um crescimento de 374% do número de indígenas estudantes no ensino superior do país.

Esse cenário tem relação principalmente com a Lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, que garante a reserva de vagas em instituições federais de ensino superior para segmentos sociais específicos, como os povos indígenas.

Entretanto, a evasão de estudantes indígenas no ensino superior é alta. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, cerca de 80% dos estudantes dos povos originários não termina a graduação.

E isso tem relação direta com dificuldades financeiras; ausência de estratégias de acolhimento e acompanhamento acadêmico específicos para um público multilíngue; distância de seus territórios e parentes; desafios emocionais ligados à saudade; racismo e preconceito, entre outros.

Entretando, um dos principais desafios para indígenas que frequentam a universidade é a moradia. Muitos vêm de outras cidades e estados e têm dificuldades em se manter nos grandes centros urbanos para estudar. Diante dessa realidade, um grupo de estudantes indígenas da UFPR começou um movimento em 2024 para conseguir uma casa de acolhimento aos acadêmicos indígenas da universidade.

Foto: Gislaine Vieira

E depois de muita mobilização, no dia 02 de outubro, foi inaugurada, em Curitiba, a Moradia Estudantil Indígena da Universidade Federal do Paraná. A Casa, que se chama “Maloca UFPR”, fica no bairro São Francisco e tem a capacidade de abrigar até 30 estudantes.

A Federal tem hoje aproximadamente 74 alunos indígenas. Eles são de diversas etnias e vêm de estados como Amazonas, Ceará, Pernambuco, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, além de cidades do interior do Paraná.

A Moradia Estudantil Indígena foi feita com o apoio do governo estadual. As tratativas da UFPR para viabilizar a Casa envolveram o Estado do Paraná, o Ministério Público Estadual (MPPR), a Defensoria Pública e a Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Povos Indígenas.

Além do oferecimento da moradia, estão previstas ações de apoio à permanência estudantil, como bolsas de estudo e acesso ao restaurante universitário. 

“As universidades, elas nunca foram pensadas para povos indígenas e tantos outros segmentos da sociedade. E a moradia vem no sentido de uma reparação histórica. De reconhecer que é um público que está dentro da universidade e que tem especificidades”, afirma André Martinez, pró-reitor de Pertencimento e Políticas de Permanência Estudantil da UFPR. 

Ocupação e mobilização

Em junho de 2024 estudantes indígenas ocuparam o prédio do Diretório Central do Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Paraná. O movimento, denominado “Maloca UFPR” reivindicava moradia para alunos indígenas que cursam ensino superior em Curitiba e no litoral.

À frente da mobilização estava Gislaine Vieira. Estudante de Nutrição na UFPR e presidenta do Coletivo dos Acadêmicos Indígenas, ela é do Rio Grande do Sul e explica que alunos indígenas que estudam em Curitiba geralmente ficam na Aldeia kakané Porã no bairro Campo de Santana ou no Território Floresta Estadual Metropolitana, na cidade de Piraquara a cerca de 30 quilômetros da Reitoria.

Gislaine explica que a ocupação do prédio do DCE foi feita pelos estudantes ao lado de lideranças indígenas como Márcio kokoj dos Santos, kretã kaingang, Jovina Renga kaingang, Olívio Jekupe, Mário Kamri Ribeiro kaingang e Jafé Casemiro kaingang.

“Permanecemos no prédio DCE com aproximadamente oito acadêmicos e lideranças durante três meses, até chamar atenção da reitoria e garantir negociação para conquistar a moradia estudantil. Todo o caminho para a conquista envolveu articulação com a Reitoria e órgãos legais, MPE, MPF e DPU, registro das demandas e planejamento da moradia, culminando na criação da primeira moradia estudantil indígena do Estado do Paraná”, conta.

Ainda em junho de 2024 os estudantes e as lideranças indígenas realizaram a primeira reunião com a reitoria da UFPR. Outras reuniões se seguiram ao longo dos meses até a definição do local que abrigaria a Casa.

Em dezembro de 2024, o Estado do Paraná e a UFPR firmaram um Termo de Cessão de Uso de Imóvel. Em janeiro de 2025 a Federal realizou vistorias na futura casa e produziu relatórios fotográficos sobre a condição do local. O termo de vistoria apontava a “necessidade de intervenções gerais de reforma em todo o prédio”, com sinais de invasão, pessoas em situação de rua residindo no local e furto de acabamentos removíveis. O relatório indicava que “o prédio deverá ser inteiramente reformado”.

Em fevereiro de 2025 teve Início da limpeza do espaço, com corte de grama e retirada de entulhos, para preparar o imóvel para as obras. Já no mês de março aconteceu a assinatura do contrato para dar início aos serviços de manutenção da moradia estudantil indígena. As primeiras obras começam.

Porém, em maio, o movimento de mulheres Olga Benário ocupou o imóvel. O movimento é ligado ao partido Unidade Popular (UP) e pretendia com a ocupação pressionar o Estado a criar uma casa de referência para mulheres em situação de rua. Depois de negociações, no entanto, o movimento desocupou a casa que enfim pôde ter as reformas concluídas para ser inaugurada.

“O caminho para chegar aqui foi de muita luta, por meio inclusive da nossa espiritualidade. Eu fiz a frente para ocupar o DCE e com isso fiquei exposta a críticas, tanto de indígenas, como de não indígenas. Foi um período de muitos desafios, passamos por muitas dificuldades, mas felizmente conseguimos nossa casa estudantil”, destaca Gislaine.

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

Todos os artigos

Mais em Paraná

Ver todos

Mais de José Pires

Ver todos

De nossos parceiros