Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.
“Talvez a gente não perceba que aqui há histórias que merecem ser contadas e que somos notícia”, reflete Amábili Gomes, 20, estudante de jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e moradora da Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Para o Jornal Plural, a futura comunicadora registrou e selecionou dez imagens que ilustram o cotidiano do maior bairro da capital, alvo frequente de estigmas.
Nesse exercício de observar o entorno, Amábili focou nas realidades invisibilizadas para os outros e para ela mesma. Apesar de estar na CIC desde 2019, percebeu que não conhecia a vizinhança de fato. “Quis olhar os detalhes ignorados, os lugares com os quais eu poderia conviver mais, mas que acabo não vendo porque minhas obrigações cotidianas me levam para o centro da cidade”, explica.
Segundo a estudante, a fotografia virou uma sina por meio do celular, em 2022, quando ela cuidava das redes sociais da igreja que frequenta, registrando cultos e eventos. Ao ingressar no curso de jornalismo em 2024, a rua e os instantâneos do dia a dia tornaram‑se seus enquadramentos preferidos. Após as aulas práticas na graduação, comprou sua primeira câmera e saiu para experimentar novas perspectivas.
Originadas dessas saídas experimentais, o conjunto dos registos documenta múltiplas camadas de um lugar complexo e plural. Eles abrangem as ocupações (como a Nova Primavera), as obras residenciais constantes e os fluxos desorientados dos trânsitos. Além disso, capturam o trabalho informal, os comércios tradicionais e os espaços de lazer e fé que servem como espaços de convivência.
Confira as imagens selecionadas e os comentários autorais.
“Como as casas são muito próximas e as famílias costumam ser grandes, a construção é um processo contínuo nas vilas. Muitas vezes, os moradores começam com uma base simples devido à renda limitada e, com o tempo, vão aprimorando e ampliando seus lares”.
“Quando penso no lugar onde moro, este viaduto me vem imediatamente à mente. Já passei por inúmeras vezes e sei que, para muitos, ele é apenas um caminho de passagem. Mas essa é justamente sua essência: um local sempre ativo e lotado. Na hora em que a foto foi tirada, por volta das 17h, o caos era total, com veículos constantes vindos de todos os lados do cruzamento. Os acidentes são comuns.”
“Enquanto eu fotografava o viaduto, o Matheus veio conversar comigo porque estava curioso sobre a câmera. Contou que trabalha ali vendendo doces e disse que também gostaria de começar a gravar vídeos e tirar fotos, especialmente de carros, para postar no seu Instagram.”
“Essa foto registra dois elementos recorrentes que passei a observar melhor: os catadores, em sua rotina diária de catar recicláveis pelas ruas; e os bares, que funcionam tanto como comércio quanto como ponto de encontro para os moradores”.
“O bairro mantém uma rede de bares antigos que sobrevivem mais pela colaboração comunitária do que pelo lucro. Eles são frequentados por idosos e amigos de longa data, e são como pontos de convívio.”
“O esporte tem um papel fundamental para as crianças e jovens da região. Vejo muitos deles saírem do colégio rumo ao campo de futebol e passarem a tarde inteira brincando.”
“Todo bairro tem os seus problemas, e um dos que mais percebo aqui é a questão do lixo. Recentemente, fui andando pela região e constatei isso: há muito lixo e entulho espalhados. A situação é mais crítica perto de um rio que passa aqui, próximo a uma mata, e que está super poluído. É um problema que nós, moradores, enfrentamos com frequência.”
“A presença religiosa é marcante por aqui. Em todo canto, há uma igreja ou centro de diversas denominações: Católica, Evangélica e outras vertentes cristãs. As pessoas demonstram forte devoção, e percebo que essas instituições são mais do que templos; são espaços onde, após o trabalho, os moradores exercem sua fé e fortalecem os laços comunitários.”
“Ferros-velhos e lojas de conserto comuns na paisagem na região, onde as pessoas levam de tudo para consertar (desde celulares até eletrodomésticos). E é também uma forma como algumas pessoas ganham a vida. A dinâmica lembra a dos galpões de catadores, onde a reciclagem é organizada e comercializada.”