A dor ciática ocorre quando o nervo é pressionado na região lombar. Maior nervo do corpo humano, o ciático "nasce" no fim da coluna e desce pelas pernas até os pés. Quando pressionado, a crise desencadeia dores que vão da coluna até a sola do pé do lado afetado. Em casos graves, há adormecimento da perna afetada, perda de força muscular e restrição de mobilidade. Mas o pior, na minha opinião, é a dor: insuportável.
Digo isso com conhecimento de causa. Estou me recuperando de uma cirurgia de descompressão do nervo feita no último dia 7 de outubro, depois de suportar um mês de crise. Nos piores momentos, a dor que senti foi mais intensa que qualquer outra dor que já senti. Isso inclui a dor do parto.
Mas esse texto não é para falar de dor. É para falar sobre precisar de ajuda e ter negado o mínimo de respeito. Foi o que aconteceu comigo no último dia 5 de outubro, na UPA CIC. Escrevo não em causa própria, pois já consegui a ajuda de que precisava, mas porque o que passei não deveria acontecer com ninguém que procura um serviço médico. E porque o mínimo que se espera das equipes de saúde é respeito pelo paciente.
No dia 5, desesperada de dor, sem conseguir andar nem me sentar, pedi ajuda do SAMU, confiante de que, como uma semana antes, na UPA Pinheirinho, eu seria atendida.
Sou moradora do Portão, portanto parte da regional do Fazendinha, mas porque a UPA Fazendinha permanece fechada para atendimentos de emergência e urgência, a solução é procurar uma entre três alternativas: UPA Pinheirinho, a UPA Campo Comprido e a UPA CIC.
Dias antes, quando precisei de ajuda com a dor (numa crise bem menos intensa), fui para o Pinheirinho. Fui atendida pela equipe de enfermagem e por uma médica, recebi medicação para dor e voltei para casa. Tudo de forma muito organizada, decente, correta. Um atendimento não muito diferente do que já tive em outras ocasiões na rede da Unimed Curitiba, meu antigo plano de saúde.
Mas no dia 5 não foi assim. Eu estava há quatro dias tomando medicação oral forte para dor, receitada por uma médica do INC (fui levada até lá por uma amiga na sexta, dia 1). Apesar de ter cedido um pouco na sexta e no sábado, a dor voltou com tudo e começou a piorar. Na madrugada de segunda para terça eu não aguentava mais, e meu marido chamou o SAMU. Eram 1h15. Cerca de 15 minutos depois a ambulância já havia chegado. Os horários citados se referem aos registros de mensagens e ligações no meu celular e no do meu marido.
A equipe, extremamente atenciosa, me ajudou a descer a escada e me colocou deitada na ambulância, cuidando para não agravar a dor. Mas o papel deles era só me levar até o socorro. As 2h16 cheguei na UPA CIC. Antes de ser atendida, um primeiro problema: a equipe de atendimento (que não apareceu para me receber), não disponibilizou maca para minha entrada, muito embora existisse uma na entrada da unidade. Eu teria que descer da ambulância e me sentar numa cadeira de rodas.
Foi uma decisão tomada sem que ninguém, nem equipe de enfermagem, nem médicos, me avaliasse.
Fiz o possível para atender ao pedido da equipe. Mas a dor era insuportável demais, de forma que pouco depois saltei da cadeira e caminhei até o local do atendimento, na triagem, onde mais uma vez exigiram que eu me sentasse. Enlouquecida com a dor, me joguei no chão da UPA e repeti várias vezes que estava com dor, que não conseguia ficar em pé nem me sentar enquanto a enfermeira me dizia que não me atenderia se eu permanecesse daquele jeito.

Veja, eu não queria ser difícil ou inconveniente. Estava com dor. E estava num local especializado no atendimento de situações de urgência e emergência. É razoável esperar que a prioridade ali seja o atendimento, que as pessoas ali seriam preparadas o suficiente para entender quando um paciente está em sofrimento. Mas não, a equipe da UPA parecia mais preocupada em me fazer obedecer algum protocolo.
Chorando, no chão da UPA, com muita dor, eu ouvia algumas mulheres no corredor que, suponho, eram da equipe de enfermagem, reclamando da situação. Só falaram comigo para dizer que não havia maca e, portanto, não adiantava "insistir" e que eu precisava levantar e seguir para sala de medicação onde me aguardava uma poltrona que, me disseram, era como uma cama. Tomei fôlego e me levantei, sem ajuda de ninguém.
A tal poltrona não é como uma cama. Durante a pandemia a existência delas como "leito" nas UPAs foi alvo de críticas, o que a secretária municipal de saúde, Márcia Huçulak, respondeu afirmando que era até melhor o atendimento nelas no caso de pacientes Covid, pois a posição sentada facilitaria a oxigenação. Fazia sentido, mas no meu caso, não. Isso porque a origem da minha dor estava na lombar e numa poltrona essa região seria pressionada, aumentando o sofrimento.
Não teve jeito, tive que me colocar na poltrona. A dor, como previsto, piorou. E eu fiquei ali gritando, chorando e pedindo socorro até 2h59, quando enviei uma mensagem de áudio para meu marido (que ficou em casa cuidando das crianças), avisando que havia sido finalmente medicada. Não sem antes ter tido duas veias estouradas pela técnica em enfermagem.
Apesar do remédio, a dor não desapareceu. Ela diminuiu. Um pouco. E a perna direita estava agora inteiramente amortecida e gelada. Mais calma, expliquei mais de uma vez para o médico (e depois para a médica) e para a técnica em enfermagem que eu estava numa crise de ciático, que já fazia um mês, que estava tomando medicação forte para dor e mesmo assim ela não estava cedendo. Que a dor havia diminuído, mas continuava muito forte. Apontei para a receita de Tramal que recebi no INC, falei da dosagem. Nada fez nenhum deles parar mais de um minuto ao meu lado para avaliar a situação.
Em resposta recebi um tratamento condescendente do médico, que falava comigo como se eu tivesse três anos, e de deboche da técnica. Não fui examinada, não monitoraram meus sinais vitais. A certa altura, quando chamei a técnica para dizer que a dor continuava forte e estava piorando, um sinal de alerta, considerando que eu havia acabado de receber uma dose de morfina, ela respondeu: "o que você quer que eu faça?"
Você pode imaginar que a UPA estava lotada, portanto a demora e a falta de atendimento eram compreensíveis. Eu não tenho como saber como estava o restante da unidade, mas onde eu estava, além de mim apenas outras três pacientes foram atendidas. E a técnica responsável pela sala fez muito pouco além de me atender (mal). Parte da noite ela gastou vendo vídeos, batendo papo com outras colegas e condenando alguma mãe que aparentemente não havia visto uma lesão no filho.
Além da falta de respeito e de preparo da equipe, a UPA parecia carecer também de recursos básicos. Na aplicação da medicação, a técnica em enfermagem me informou que não havia scalp, um dispositivo usado nas infusões intravenosas de curta duração que previne acidentes com a agulha. Não havia também cobertor, o que, no meu caso teria esquentado a perna afetada, reduzindo a dor.
No final, recebi quatro medicações e fui dispensada por volta das 6h, sem receita, sem orientação, sem encaminhamento. Nada. A médica que me deu alta disse que me liberou porque eu tinha uma ressonância magnética da coluna no dia seguinte, uma informação que eu mesma havia fornecido voluntariamente.
Não cheguei a fazer o exame porque na tarde de terça fui internada no Hospital Alto da XV. Na chegada no hospital, a equipe rapidamente providenciou uma maca e me levou para a sala de atendimento, onde passei pela triagem e pelo atendimento inicial. O médico identificou uma hérnia pressionando o nervo e me encaminhou para a cirurgia. Ainda tenho um período de recuperação pela frente, mas estou hoje tratada e sem dor.
O Hospital XV é uma instituição privada, que atende só planos de saúde ou pacientes particulares. Só pude ser atendida lá porque entre a madrugada e a tarde de terça um grupo de amigos, familiares e leitores do Plural se mobilizaram numa vaquinha que cobriu os custos do tratamento, que passou de R$ 15 mil (sou profundamente grata pela generosidade de todos). Mas não era um tratamento que não pudesse ter sido feito adequadamente no SUS.
Não há razão nenhuma para a equipe da UPA ter falhado tão miseravelmente em encontrar uma resolução para minha crise. O diagnóstico era tão óbvio que eu mesma sabia que provavelmente teria uma cirurgia pela frente. Além disso, é exatamente esta a função de uma UPA: receber pacientes em situação de urgência e emergência, atendê-los de forma a resolver a crise ou superá-la por tempo suficiente para o paciente procurar atendimento regular ou então encaminhá-lo para atendimento hospitalar.
Depois da minha experiência na CIC fiquei me perguntando: será que todo paciente ali que precisa de encaminhamento hospitalar passa por esse calvário para se tratado?
Como repórter já escrevi diversas vezes sobre a UPA CIC, a primeira de Curitiba a ser terceirizada e cujo modelo o prefeito Rafael Greca usou para empurrar a terceirização das demais. Sabia que é a unidade com os piores indicadores da rede. Mas também conheço inúmeros profissionais que atuam nas UPAs e na rede SUS da cidade e sei que independente das condições, eles são a melhor parte do sistema. Alguns inclusive me orientaram e ajudaram por whatsapp durante meu período doente.
Ao sair da UPA CIC no dia 5, às 6h da manhã, me senti profundamente triste e assustada. Primeiro por conta de minha própria situação de saúde, mas também porque sou uma mulher de classe média, branca, de 1,77m de altura e que sabe se expressar. Não pude deixar de pensar o que acontece ali com pessoas muito mais vulneráveis. É por isso que faço esse relato (e devo encaminhá-lo aos órgãos competentes), para que a UPA CIC não seja cenário de tortura para mais ninguém.