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O resgate de Juvêncio e de um Brasil que sonhava

A figura de Juvêncio como preso político era um anacronismo, um estímulo à campanha pela redemocratização, pelas eleições diretas

O resgate de Juvêncio e de um Brasil que sonhava
Juvêncio Mazzarollo: último brasileiro a cumprir pena por uma condenação imposta pela ditadura militar pós-1964. Foto: Reprodução
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O professor e jornalista Juvêncio Mazzarollo foi o último brasileiro a cumprir pena por uma condenação imposta pela ditadura militar pós-1964. No início dos anos 1980, quando o Brasil caminhava para a redemocratização e os brasileiros já tinham elegido, pelo voto direito, governadores e senadores, Juvêncio ainda aguardava, em uma cela, por justiça e liberdade. Mais precisamente, em três celas: a primeira foi na Penitência Central do Estado, em Piraquara; a segunda, no presídio do Ahú e a terceira no batalhão do Corpo de Bombeiros do bairro Portão. Foi neste último local que a família da cientista política Daniela Neves passou a visitá-lo. Os pais de Daniela, Eliana e Lafaiete Neves, faziam parte de um grupo de cerca de 40 pessoas que se voluntariaram para apoiar Juvêncio na prisão. A maioria deles não o conhecia previamente. Eram jovens que militavam de alguma forma contra a ditadura e por causas sociais. Cabia a eles manterem a sanidade mental do detento, que só ganhou a liberdade em abril de 1984, depois de 18 meses de prisão (liberto, Juvêncio voltou a Foz, onde viveu e trabalhou até morrer, em 2014).

Com a experiência que trouxeram os anos trabalhando –primeiro como repórter e depois como pesquisadora nas ciências políticas -, Daniela retomou a história da prisão de Juvêncio Mazzarolo e da luta pela sua liberdade. Pesquisou os textos publicados por ele no jornal Nosso Tempo, de Foz do Iguaçu, que denunciavam o descaso com que o governo federal encaminhava a desapropriação de pequenas propriedades agrícolas que seriam inundadas pela formação do lago de Itaipu. Foram estes textos que levaram Juvêncio a ser condenado pela Justiça Militar com base na Lei de Segurança Nacional. No mesmo jornal, ele também relatou o período de encarceramento.

Daniela entrevistou testemunhas dos fatos que relata. Segundo ela conta, muitas afirmavam não se lembrar das vivências de 40 anos atrás para em seguida se mostrarem capazes de relatar aqueles dias com detalhes.  A memória é perigosa e poderosa, como o livro de Daniela mostra. Histórias repletas de aprendizados, como a de Juvêncio Mazarollo, caem no esquecimento. Ainda assim, quando recuperadas, trazem consigo não só os fatos e as incertezas que os acompanham, mas também os valores que foram encobertos pelas tendências políticas e sociais que se instalaram nos últimos anos.

É por isso que, mesmo partindo de um fato triste, o livro de Daniela traz de volta muitos aspectos tocantes do momento em que a história se passou: o esforço de tantas pessoas para ajudar um homem que não conheciam por não aceitarem a injustiça; o empenho de líderes e militantes ligados às igrejas para apoiar vítimas do autoritarismo, trabalhadores rurais e moradores das periferias (nos anos 1980, o Paraná ainda vivia o fenômeno do êxodo rural que lotava as margens das cidades de pessoas sem moradia e sem trabalho); e o idealismo que fez um professor de inglês como Juvêncio se tornar um jornalista combativo em tempos perigosos. Eram expressões de uma solidariedade espontânea e combativa, em oposição a períodos marcados pelo cinismo, como o atual.

Juvêncio Mazarollo não foi uma vítima típica da repressão da ditadura militar. Sua prisão foi tardia, quando a sociedade brasileira entendia a redemocratização como inevitável e os militares sinalizavam a disposição para entregar o poder para políticos civis – foi em 1978, que o presidente-general João Baptista Figueiredo fez a declaração bem ao seu estilo sobre a abertura política: "É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. Não tenha dúvidas". Cinco anos depois, em 1983, ao se sentirem incomodados com as críticas de Juvêncio Mazzarollo, os militares o acusaram de ofender a honra e a dignidade do presidente da República e de outras autoridades. Sua figura de preso político era um anacronismo, um estímulo à campanha pela redemocratização, pelas eleições diretas. Ele recebeu apoio público e as manifestações pela sua liberdade eram ostensivas – na minha memória, uma faixa com o nome dele fazia parte da paisagem da Boca Maldita. Mas para o próprio Juvêncio, a experiência da detenção, aos 40 anos, foi uma dor profunda da qual preferiu nunca falar.

Serviço

Juvêncio – O último preso político da ditadura brasileira. Ed. Banquinho. Exemplares gratuitos estão disponíveis no Instituto Edésio Passos, em Curitiba, e na Livraria Kunda, em Foz do Iguaçu.

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