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O último cercadinho. Ou: há futuro para o bolsonarismo?

Nem a extrema-direita nem o governo têm deputados suficientes para garantir a aprovação ou a derrota do PL da Anistia. Ganha quem atrair o Centrão, que tem preço, e nunca é barato

O último cercadinho. Ou: há futuro para o bolsonarismo?
Jair Bolsonaro. Foto: Lula Marques/Ag. Brasil
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Hesitei em dedicar à coluna dessa quinzena à decisão da 1ª Turma do STF que tornou réu o ex-presidente e miliciano golpista, Jair Bolsonaro. Afinal, o que ainda pode ser dito sobre um assunto que mobilizou a atenção e o afeto de milhares, quiçá milhões, ao longo dessa semana? Mas o tema se impõe, incontornável. E há duas maneiras de abordá-lo.

A primeira é mais simples. Como todo brasileiro e brasileira que mantém apreço por coisas que muitos consideram démodé, como democracia e direitos humanos, esperava ansiosamente pela decisão do STF e já separei a cerveja sem álcool para abrir no dia em que o genocida for, finalmente, condenado à prisão.  

Mas sou historiador e, como tal, reluto em comemorar tão entusiasticamente o que alguns estão anunciando como a derrota do bolsonarismo. De Bolsonaro, talvez; do bolsonarismo, tomado como fenômeno que sintetiza a ascensão política e as ameaças à democracia e à vida da extrema-direita, creio que não.

Sobre o primeiro, sua ruína parece ter sido encenada por ele mesmo, transformando, na quarta-feira (26) o que deveria ter sido uma coletiva de imprensa em um espetáculo grotesco, daqueles que costumava promover no “cercadinho” nos tempos em que desgovernava o país.

Se soa óbvio para muitos de nós que ali estava a encarnação do desespero ante a certeza da prisão iminente, a sequência de impropérios e mentiras despejadas pela boca do genocida cumprem um papel, o mesmo do “cercadinho”: anima seus seguidores a se manterem crentes de que, nas próximas 72 horas, algo pode acontecer e mudar o rumo dos acontecimentos.

A estratégia é mais ou menos a mesma da sequência de acontecimentos que culminaram com a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Como naquele contexto, a tentativa é disputar, com a truculência característica dos fascistas, qual realidade prevalece. A da democracia e da justiça, ou a barbárie dos que não toleram a democracia e a liberdade e não temem impor sua vontade pela força.

De todo modo, ela não é suficiente para livrar Bolsonaro de seu destino na Papuda ou em Bangu – estou de acordo em dar a ele a possibilidade de escolher onde quer cumprir pena. Mas para as lideranças da extrema-direita, acredito, o que está realmente em jogo, a essas alturas, não é exatamente manter Bolsonaro livre da cadeia, mas acesa a chama do bolsonarismo. Defender o mito é só uma mise-en-scène, necessária aquela intenção.

Se, como diz a sabedoria popular, não existe lealdade entre ladrões, Bolsonaro pode apodrecer na cadeia, desde que sua imagem abjeta sirva para manter de pé o projeto de poder autoritário da extrema-direita. Nas últimas semanas, principalmente, toda uma movimentação vem sendo feita nesse sentido.

Algumas dessas ações são largamente conhecidas, como a produção e difusão em série de desinformações e mentiras. Outras, no entanto, miram mais especificamente as eleições do próximo ano, porque a vitória nos pleitos municipais ano passado precisa de uma segunda: eleger um número ainda mais expressivo de parlamentares no Congresso Nacional e, de preferência, voltar a ocupar o Palácio do Planalto.   

Sem anistia, nem “moderação”

Há pelo menos dois cenários possíveis para a sobrevivência desse projeto, nenhum deles alvissareiro. Mas uma coisa me parece certa: o bolsonarismo parece ter força para sobreviver a Bolsonaro justamente porque, como todo fenômeno político, sua existência já independe da liderança de quem lhe empresta o nome.

Um dos cenários é a aprovação do PL da Anistia. Os parlamentares da extrema-direita já prometeram obstruir a pauta da Câmara dos Deputados caso seu presidente, Hugo Motta (Republicanos/PB), não paute o PL na próxima semana. Na prática, isso significa travar a discussão e votação de outros projetos para que deputados apreciam a possibilidade de anistiar Bolsonaro. Trocando em miúdos: o país que se lixe.

Nem a extrema-direita nem a base do governo têm deputados suficientes para garantir a maioria caso o PL entre mesmo em pauta. Ganha quem atrair o Centrão, ou seja, quem pagar mais alto, porque o Centrão tem preço, e nunca é barato. Como o governo não tem base social pra fazer pressão, terá de barganhar o que tem, emendas e cargos, e seguir refém de parlamentares chantagistas.

Caso a Anistia não passe e a extrema-direita não possa contar com a candidatura de Bolsonaro – e é bom lembrar que ele está inelegível porque condenado por crimes eleitorais sem relação com a tentativa de golpe, o que torna o cenário mais conturbado –, será preciso uma rearticulação de forças, e provavelmente assistiremos uma disputa interna nada fraterna pela liderança e uma eventual candidatura.   

Até aqui, o nome que desponta com melhores chances de ocupar o vácuo de poder com a prisão de Bolsonaro, é o do governador de São Paulo, Tarcísio Freitas (Republicanos). Dele, parte da mídia corporativa e lideranças políticas costumam falar de um “bolsonarismo moderado”. Mentira, claro: não existe um “bolsonarismo moderado”.

Desde que assumiu o governo de São Paulo, vindo diretamente do Rio de Janeiro, Tarcísio de Freitas vem fazendo terra arrasada de setores como a educação, que desceu ao pior nível em uma década, e a segurança pública: sob o comando de Guilherme Derrite, a letalidade da Polícia Militar do estado aumentou 90% em 2024. Nisso, segue o roteiro de outros governadores de direita e extrema-direita, como Ratinho Jr., aqui no Paraná.

Mas não menos importante: Tarcísio de Freitas apoia a tentativa de golpe e a anistia a Bolsonaro. Logo, apoia, também, os atos terroristas no 8 de janeiro de 2023, os acampamentos que pediam “intervenção militar”, e a bomba plantada, e felizmente desativada, no aeroporto de Brasília. O “bolsonarismo moderado” de Tarcísio apoia tanto a condução criminosa do genocida durante a pandemia, como a política econômica de Paulo Guedes que condenou milhões à miséria.

O nome do governador de São Paulo, ainda assim, aparece como o favorito para ocupar o lugar de Bolsonaro, entre outras coisas, porque conta com a simpatia de setores da mídia corporativa, incluindo analistas e palpiteiros liberais. Além, óbvio, dessa entidade sinistra conhecida como “O Mercado”.

Como disse, nenhum cenário permite alimentar a esperança de que retornaremos, facilmente, a “normalidade”. Um bom começo seria um campo progressista robusto e disposto ao enfrentamento, sustentando por movimentos sociais igualmente fortes e articulados. Já está claro que uma política de alianças para vencer eleições não é suficiente para “derrotar o fascismo”. Mas sejamos sinceros: nem isso temos.  

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