Um viúvo, ex-campeão de rodeio, quase sexagenário, voltará à arena uma última vez para tentar ganhar o prêmio de quase 1 milhão de dólares em uma importante competição, em Dallas. A empreitada, arriscadíssima para sua idade, tem uma justificativa: poder arcar com a cirurgia de retirada de um tumor do cérebro de seu neto. A história é contada no filme “O último rodeio”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (16), em Curitiba.
É necessário destacar que se trata de uma produção da Angel Studios, uma empresa especializada em filmes “decentes”, para toda a família, e com uma pegada cristã. Fundada em 2021, a produtora, sediada em Utah, foi a responsável por “O som da liberdade” (2023), uma produção polêmica acusada de sugerir teorias conspiratórias sobre redes de exploração sexual infantil. A empresa nega essa intenção. No Brasil, o filme teve apoio de religiosos e conservadores, que se uniram para que o filme fosse um sucesso no país.
O último rodeio
Voltando ao “Último rodeio”. É um filme razoável. Tem um bom diretor, John Avnet, que dirigiu “Tomates verdes fritos” lá em 1991, possivelmente seu melhor filme. Ele consegue envolver o espectador em “O último rodeio”, mesmo utilizando os mais escancarados clichés, azeitados pelo inevitável tom excessivamente melodramático.
O protagonista se chama Joel, interpretado por Neal McDonough. Ele se sacrificará pelo neto – e quem é louco de se opor a essa premissa do filme? Esse senhor, há muitos anos, caiu do touro em uma competição, o que resultou em uma cirurgia na coluna. Está manco e tem dores em várias partes do corpo. Será, realmente, um sacrifício. Diversas vezes, ele fracassará em seu treino e esmurrará, pateticamente, o chão e as paredes, como um caubói velho e frustrado pela perda de vigor.
A Bíblia
Para seu projeto de retorno, ele chama seu antigo treinador, Charlie (Mykelty Williamson, que atuou em Forrest Gump, de 1994, como o amigo do herói nos tempos do Vietnã). Ele ri das pretensões do velho Joel, mas logo se envolve na causa. Charlie é o amigo fiel, mas, também, a figura um tanto inconveniente que insiste que o herói leia a Bíblia, fundamental para alcançar o milagre de vencer a competição.
A filha de Joel é Sally (Sarah Jones). Eles têm embates para resolver traumas do passado, envolvendo também a mãe morta precocemente. Sally precisou cuidar do pai quando o velho e teimoso caubói, bêbado, caiu do animal. Em um momento, indignada, ela não aguenta e faz um desabafado, jogando na cara do velho Joel que, por causa dele, não conseguiu terminar o ensino médio. Nesse momento, é impossível não ter vergonha desse roteiro, escrito pelo diretor e pelo ator principal.
Com fé
O protagonista, claro, sofrerá bullying dos (caricatos) competidores mais jovens. A confusão resultará em uma briga de bar, em que Joel defenderá a sua honra. Como alívio, terá um discreto e interessante apoio de um dos donos do evento, um velho amigo, solidário com a idade e o drama do protagonista. Também acertada é a decisão do filme de apresentar a exploração midiática do câncer do neto de Joel, que sofrerá horrores em cima do touro, o mais feroz da competição (escolhido por ele mesmo, um mártir), arrebentará costelas, terá contusões. Mas, desde o início, a plateia tem certeza de que sua vitória virá, principalmente quando o personagem cede e segura, com fé, o rosário presenteado pelo amigo.
Neal McDonough, que não beija as atrizes em seus filmes em respeito à esposa, representa no filme o americano distinto e corajoso. Mas não é menos corajoso do que o não tão “decente” personagem de Leonardo DiCaprio em “Uma batalha após a outra” (o oposto de “O último rodeio”). No grande filme de Paul Thomas Anderson, DiCaprio, bravamente, busca salvar a vida da filha, também preservando o núcleo familiar. De todo modo, o ator de “O último rodeio”, nos créditos finais, diz aos espectadores que é preciso haver mais filmes “decentes e inspiradores” para as famílias. Com certeza, existe demanda para esse tipo de filme. A emoção, mesmo que tirada à força, assim como os temas, os personagens, a “decência” e a religiosidade de “O último rodeio” estão acima da originalidade, do arrojo e da estética.