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Para Gabriela Percilio de Araújo a medicina é política e coletiva

Aos 30 anos e formada em Medicina, Gabriela atua na área da Medicina de Família e Comunidade, é docente e mestranda

Para Gabriela Percilio de Araújo a medicina é política e coletiva
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Este texto faz parte de uma série de perfis preparados pelo Plural para o Mês da Consciência Negra

Gabriela Percilio de Araújo encara uma rotina cheia de compromissos com um sorriso no rosto. Aos 30 anos e formada em Medicina, atua na área de Medicina de Família e Comunidade. É aluna e professora ao mesmo tempo, docente de Medicina na faculdade em que um dia foi aluna, e mestranda. Apesar da carreira profissional, não esquece suas origens e sempre menciona que é neta da Dona Elza, filha da Dona Giovana, irmã mais velha da Laura e do João, e noiva da Carla.

Nascida e criada em Curitiba, Gabriela já sabia desde a infância que o cuidado com o outro faria parte da sua vida. "Desde criança, tinha vontade de fazer Medicina, mas venho de uma família em que ninguém tem ensino superior. Agora algumas pessoas têm, mas quando era criança ninguém tinha. Todas as mulheres da minha família são trabalhadoras domésticas. Cresci achando que a universidade não era um caminho possível. Eu nem sabia o que era faculdade, mas sabia que queria cuidar das pessoas", conta Gabriela.

Embora na infância não soubesse dizer que queria ser médica, foi na adolescência que Gabriela começou a trilhar os caminhos acadêmicos. "Na adolescência, desenvolvi mais essa vontade, mas com uma forte questão de vulnerabilidade. A universidade era um sonho muito distante. Comecei a me envolver com programas e projetos sociais, entrei em coletivos de movimentos estudantis, e esses caminhos me fizeram conhecer as possibilidades e políticas públicas afirmativas. Conheci o programa Universidade para Todos, a Universidade Federal e as cotas. Entendi que existiam caminhos e que pessoas da mesma condição social podiam chegar lá, embora não fosse fácil", diz.

Ao entrar na faculdade, Gabriela se deparou com uma nova realidade que extrapolou as questões de vulnerabilidade social. "A universidade é lugar de elite, e a de Medicina ainda mais. É um curso longo, integral e caro, com mensalidades que podem chegar a mais de 10 mil reais em universidades privadas. Quem no Brasil tem condições de pagar esses valores se não pessoas brancas? Já a universidade pública não cobra mensalidade, mas tem outras barreiras financeiras. A faculdade de Medicina não é um lugar para pobres e, nesse caso, leia-se negros", explica Gabriela.

De acordo com um levantamento do Conselho Federal de Medicina, apenas 3% dos médicos no Brasil são negros. Dos pouco mais de 545 mil médicos brasileiros, apenas 16 mil são negros. Mesmo diante dessa realidade, Gabriela não desistiu de seu sonho, embora em alguns momentos a ideia tenha passado por sua cabeça. “Teve um período em que eu queria muito desistir porque a gente passava por muita dificuldade financeira. Já fui para a faculdade sem comer e só com o dinheiro da passagem. Na época eu falei pra uma professora: ‘eu não vou conseguir, eu vou desistir’. Hoje em dia eu agradeço a ela, mas na época ela foi muito dura comigo. Ela olhou bem pra mim e falou: ‘desiste, pode desistir e dá pra eles o que eles querem’. Eu fiquei pensando, é verdade, eu vou dar pra eles para manter a hegemonia, tá incomodando, né?”, conta.

Embora a professora não tenha sido gentil, sua fala despertou em Gabriela o entendimento de que a medicina, para ela, também era um lugar político e de resistência. “A medicina é um importante espaço para política. Tudo é política, né, a vida da gente é política, nosso corpo é político, o que a gente fala é político. Os médicos ainda são pessoas que desempenham essa questão de conseguir influenciar as pessoas. Acho que o imaginário das pessoas sobre médicos ainda é de respeito, de admiração. Olha, essa pessoa é inteligente, essa pessoa sabe o que ela está falando. Então os médicos têm influência sobre as pessoas e sobre as comunidades”, explica.

https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/manu-santos-achou-sua-voz-e-agora-ajuda-outras-pessoas-a-tambem-se-encontrarem/

E é nas comunidades que Gabriela gosta de atuar. Como médica especialista em Medicina de Família e Comunidade, a docente vê a medicina como uma junção de fatores. “Eu tenho um entendimento da medicina de um lugar de coletividade. Acredito nesse conceito amplo de saúde. Acho que a gente não consegue promover saúde sozinho. É óbvio que uma pessoa com uma doença muito grave ou uma doença crônica vai precisar de um tratamento individualizado muito específico, mas a maioria das pessoas está adoecendo por questões sociais”, explica Gabriela.

Para além da medicina neste lugar coletivo, a médica vê sua vida desta forma. Quando pensa em onde chegou, lembra de seus familiares, e quando projeta o futuro, também vislumbra a família. “Nós somos cinco. A minha mãe, que me criou junto com a minha avó e os meus irmãos. Acho que sem eles nada disso teria sido possível. De maneira nenhuma. Tive muita sorte, sempre tive uma família muito acolhedora e amorosa. Elas me ensinaram muito sobre força, sobre fé, sobre luta, sobre superação, sobre política, sobre militância”.

Com o planejamento de um casamento, Gabriela, além da celebração, deseja construir um futuro digno de comercial ao lado da amada. “Nós queremos construir uma família. Quero uma família no melhor estilo comercial de margarina. Vamos casar, ter filhos, construir uma família. Quero poder estar com os nossos e nos aproximar das pessoas que já estão na nossa rede”, conta.

Agora como docente, Gabriela, que sorri com tamanha facilidade, espera inspirar e transformar, mesmo que aos poucos, a medicina. “Sou muito feliz de saber que talvez, em alguns lugares, em alguns momentos, algumas pessoas se inspirem nessa trajetória, que não é só minha, mas de todas as pessoas que estão comigo, para que a gente inverta essa lógica de poder”, diz.

Leia também: Plural estreia “Invisíveis”, podcast sobre a história dos negros em Curitiba

Pensadora da vida de forma coletiva, Gabriela vê na Medicina uma oportunidade de promover saúde através da junção de esforços e da atuação em comunidade. Inspirada por um profundo senso de responsabilidade social, acredita que “a saúde é feita do bem-estar físico, emocional e espiritual". Apesar da formação, a médica não esquece de onde veio e carrega sempre consigo a resiliência, força e ancestralidade das mulheres que a criaram.

Julia Sobkowiak

Julia Sobkowiak

Formada em jornalismo pela PUCPR.

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