Talvez a maioria das pessoas pense pouco nisso por achar que já sabe a resposta. Principalmente nas camadas sociais mais vulneráveis, a escola é vista como um meio de "dar uma vida melhor" para os filhos, o que faz todo o sentido. Quem não estudou acaba tendo menos oportunidades na vida e fica para trás no mercado de trabalho.
Mas a escola é muito mais do que isso. Mais do que "preparar para o mercado de trabalho" ou mesmo "preparar para o vestibular" (o que são duas faces da mesma moeda), a educação tem outro objetivo que podem passar despercebido, mas que no final das contas é ainda mais importante: ajudar a formar um ser humano.
Preparar para a vida
Para Vinícius Soares Pinto, Diretor Administrativo do Colégio Medianeira e doutorando em Educação, não seria nem inteligente pensar na escola sobretudo como um meio de formar profissionais, principalmente num mundo em que as características do trabalho mudam tão rapidamente.
"É perigoso reduzir a escola, ou formatá-la, pensando exclusivamente ao mercado de trabalho, pois como prever a realidade profissional daqui 5, 10, 15 anos, diante deste mundo cada vez mais acelerado?", pergunta Vinícius. "Por exemplo, a criança que ingressa hoje no infantil 2, terminará o seu percurso escolar em 2040. Portanto, ser refém à lógica utilitarista na educação é uma armadilha", afirma.
De acordo com ele, é muito mais produtivo pensar na ideia da filósofa Hannah Arendt de que, nós, adultos, precisamos ser responsáveis com os “recém-chegados” no mundo. E aí a escola – formada por educadores e famílias – tem muito a contribuir", diz Vinícius.
"A escola precisa apresentar a esse recém-chegado no mundo parte do conhecimento historicamente acumulado, de que há pessoas com interesses e opiniões divergentes da sua, ou seja, mostrar para a criança/jovem de que o mundo é complexo e culturalmente diverso. O estudante que termina a educação básica tendo consciência disso saberá lidar da melhor maneira possível com os desafios que a vida lhe apresentar, inclusive, no mercado de trabalho."
Ou seja: formar alguém que seja capaz de conhecer o mundo em que vive equivale a dar a essa pessoa o domínio sobre muitas coisas - e de lambuja ganha-se um bom profissional. Mas o inverso não funciona. Formar um bom profissional nem sempre equivale a formar um bom ser humano (e garanto que todos nós conhecemos gente que tem uma boa vida profissional mesmo tornando a vida dos outros e inclusive a própria vida um inferno).
Hipotecando o futuro
Pró-reitora de Graduação e Educação Profissional na Universidade Federal do Paraná, Andréa Caldas, a visão que muitos pais (e muitas escolas) têm de se voltar precocemente para o mundo do trabalho é redutora e causa privações para as crianças que terão reflexos na vida adulta.
"A escola deve estar voltada para a formação humana geral, especialmente na educação básica. A formação para o trabalho é uma destas muitas dimensões", diz ela. "Até porque quando reduzimos a escola a uma profissionalização precoce é como se estivéssemos reduzindo todas as dimensões da vida à jornada de trabalho.
Não é porque eu vou trabalhar em uma área que devo ser privada do saber de outras dimensões do conhecimento humano."
Andrea lembra uma expressão de Antonio Gramsci para isso. "Gramsci tinha uma expressão para a perspectiva reducionista da formação. Ele dizia que 'querem hipotecar o futuro dos garotos e garotas'. Arte, cultura, ciência, filosofia devem fazer parte de uma formação humanista ampla", afirma.
Crise do humano
Vinícius diz que esse pensamento "pragmático" sobre a escola tem a ver com o ambiente em que vivemos e com a lógica do mundo hoje. "Muitas famílias estão em sofrimento, desamparadas emocionalmente, consequência dessa lógica neoliberal pragmática de valorização à meritocracia na qual tornaram-se reféns e sentem-se pressionadas. Nesses casos, gosto de perguntar para esses pais: 'vocês estão realmente felizes, satisfeitos, com a vida que têm? Por que vocês lutam para que seus filhos continuem nessa lógica de vida?'", diz ele.
Segundo ele, é preciso deixar claro para as famílias que ser humano não é máquina. "Não é à toa a crise do humano diante do avanço da tecnologia, da inteligência artificial e afins, pois há um 'silêncio antropológico' na educação em pensar o lugar da humanidade no contemporâneo, como alerta Bernard Charlot."
Vinícius também cita Jan Masschelein, que defende a escola como esse ambiente privilegiado de suspensão do tempo e do caráter funcionalista do saber. "Por exemplo, é na escola que a criança/jovem tem a oportunidade de estudar química pela química, a arte pela arte, ou seja, sem a necessidade de transformar esse conhecimento em algo “vendável, funcionalista”. Esse autor também defende que é na escola que o estudante pode se libertar, pelo menos, durante parte do dia, das pressões familiares e entrar em contato com o diferente."