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Pés na Areia, Cabeça no Caribe

Como entrei no ritmo de Belize 

Pés na Areia, Cabeça no Caribe
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Sigo sozinho para o último destino do México, a Laguna Bacalar, já na fronteira com Belize. O camping era pequeno, mas o Paçoca conseguiu entrar e ainda tinha a santa eletricidade do ar-condicionado. Quanto mais vou para o sul, mais as temperaturas sobem e agora o ar-condicionado vem se tornando um item de primeira necessidade. À noite, com tudo aberto, fica fresco. Mas durante o dia, a casinha ferve e ficar dentro do Paçoca só com ar refrigerado.

O camping era bem diferente dos anteriores. Havia pequenos trailers antigos, kombis velhas e outros equipamentos — tudo servia como aluguel para pernoitar. À primeira vista, eram veículos meio escangalhados, mas havia certo charme e por dentro era arrumadinho. 

O pessoal que estava por ali era mais alternativo que a média dos campings da América do Norte. Ao meu lado, um menino francês com dreadlocks até o joelho fumava baseado o dia inteiro. Numa kombi, um americano descansava depois de uma longa viagem pelo México. Fiquei amigo dele, era um sujeito tranquilo — estava maravilhado com a qualidade das frutas do México. Em um outro trailer, uma senhora inglesa na faixa dos sessenta namorava um jovem alto e musculoso na faixa dos vinte. No segundo dia em que estava no camping, quando saí para fotografar de manhã, o rapaz da inglesa estava nu no píer da lagoa, fazendo ioga. Eu consigo entender por que minha família acredita que vou voltar da viagem usando cueca de crochê.

Músico de reggae na ilha de San Pedro. Foto: André Tezza

A lagoa era surreal — tons e tons de verde e azul turquesa. Fiquei três dias ali, bolando o roteiro da América Central e, quando o calor apertava, ia tomar meu banho na lagoa. A partir de agora, não preciso mais usar o aquecedor de água do Paçoca — o banho frio não é mais frio, é morno. Foram dias de paz e silêncio.

A entrada de Belize foi sossegada — nem vistoriaram o Paçoca. De todo modo, foi um pouco demorado, com uma etapa de dedetização externa, imigração, aduana e o pagamento do seguro obrigatório. Muitos negros estavam trabalhando na fronteira, uma diferença com o México, em que a presença dos afrodescendentes não é tão comum. Aqui começa uma outra geografia, Belize é um país diferente do restante da América Latina. Foi colônia inglesa e a independência aconteceu só no final do século XX. Ainda faz parte da Commonwealth e o rei Charles reina de forma simbólica. As notas de dólar belizenho trazem a rainha Elizabeth e a língua oficial é o inglês — na prática, a língua de todo mundo é o creole, um inglês cortado, que veio de africanos que passaram pelo Caribe. Como é o Caribe que fala inglês, há muitos turistas americanos.

Crianças brincam no mar do Caribe da Ilha de San Pedro. Foto: André Tezza

Eu não conheço a Jamaica, mas achei que o jeitão de Belize é um jeitão jamaicano. O reggae toca em todo lugar e o clima é de descontração e tranquilidade, todos são inimigos da pressa. O país é pobre, mas não miserável e nitidamente tudo funciona relativamente bem. As ruas das cidades são largas — o que é sempre um alívio para o Paçoca — e muitas casas são de palafitas. Esta é uma daquelas regiões de tempestades sinistras, que volta e meia recebem furacões.

Meu primeiro dia em Belize foi em Orange Walk. Fiquei no estacionamento de um restaurante em que também funcionava um camping improvisado. Ali experimentei duas iguarias belizenhas: a cerveja Belikin (um orgulho nacional) e o arroz com feijão. Mas o arroz com feijão daqui é completamente diferente — é um prato único e não dois separados. Feito com leite de coco e especiarias, comi a novidade com alegria.

Duas iguarias belizenhas - cerveja Belikin e arroz com feijão. Foto: André Tezza

No segundo dia, com o Paçoca guardado em Belize City, peguei o barco para a ilha de San Pedro, um dos paraísos do Caribe. As praias de San Pedro, como já esperava, são deslumbrantes. A cidadezinha é meio caótica, porque o meio de transporte popular são os carrinhos de golf a gasolina, o que faz uma barulheira danada. Há bons restaurantes, resorts grandes nas extremidades da ilha e até um pequeno cassino. Na maioria dos restaurantes toca música ao vivo — alguma banda de reggae sempre aparece. 

No meu segundo dia na ilha, aluguei um carrinho de golf e fui até Secret Beach. Dirigi uma hora até chegar lá. No início, você está feliz da vida com o carrinho, vento na cara, praias de mar verde ao lado. Mas depois de uma hora dirigindo acaba ficando cansativo — não são propriamente confortáveis. 

Uma iguana verde posa para fotos no meu braço. Foto: André Tezza

Eu tinha opções de vários passeios a partir de San Pedro. Os principais eram snorkelings. Mas eu havia acabado de fazer o curso com cilindro no México, estava já empanturrado e satisfeito com os mergulhos na região de Cancún. No final do dia, quando a luz estava bonita, saía para fotografar. Em uma das ocasiões, um senhor com longos dreads veio falar comigo. Perguntou se eu estava na ilha pela primeira vez. Ao ouvir minha resposta, ele disse que eu aparentava ter uma alma viajada. Era uma fala um tanto ensaiada, de um amigo que eu não pedi. Então ele me ofereceu drogas, o que eu recusei. Antes de ir embora, perguntou o que eu fazia. Respondi que trabalhei 20 anos como professor. Ele deu uma gargalhada, “Are you joking me, right?”. Eu disse que não, não era uma piada. “Professor! You are a professor!”, ele ria ainda mais. Parece estranho dizer isso, mas eu fiquei feliz com o espanto dele. Com sorte, a saída da carreira docente me mudou — e mudou também como as pessoas me veem.

Casa colorida típica de San Ignacio, Belize. Foto: André Tezza

Depois de San Pedro, fui para San Ignacio. Eu acabei só fazendo uma breve caminhada na cidade (com muitas casas coloridas) e uma visita em um lugar pequeno e sensacional: um programa de conservação de iguanas verdes. As iguanas verdes estão ameaçadas de extinção. Um dos motivos é que existe uma crença belizenha de que quem come uma iguana fêmea grávida terá sorte ou boa saúde. Isso fez com que o país quase extinguisse o animal. As iguanas verdes são vegetarianas, dóceis e com cores inacreditáveis. Consegui boas fotos dos bichinhos, até porque são muito fotogênicos. O passeio do programa de conservação das iguanas foi o último em Belize. Agora, parto para a Guatemala.

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