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Câmara de Londrina censura memorial a vítimas de feminicídio

Vereadores da extrema-direita apresentaram requerimento pedindo a retirada do memorial da parede da

Câmara de Londrina censura memorial a vítimas de feminicídio
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Da Rede Lume

Em um misto de indignação e paralisia, a socióloga Silvana Mariano viu a silhueta com o nome de sua irmã ser retirada de uma parede da Câmara Municipal de Vereadores de Londrina (CML) na tarde da última segunda-feira (13). Cidneia Aparecida Mariano era uma das 44 homenageadas pelo memorial Nenhume a Menos, concebido e instalado na Casa pelo Néias-Observatório de Feminicídios Londrina no dia 6 de maio.

O memorial havia sido exposto, durante o mês de abril, em outros locais de acesso público, como o Sesc Cadeião e o Canto do Marl (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina) em comemoração aos três anos de atividade do Observatório. Finalizaria sua trajetória na Câmara, entre os dias 6 e 20 de maio. Mas uma palavra escrita em linguagem neutra pos um fim precoce à exposição.

Mais indignados com a palavra “nenhume” que com o número de mulheres vitimadas pelo feminicídio na cidade, dois vereadores da extrema-direita apresentaram requerimento pedindo a retirada do memorial da parede da CML e tiveram a adesão de outros sete parlamentares.

Lideraram a ofensiva Jéssica Ramos Moreno (PP), eleita sob a alcunha de “Jessicão, a opressora”, e Claudinei dos Santos Pereira (PL), conhecido como Santão. O pedido para a retirada chegou às integrantes do Observatório por meio do diretor da Câmara, Leandro Rosa.

“Nós recebemos essa ordem de retirada com muita surpresa e indignação. É um trabalho para dar visibilidade às mulheres que foram vítimas de feminicídio nesta cidade, desde 2015. Temos ali 42 mulheres e duas crianças. O nosso trabalho é zelar pela memória dessas mulheres”, disse Silvana, porta-voz do Observatório.

Questionada em entrevista coletiva se considerava que a linguagem neutra estaria sendo tratada pelos vereadores como um assunto mais importante que a morte das mulheres, ela respondeu: “Com certeza. A relevância que os termos da linguagem neutra ganhou para esses vereadores significa que são pessoas para as quais os feminicídios ali representados não importam, não contam.”

Néias aponta censura

A retirada do memorial, na segunda-feira, foi acompanhada pela imprensa de Londrina e pelos dois vereadores bolsonaristas. Exaltado, o vereador Santão não gostou de ser questionado pela Rede Lume se a linguagem neutra era mais importante que a morte das mulheres.

“Para mim, é. A minha mãe não é nenhume, a minha avó não é nenhume, a minha filha não é nenhume. A minha mãe não é pessoa que menstrua, a minha mãe não é pessoa que tem buraco bônus”, reclamou.

Ele também se irritou ao ser questionado se o ato de retirada configuraria censura, conforme alegou Néias. “Lógico que não. Isso aí não é linguagem, nem linguagem isso é”.

Jessicão também atacou o Néias. Para ela, ao utilizar a linguagem neutra, o Observatório estaria desrespeitando as mulheres. “A gente poderia hoje estar aqui falando sobre todas as mulheres que estavam coladas nessa parede, mas elas (representantes do Observatório) tentaram usar a linguagem neutra para lacrar e acabaram jogando no chão uma luta tão importante que é a defesa das mulheres.”

Ela também negou a prática da censura. “Claro que não. Tirar uma coisa que não existe? Linguagem neutra não existe. É um devaneio para a cabeça de uma pessoa mal intencionada e que faz com que essas lutas percam totalmente a sua força.”

Foco nas vítimas

A vereadora Sônia Gimenez, procuradora da Mulher no Legislativo, que intermediou a instalação do memorial, lamentou o posicionamento dos colegas. “Outras questões, para mim, são supérfluas quando nós pensamos nas mortes dessas mulheres, na situação de violência que elas passaram. Então, esse é o foco. O foco é a questão da violência contra a mulher.”

Ela elogiou o trabalho do Observatório. “O Néias tem feito um trabalho brilhante, trazendo à tona aquelas peças que os processos muitas vezes escondem. Temos meninas, jovens, senhoras. E nós temos um grupo representativo para dizer basta, chega de violência.”

“Em Néias trabalhamos há três anos para dar visibilidade ao feminicídio e humanizar cada história de mulher ou menina que perdemos, simplesmente porque são mulheres. Nossa exposição foi retirada da Câmara, mas nosso trabalho segue firme e forte”, finaliza Silvana Mariano.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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