Deputados estaduais da oposição lançaram, na terça-feira (7), durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná, a campanha “É seguro pra você, e é seguro pra mim”. A iniciativa busca pressionar pela tramitação do Projeto de Lei 448/2019, que prevê a obrigatoriedade da instalação de câmeras de vídeo e áudio em viaturas e uniformes da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil.
A audiência foi convocada pelo deputado Arilson Chiorato (PT) e contou com a participação dos parlamentares Renato Freitas (PT) e Professor Lemos (PT). Também integraram a mesa Haydee Melo, coordenadora do Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta, e Cleusa Maria Pereira, do Coletivo Desmilitariza – Filhos Roubados, Mães Dizimadas, ambas familiares de pessoas mortas pela polícia no Paraná, além de outras autoridades.
Convidados para o debate, o Ministério Público do Paraná e a Secretaria de Segurança Pública (Sesp) não enviaram representantes.
A campanha pretende mobilizar diferentes setores da sociedade, especialmente nas redes digitais, para ampliar a pressão política em torno do tema. A articulação envolve segmentos da cultura, esportes, movimentos feministas, raciais, LGBTQIA+ e juventude.
De 2017 a 2024, segundo levantamento feito pela reportagem no site do Ministério Público do Paraná (MPPR), as forças de segurança (Polícia Militar, Polícia Civil e guardas municipais) mataram 2.976 pessoas no estado. Curitiba, Londrina e São José dos Pinhais são as três cidades com mais mortes nesse período: 733, 304 e 139.
O MPPR ainda não divulgou os números de 2025, mas a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) informa que houve mais 426 mortes no ano.

Justiça por Almas
Haydee Melo, coordenadora do Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta, que representa familiares de mortos pela polícia em Londrina e região, fez um relato contundente na audiência. Em sua fala, destacou o sofrimento contínuo das famílias e criticou o que classificou como padrão recorrente de mortes. “Nós, familiares, estamos aqui morrendo aos poucos. A cada dia a gente morre um pouquinho, porque levanta sem o nosso ente querido, levanta com o luto, com a luta, com a dor, e ainda tem que enfrentar essa sociedade discriminatória que só sabe julgar. ‘Onde estava a mãe desse jovem?’”
Ela é tia de William Jones Faramilio da Silva Júnior, morto pela PM aos 18 anos em frente à Universidade Estadual de Londrina (UEL), no dia 6 de maio de 2022. Junto com ele, morreu também Anderbal Campos Bernardo Júnior, de 21 anos. Os dois estavam dentro de um carro. Um outro jovem conseguiu sobreviver depois de ficar internado por vários dias na UTI. Ao todo, o trio recebeu 50 tiros. Em seu depoimento, o sobrevivente diz que os policiais chegaram atirando e que viu quando eles plantaram armas na cena da ocorrência.
“É um padrão que se repete e cresce ano após ano. Eu acredito que aqui em Curitiba também não é diferente de Londrina, onde já identificamos que são sempre os mesmos policiais”, disse.
Ela ainda criticou a naturalização da violência. “Não podemos deixar que a morte vire rotina. Quando a violência parte de quem deveria proteger, o Estado precisa ser questionado e responsabilizado. A pergunta que eu faço é: até quando? Até quando vidas serão tratadas como números?”
Sobre a política de uso de câmeras corporais, Haydee classificou como insuficiente o projeto piloto do governo estadual. “O governador fez um projeto piloto com 300 câmeras para um estado com 399 municípios. Isso é uma vergonha”, disse.
Em 2025, a Polícia Militar do Paraná iniciou um teste operacional com 300 câmeras corporais equipadas com inteligência artificial. Os dispositivos têm capacidade de registrar automaticamente boletins de ocorrência e estão em uso em cidades como Londrina, Maringá, Cascavel, Curitiba, São José dos Pinhais, Colombo, Ponta Grossa, Paranaguá e na região de fronteira, com o Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron).
Segundo a representante do Justiça por Almas, o Paraná perdeu a oportunidade de acessar recursos federais para ampliar o programa. “Em 2025, o governo federal lançou um edital para ajudar no custeio das câmeras. O estado se inscreveu, mas não participou e acabou perdendo. Enquanto isso, o investimento em armas, viaturas e equipamentos de ponta segue alto”, criticou.

Filhos Roubados, Mães Dizimadas
Cleusa Maria Pereira, do Coletivo Desmilitariza – Filhos Roubados, Mães Dizimadas, de Curitiba, também fez um depoimento emocionado durante a audiência. Chorando, ela relatou as circunstâncias da morte do filho Jefferson Iagnecz Pereira, em abril de 2024, e contestou a versão oficial de confronto. “Meu filho levou um tiro na nuca, outro na cabeça e um no coração. Isso foi uma execução. O rosto dele estava cheio de pólvora, grudado de pólvora no caixão. Qualquer perito que veja isso vai entender o que aconteceu”, afirmou.
Cleusa disse ainda que o filho já havia sido torturado pela polícia antes da abordagem que terminou em sua morte. Segundo ela, testemunhas reforçam a versão de execução. “As pessoas que viram disseram que não foi tiroteio. Eu tenho foto, trouxe aqui. É muito triste ver uma coisa dessas. Qualquer perito que analisar o laudo vai ver que não foi confronto”, declarou.
Ao final, cobrou responsabilização. “Enquanto eu tiver vida, eu vou correr atrás de justiça”, disse.
O que diz a Sesp
Em nota, a Sesp respondeu à reportagem que as forças policiais seguem rigorosos protocolos de treinamento para o uso escalonado e diferenciado da força. "Ainda assim, situações de confronto armado são um risco constante enfrentado pelas polícias em todo o mundo, especialmente no combate ao crime organizado e na proteção da população."
De acordo com a secretaria, o uso de arma de fogo ocorre exclusivamente como último recurso para resguardar a segurança dos cidadãos diante de uma "agressão injusta e iminente contra policiais ou terceiros". "A Sesp lembra ainda que todos os casos de mortes em confrontos com policiais são rigorosamente investigados seguindo os trâmites legais e recebendo o acompanhamento do Ministério Público e o crivo da Justiça."