O escritor Dalton Trevisan, falecido em Curitiba nesta segunda (9), escreveu em 1988 um poema falando como seria sua morte, caso acontecesse na cidade. Num texto altamente irônico, publicado em "Pão e Sangue", imitava a "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias para dizer que não queria morrer sem ir embora de sua terra natal.
No poema, Trevisan citava nominalmente vários desafetos, com certa crueldade. Falava também da vida provinciana e de seu tédio perante instituições locais. Leia o texto na íntegra abaixo.
Canção do exílio
Não permita Deus que eu morra
sem que daqui me vá
sem que diga adeus ao pinheiro
onde já não canta o sabiá
morrer ó supremo desfrute
em Curitiba é que não dá
com o poetinha bem viu o que fizeram
o Fafau e o Xaxufa gorjeando os versinhos
na missa das seis na Igreja da Ordem
o trêfego Jaime batia palminha
em Curitiba a morte não é séria
um vereador gaiato já te muda em nome de rua
ao menos fosse de mulheres da vida
nem pensar no necrológico
o Wanderlei já imaginou
ó santo Deus não o Wanderlei
sem contar a sessão pública dos onze positivistas
Oficiada pelo grão-mestre Davi
Nessa hora você desiste da própria morte
em Curitiba é que não dá
o Silvio iria filmar tua vida
melhor não ter vivido
dirá o Edu que foi teu amigo de infância
antes nunca ter tido infância
muito menos amigo
tudo faça para não morrer
em ú1timo caso
que seja longe de Curitiba
não avise mulher nem filho
nada de orador a beira do túmulo
já imaginou o presidente da OAB pipilando o verso
os trezentos milhões da Academia Paranaense
arrastando-se de maca bengala cadeira de roda.
lá vem a desgracida dona Mercedes
com o chumaço de algodão
para tapar tua narina olho ouvido
porque o ouvido não sei
ah ser morto o mais longe da dona Mercedes
bem lacrada a tampa do teu caixão
a juriti não há de chorar lágrimas fingidas
a Rosa Maria não dirá
cismou sozinho à noite
nem o tremendo Iberê no artigo de fundo
morreu como um passarinho
fuja da missa de sétimo dia
tudo menos a famosa missa do sétimo dia
cantada em falsete pelo Dom Fedalto
castigo bastante é viver em Curitiba
morrer em Curitiba que não dá
não permita Deus
só bem longe daqui
mais prazeres encontro eu lá
o que tanto em vida se defendeu
nem morto já entregue
às baratas leprosas com caspa na sobrancelha
aos ratos piolhentos de gravatinha-borboleta
sem esquecer das corruíras nanicas
trincando broinhas de fubá mimoso
ah nunca morrer em Curitiba
para sofrer até o Juízo Final
a araponga louca da meia-noite
o Vinholes e o Mazza gorgeando os primores
que tais não encontro eu cá
não permita Deus
sem que daqui me vá
minha terra já não tem pinheiro
o sabiá não canta mais
perdeu as penas enterrou no peito o bico afiado
de sangue e tingiu a água sulfurosa do rio Belém
ao último pinheiro
foi demais o dentinho de ouro do ex-padre Emir
com raízes e tudo arrancou-se das pedras
montou numa nuvem ligeira
e voou sim voou sobre as asas do bem-te-vi
em Curitiba o teu fim
crucificado assim numa trovinha do Salomão assim
consolo único
são as flores roxas de pano
na eterna saudade da Valquíria
embebendo em gasolina o vestido negro de cetim
e ateando fogo
dura e difícil de entender
a maldição do velho Jeová de guerra
teu velório será no salão nobre da Reitoria
rondando a porta lá estarão os carrinhos
de amendoim algodão-doce pipoca
batatinha frita melancia em fatia
se a gente não morre em surdina
bem longe de Curitiba
a repórter Margarita anuncia no jornal das oito
que você foi enterrado vivo
tem rosto irreconhecível
porém colorido
aparecerá no próximo capítulo da novela
podes crer amizade
agora vem o Emiliano
que é doce morrer em Curitiba
para tua bostica de Curitiba
isto aqui ô babaca
veja o que fizeram com a Maria Bueno
depois de santa é líder feminista
no bosque das flores murchas do Boca Rouge
por sete dinheiros
pagos pelo nego pachola e o polaquinho fanho
o Esmaga cuspirá no retrato do teu túmulo
ó supremo desfrute
em Curitiba é que não dá
não permita Deus que eu morra
sem que daqui me vá
nunca mais aviste os pinheiros
onde já não canta o sabiá