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Liderança Guarani retorna ao território no Paraná após meses de exílio forçado

Mesmo com medidas protetivas, mulheres indígenas denunciam cerco e ameaças na TI Marrecas; conflito envolve disputa por modelos de uso da terra e religiosidade

Liderança Guarani retorna ao território no Paraná após meses de exílio forçado
Nhandesy na Casa de Reza no dia do retorno de Marcia. Foto: Isa Ianave
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Após meses de afastamento forçado por questões de segurança, a liderança indígena Mbya Guarani Marcia Jera Pires de Lima, conselheira estadual dos direitos dos povos indígenas, finalmente retornou ao seu território na Tekoa Ko'e Dju Porã na última quinta-feira (12). A aldeia fica na Terra Indígena (TI) Marrecas, em Turvo, região Centro-Sul do Paraná.

Marcia e outras lideranças viviam em uma espécie de exílio, sem garantias de segurança para voltar para casa, apesar de possuírem medidas protetivas contra agressores da própria comunidade desde janeiro. A expectativa é que o clima de tensão diminua agora, com a mudança na gestão local, aprovada no fim de semana.

“Foi instituída uma comissão de lideranças. Na etnia Guarani não existe a figura do cacique, por isso, foram escolhidas cinco mulheres e quatro homens (para compor essa comissão)”, explica Marcia. O novo modelo encerra a gestão de uma antiga cacica, descrita pela comunidade como autoritária e violenta.

Segundo Marcia, a liderança anterior não representava os anseios da aldeia Ko’e Dju Porã. “Aquelas lideranças também eram Guarani, mas não foram escolhidas por nós. Foram impostas por outras etnias”, detalha. Na TI Marrecas, coabitam os povos Guarani e Kaingang, e a convivência é marcada por conflitos religiosos e divergências sobre o uso da terra.

Márcia Jera durante assembleia que elegeu novo comando da Tekoa. Foto: Isa Ianave

O ataque e o refúgio em Curitiba

A opressão vivenciada pelos Guarani remonta há mais de três anos, conforme relatos ouvidos pela reportagem, mas chegou ao extremo na madrugada de 1º de janeiro de 2026. Enquanto as mulheres realizavam rituais de passagem de ano na Casa de Reza, o local foi atacado. Dois homens da comunidade foram expulsos à força do território. Dias depois, Marcia e outra liderança também foram alvo de "transferências" forçadas.

Em busca de proteção, elas foram acolhidas em Curitiba pela Associação das Mulheres Indígenas Organizadas em Rede (Amior), onde formalizaram as denúncias junto à polícia e o Poder Judiciário. A gravidade do caso levou a Justiça a conceder uma Medida Protetiva (MP) baseada na Lei Maria da Penha.

Na decisão, a magistrada Erika Luiza Dias Pinto Taborda reconheceu a existência de "violência familiar nas modalidades psicológica e moral". A ordem judicial determina que a agora ex-cacica e seu então vice mantenham uma distância mínima de 200 metros das vítimas.

Cerco à Casa de Reza

Apesar da vitória jurídica, o retorno à TI não foi tranquilo. Kuara Mara Rama, integrante da AMIOR, registrou em vídeo a tensão que persiste no território. Segundo ela, o grupo voltou a sofrer tentativas de intimidação logo após a chegada de Marcia.

“Eles chegaram na porta da Casa de Reza. Ficamos fechados lá dentro. De madrugada, vieram amedrontar mais uma vez”, relatou Kuara. Para ela, a violência estrutural deixa cicatrizes invisíveis. “Só quem vive na pele entende esse medo. Olhando nos olhos das pessoas, você percebe como essa violência está internalizada no corpo. Isso adoece a comunidade.”

Modelo de uso da terra

Para a AMIOR, o cerne da violência em Marrecas é a divergência sobre o destino da terra. De um lado, o modo de vida tradicional, com base no plantio da erva mate; de outro, a pressão pelo arrendamento e o agronegócio.

“Há quem entenda que a terra é nossa mãe e precisa de cuidado. Outros a veem como matéria-prima para lucro e enriquecimento. Essa é a base do conflito aqui em Marrecas. O povo Kaingang tem uma visão mais voltada para o agronegócio”, afirma Kuara Mara Rama. Para ela, a rede de proteção entre mulheres indígenas é a resposta ao autoritarismo.

A AMIOR encaminhou documentos às autoridades solicitando que o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) acompanhem de perto o processo de transição de lideranças na TI Marrecas.

A reportagem busca contato com a unidade da Funai em Guarapuava para obter um posicionamento oficial, mas não houve retorno até o fechamento da matéria.

Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

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