Nesta sexta-feira (30), completam-se dez anos da Noite Sangrenta, um dos episódios mais violentos da história recente de Londrina (PR). Entre a noite de 29 e a madrugada de 30 de janeiro de 2016, uma sequência de ações policiais deixou 12 mortos e 14 feridos, em diferentes regiões da cidade. As mortes ocorreram em vias públicas, residências e locais de confraternização, após o assassinato do policial militar Cristiano Luiz Botino.
A versão sustentada por familiares das vítimas é de que os crimes foram cometidos em retaliação, atingindo pessoas sem qualquer relação com a morte do PM.
Dos 17 inquéritos policiais instaurados para apurar as mortes da Noite Sangrenta, 15 foram arquivados ao longo do ano passado. Nenhum policial tornou-se réu. Entre os procedimentos arquivados, apenas um ainda está dentro do prazo para que as vítimas contestem a decisão.
Atualmente, somente um inquérito segue em andamento, sob responsabilidade da 11ª Promotoria de Justiça de Londrina. Dos 17 procedimentos, apenas um resultou em denúncia, mas os policiais acusados foram absolvidos em julgamento realizado em 14 de junho de 2023. O balanço dos casos foi feito pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), a pedido da reportagem.
Antes de receber essas informações, o Plural entrevistou dois familiares que desconheciam a situação dos inquéritos. Eles relatam a dor das perdas e o sentimento de impunidade.
Uma das vítimas fatais da Noite Sangrenta foi Matheus Henrique Cyrillo Modesto, de 21 anos, baleado durante uma festa em uma casa na zona norte de Londrina, onde outras três pessoas também foram mortas. Segundo o pai, Marcos Modesto, a polícia suspeitava que um dos presentes tivesse ligação com o crime que vitimou o policial militar, mas os disparos teriam sido feitos de forma indiscriminada.

“As investigações nunca foram concluídas de fato. O promotor disse que o caso do meu filho não seria arquivado, mas tudo foi direcionado pela Justiça Militar. A gente sabe como funciona o corporativismo”, afirma. Marcos também denuncia o desaparecimento de provas e a falta de punição. “As próprias provas sumiram, e os policiais envolvidos foram promovidos.”
Para ele, uma eventual responsabilização teria um valor simbólico. “Nada traz meu filho de volta, mas aliviaria o nosso coração.” O sentimento predominante, no entanto, é o da impunidade. “A gente acaba buscando conforto no espiritual para suportar, buscando Deus. Ao mesmo tempo, revolta ver gente que vai na missa todo domingo, ajoelha e reza, e depois pede pena de morte para o semelhante.”
Matheus havia concluído a formação no Senai e planejava cursar engenharia elétrica. O impacto da morte foi devastador para a família. “Minha filha desenvolveu uma doença autoimune. Foi ela quem reconheceu o corpo do irmão. Eu não tive coragem. Minha ex-esposa entrou em depressão. A nossa família adoeceu.”
A dor e a revolta também marcam o relato de Vanessa Rodrigues de Sousa, irmã de Walcy Gomes de Sousa, morto aos 35 anos na Noite Sangrenta na mesma casa que Matheus. Em entrevista emocionada, Vanessa precisou interromper a fala várias vezes. Ela e os pais moram em São Paulo; Walcy havia se mudado para Londrina.
“Mesmo depois de dez anos, não houve justiça. E, sinceramente, eu acredito que nunca vai ter”, afirma. Ela diz que acompanha o caso à distância e sequer sabe se houve julgamento. “Uma vez mandei e-mail para a Polícia Civil e nunca tive resposta.”
Segundo Vanessa, a morte do irmão paralisou a vida da família. “A nossa parou naquele dia. Minha mãe não é mais a mesma. Meu pai ficou muito revoltado. Quem fez isso continua vivendo normalmente.”
A família contesta a versão oficial da Polícia Militar de que as vítimas reagiram armadas. “Meu irmão nunca foi bandido. Ele trabalhava, pintava ônibus na empresa Grande Londrina. Levou três tiros vestindo o uniforme do trabalho”, relata.
Walcy ficou 11 dias internado, lutando pela vida, mas não resistiu. À época, a filha dele tinha 12 anos. “O Estado nunca ofereceu apoio. Minha sobrinha nunca teve atendimento psicológico. Nem no hospital houve cuidado com a gente. Eu entrei em choque e ouvi da médica que já era esperado (a morte do irmão)”, conta.
Para Vanessa, além da perda, permanece o estigma imposto às vítimas. “Se a polícia matou, dizem que era bandido. Mas eu sei quem era meu irmão. Ele tinha uma vida honesta, sustentava a família. E não foi o único inocente que morreu naquela noite.”
A assessoria da PM em Curitiba foi procurada para comentar o assunto, mas não respondeu.