Pular para o conteúdo

Nós contra eles: finalmente Lula e o PT fazem o que se esperava deles desde o começo

É isso que leva a parte mais rica da imprensa e o Congresso ao desespero quando veem medidas que jogam "nós contra eles". É que "eles" sempre ganharam e querem continuar sempre ganhando

Nós contra eles: finalmente Lula e o PT fazem o que se esperava deles desde o começo
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Publicado:

O governo Lula 3 ficou por dois anos e meio refém de um Congresso ultraconservador e imobilizante. Para não provocar as bancadas da Bíblia, do agro e da segurança, preferiu não tomar qualquer iniciativa que pudesse parecer "radical" a esses setores. O problema é que, para essas bancadas (e para quem lhes dá votos e dinheiro) tudo parece radical. E por isso, o governo não tomou iniciativa nenhuma.

Até certo ponto, a inércia foi um alívio - pelo menos quando comparada ao governo de Jair Bolsonaro. Mas os quatro anos de mandato, por outro lado, correm ainda o risco de serem um mero intervalo cheio de nada entre dois governos extremistas de direita. Sem algo mais substancioso a mostrar, Lula dificilmente terá argumentos para uma reeleição.

O verdadeiro governo do país hoje está nas mãos do Congresso. Bolsonaro, sem saber governar, entregou aos deputados o orçamento secreto e R$ 50 bilhões em emendas. Os partidos já nem precisam de ministérios - o União se negou a indicar um deputado para as Comunicações, já que aparentemente vale mais a pena usar emendas do que ter na mão um ministério que tem tão pouco poder.

Acuado, sem conseguir aprovar nada, preso a um arcabouço fiscal que nada mais é do que um teto de gastos disfarçado, o governo não consegue sequer aprovar um plano que lhe dê chance de zerar o déficit - exigência, aliás, do próprio mercado. E foi nessa situação impossível que, enfim, o petismo parece ter acordado para a realidade.

A ideia de unir movimentos sociais, partidos, igrejas (ou pelo menos parte delas) e partir para a ofensiva era o caminho evidente. E as duas pautas escolhidas têm tudo a ver com o que o PT sempre prometeu, e que chegou a fazer nas outras vezes em que teve nas mãos o governo: a taxação dos super ricos e o fim da escala seis por um.

E a reação do Congresso, do mercado e dos jornais mostra a preocupação que esse despertar causou. Quem foi mais claro na queixa foi o presidente da Câmara, Hugo Motta. Mais do que classificar a estratégia como "nós contra eles", como vem acontecendo em muitas partes, o deputado disse que isso acentua a polarização no país e que é prejudicial para todos.

E foi a isso que chegamos: um partido de trabalhadores é chamado de radical por defender pautas de trabalhadores. Por defender que as pessoas tenham escalas de trabalho mais justas e por querer que a tributação do país, que hoje fica basicamente nas costas dos mais pobres e da classe média, recaia um pouco mais sobre milionários e bilionários.

O mais irônico é que durante muito tempo a direita acusou Lula e o petismo de quererem que os pobres continuem pobres para que sejam massa de manobra fácil. E aí quando aparecem propostas que podem realmente diminuir a desigualdade e levar o pobre a ter uma vida melhor e mais autônoma, mais próxima da classe média, quem é que chia e que diz que os pobres precisam ficar onde estão?

A direita, o centrão, o bolsonarismo, são todos representantes fiéis da elite brasileira. E, sendo assim, jamais poderão apoiar medidas que diminuam os privilégios dos ricos. Pelo contrário: eles foram eleitos para dar mais vantagens a quem já tem tudo e para fazer com que os pobres fiquem com a maior parte da conta.

É isso que leva a parte mais rica da imprensa e o Congresso ao desespero quando veem medidas que jogam "nós contra eles". É que "eles" sempre ganharam e querem continuar sempre ganhando. E para isso precisam desesperadamente que "nós" aceitemos pagar a conta sozinhos.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

Todos os artigos

Mais em Paraná

Ver todos

Mais de Rogerio Galindo

Ver todos

De nossos parceiros