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Sanepar e IAT são pressionados sobre contaminação da água por agrotóxicos em Curitiba

Com dúvidas sobre a segurança da água consumida na capital paranaense, especialistas contestam dados apresentados por órgãos oficiais e apontam falhas no monitoramento e limites da legislação

Sanepar e IAT são pressionados sobre contaminação da água por agrotóxicos em Curitiba
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Sob questionamentos técnicos e embates diretos, a qualidade da água consumida em Curitiba e na Região Metropolitana (RMC) entrou no centro do debate público durante a audiência “Veneno na água”, realizada nessa terça-feira (17), na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Representantes da Sanepar e do Instituto Água e Terra (IAT) foram cobrados por especialistas, pesquisadores, parlamentares, agricultores e militantes sobre contaminações por agrotóxicos nos mananciais da região, ampliando a discussão para além da potabilidade e colocando em xeque a efetividade dos mecanismos de controle e transparência. A iniciativa foi do deputado estadual Goura (PDT)

Sanepar nega agrotóxicos, mas especialistas contestam

Em apresentação durante a audiência pública “veneno na água” que ocorreu nessa terça-feira (17) na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), a  gerente de recursos hídricos da Sanepar, Esther Amélia Assis Mendes, apresentou o dado de que não há agrotóxicos identificados na água destinada para consumo em Curitiba e na RMC. No entanto, a fala gerou debates. “A representante aqui nos falou em zero. Zero talvez seja a nota desse sistema de identificação”, criticou o médico sanitarista e ex-coordenador do Observatório de Agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Guilherme Albuquerque. 

A Portaria GM/MS nº 888/2021, do Ministério da Saúde, define parâmetros de potabilidade para agrotóxicos individualmente, sem estabelecer um teto para a soma de substâncias na água, ao contrário do que faz a União Europeia (UE). Na teoria, a UE trabalha com dois filtros: um limite por substância e um limite para o “coquetel” de agrotóxicos somados. Isso parte do princípio de que a mistura de vários venenos, mesmo em doses baixas, pode ter efeito cumulativo ou sinérgico sobre a saúde. Conforme dados do Sisagua, a capital paranaense possui 19 agrotóxicos detectados acima do limite considerado seguro na União Europeia entre 2014 e 2017. O médico sanitarista chamou isso de “piada”, afirmando: “Não há evidência de que brasileiros sejam mais resistentes que europeus aos agrotóxicos.”

Fazenda Canguiri volta ao debate

O Instituto Água e Terra (IAT) defendeu a fiscalização nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) da Região Metropolitana de Curitiba, mas admitiu limitações para impedir o avanço de agrotóxicos em zonas críticas como a APA do Iraí, responsável por abastecer parte significativa da capital. Jean Alex dos Santos, gerente de áreas protegidas, destacou a necessidade de equilibrar produção rural e preservação de mananciais, propondo educação ambiental e transição agroecológica gradual para produtores, sem “criminalização”. Críticos, porém, apontaram que tais pedidos de flexibilização para venenos nas APAs contrariam o propósito legal de proteção à água potável da RMC.​

A tensão escalou com o caso da Fazenda Experimental Canguiri, da UFPR, situada dentro da própria APA do Iraí, onde a Universidade flexibiliza testes com agrotóxicos. A professora da UFPR e uma das articuladoras da audiência, Márcia Marzagão Ribeiro, denunciou que “o plano de manejo da fazenda foi feito sem consultar professores e autoridades contrárias ao uso de venenos, ignorando o caráter de proteção ambiental da área.” Deputados Goura (PDT) e Professor Lemos (PT) classificaram a iniciativa de risco direto aos mananciais, e a Sanepar já manifestou oposição formal à reitoria, exigindo debate público antes de qualquer liberação.

Agrotóxicos como questão de saúde pública 

De acordo com o Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, produzido em 2022 pelo Ministério da Saúde, no período analisado que vai de 2007 a 2014, o Paraná apresentou 10.967 notificações de intoxicações por agrotóxicos, ficando atrás no número de casos apenas de São Paulo, com 12.562.

A coordenadora de Prevenção e Vigilância do Inca, Márcia Sarpa Campos Mello, lembrou que diversos agrotóxicos associados a câncer, distúrbios endócrinos e malformações fetais são encontrados na água e nos alimentos em todo o país, e que o SUS acaba arcando com os custos do adoecimento crônico provocado por um modelo agrícola baseado em venenos. Ela sugeriu que o Brasil se inspire na experiência do controle do tabaco, com regulação mais dura, alertas claros e políticas de incentivo à transição para sistemas de produção menos nocivos.

Agricultores ausentes e a disputa por narrativas

Apesar de o debate girar em torno de áreas rurais inseridas nas APAs que abastecem Curitiba e a RMC, a professora Márcia Marzagão Ribeiro lamentou a baixa participação de agricultores na audiência. Para ela, o fato de os “principais interessados” não ocuparem o plenário revela desarticulação entre os próprios pares, medo de criminalização e uma disputa de narrativas em que o agronegócio insiste em minimizar os impactos dos agrotóxicos.​

Respostas 

A gerente de recursos hídricos da Sanepar reafirmou que o monitoramento feito entre 2022 e 2024 não encontrou agrotóxicos nas amostras da região metropolitana, mas reconheceu que o resultado vale para uma série específica de coletas e pesticidas analisados e que “a tecnologia anda mais rápido que a legislação”. Ela insistiu na ideia de “água potável” (dentro da Portaria 888/2021) versus “água segura”, que exigiria monitoramento ampliado de substâncias não legisladas. Ela, porém, dividiu responsabilidades ao destacar que “há milhares de CNPJs e CPFs na bacia lançando poluentes” e que a companhia não aplica agrotóxicos na água, mas precisa de apoio de fiscalização, denúncia e políticas públicas para impedir que o veneno chegue aos rios e reservatórios.

Já o gerente de áreas protegidas do IAT, respondeu às críticas sobre a Fazenda Canguiri esclarecendo que não elaborou pessoalmente o parecer favorável à flexibilização para testes com agrotóxicos, mas apenas analisou e concordou com o trabalho de uma técnica subordinada, mantendo, segundo ele, “isonomia e independência”. Ele enfatizou que a liberação se restringia a categorias 3, 4 e 5 (menos tóxicas), com monitoramento semestral de resíduos na água pela UFPR e interrupção imediata dos testes em caso de detecção, além de proibição de aplicações acima de 100% da dose recomendada para pesquisas de tolerância.

Marya Marcondes

Marya Marcondes

Estagiária do Jornal Plural. Estudante de Jornalismo da UFPR. Palmeirense e colecionadora de hobbies.

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