por Rodrigo Matana
No oeste do Paraná, uma canoa indígena secular resgatada às margens de um córrego passou a ocupar lugar central na luta dos Avá-Guarani por seu território originário. Batizada de Ygá-Mirî, o artefato serve como símbolo histórico e político na luta territorial dos indígenas da região.
O resgate dessa e de outra canoa centenária integra o Projeto Ygá-Mirî, que reúne um conjunto de iniciativas voltadas à gestão do patrimônio arqueológico associado aos Avá-Guarani no oeste do Paraná.
A ação integrou a primeira etapa do projeto, realizada em 2018, com participação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Paraná (Iphan/PR), da Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura (CPC/SEEC) e de outros pesquisadores.
A etapa seguinte é executada em parceria entre o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), o Iphan e as comunidades Avá-Guarani, e prevê a conservação dos bens arqueológicos, o planejamento de seu retorno ao território e a capacitação de jovens indígenas para a gestão colaborativa desse patrimônio na terra indígena.
O projeto adota um modelo de arqueologia colaborativa, baseado na gestão compartilhada de bens culturais entre instituição e comunidade e na incorporação dos saberes tradicionais indígenas nas decisões científicas.
Um sonho, uma retomada, um encontro
A história do projeto remonta a 2013, em meio a um processo de retomada territorial conduzido pelos Avá-Guarani. Segundo a arqueóloga Daniela Sophiati, do Iphan, o então cacique Libório relatou ter tido um sonho no qual lhe era revelado que encontraria um objeto importante para a luta do povo indígena.
No dia seguinte, ao pescar no córrego Água Pequena, Libório localizou o primeiro remanescente de uma canoa indígena. O evento mobilizou o Iphan e pesquisadores, já que o material corria risco de se perder devido à erosão das margens do riacho. O resgate foi viabilizado por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e realizado em 2018, sob coordenação da autarquia federal.
Durante a escavação, foi confirmado o que os rezadores da comunidade (chamoy) já indicavam: além da primeira, havia outra canoa no local. Ao todo, uma coleção composta por dois remanescentes de embarcação e outros artefatos arqueológicos foi resgatada nas proximidades da aldeia Tekoha Ñemboete e do sítio arqueológico Cidade Real do Guairá.

Documento a mais, não condição de prova
As duas canoas resgatadas estão associadas a momentos distintos da ocupação indígena na região da antiga Cidade Real do Guairá. Segundo relatório dos arqueólogos Igor Chmyz e Rucirene Miguel, “a primeira canoa (embarcação maior) é de mogno, com cronologia situada por datação de C14 […] entre 1616–1671 cal AD [datas estimadas no calendário atual], que coincide com o momento final da vila, anterior às investidas dos bandeirantes”.
Já a segunda embarcação, a Ygá-Mirî, “foi elaborada sobre cedro” e apresenta datação “entre 1665 a 1816 cal AD [período estimado no calendário atual]”, sendo mais provável que esteja relacionada “a alguma ocupação Guarani posterior ao esvaziamento proporcionado pela destruição das vilas espanholas e reduções jesuítas”. Para os Avá-Guarani, esses artefatos carregam um valor que transcende o campo científico.
A Terra Indígena Guasu Guavirá — reivindicada pelos Guarani desde os anos 1980 — já possui comprovações técnicas consolidadas de ocupação tradicional, reconhecidas pelo Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), documento oficial aprovado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) no âmbito do processo demarcatório.
Nesse contexto, a Ygá-Mirî não é tratada como prova, mas como mais um “documento” que fortalece o que já é conhecido: um elemento material que reforça, no plano simbólico e comunicacional, um consenso já estabelecido, mas frequentemente negado no debate público e político.
“De forma simbólica, sim, a canoa é chamada de documento pelos Avá-Guarani”, explica Daniela Sophiati. “Ela não cria uma nova comprovação territorial. O que os rezadores orientam é que ela seja mostrada ao mundo justamente porque, apesar de todo o acúmulo de informações técnicas que comprovam a ocupação ancestral, ainda existe negação”, diz.
A cacique Nazane Martins, da aldeia Tekoha Ñemboete, destaca que o sentido da canoa está voltado ao futuro. “Vamos dizer que a canoa é antiga, mas para nós, enquanto povo indígena, essa canoa é um futuro para as nossas crianças. É por elas que estamos aqui”, afirma. Segundo ela, o artefato não serve para provar quem são, mas para lembrar a sociedade de algo que sempre esteve ali.
Patrimônio, território e conflito
Atualmente, o Iphan possui cadastrados seis sítios arqueológicos no município de Terra Roxa e mais de 47 em Guaíra — números que representam apenas os sítios já identificados e oficialmente registrados. A região apresenta alto potencial para novas descobertas.
A concentração desse patrimônio arqueológico reforça a ancestralidade da presença Avá-Guarani em um território que hoje abriga cerca de 24 aldeias e está no centro de sucessivas denúncias de violações de direitos humanos contra os indígenas no oeste do Paraná.
Para a comunidade, os artefatos resgatados são vistos também como um presente enviado por Nhanderu, com a função de fortalecer a luta pela demarcação das terras e o enfrentamento à discriminação vivida cotidianamente.

Arqueologia colaborativa e gestão compartilhada
O Projeto Ygá-Mirî consolidou-se como um exemplo de arqueologia colaborativa ao integrar professores indígenas, lideranças comunitárias e rezadores em todas as etapas do trabalho. São os líderes espirituais que orientam os rumos do projeto, a partir de diálogos com os donos originais dos objetos.
Atualmente, a iniciativa é executada por meio de um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre o Iphan e o MAE-UFPR. Um marco desse processo foi a transferência das canoas para a reserva técnica do MAE-UFPR, em Curitiba, em outubro de 2023. O transporte foi acompanhado por ritos de canto, dança e maracá — o jeroky — realizados para “desinstalar” os bens e informar seus donos espirituais sobre a mudança temporária.
O retorno como horizonte
Embora estejam atualmente em Curitiba para garantir sua estabilização física, há um compromisso firmado entre as instituições e as lideranças Avá-Guarani para que a Ygá-Mirî e os demais artefatos retornem ao oeste do Paraná assim que houver condições adequadas de preservação.
“Existe um consenso de que a preservação física dos bens é importante e, por essa razão, as canoas ainda não retornaram ao território”, afirma a arqueóloga Daniela Sophiati. Segundo ela, as comunidades Avá-Guarani já deixaram claro que esses e outros artefatos arqueológicos retirados da região devem retornar — compromisso assumido pelo Iphan.
O retorno definitivo está condicionado à regularização fundiária e à construção de uma Casa de Memória Avá-Guarani no oeste do Paraná.
A expectativa é que, no futuro, esse patrimônio integre iniciativas de educação patrimonial e turismo arqueológico geridas pelos próprios Avá-Guarani. Assim, a canoa segue seu curso não como vestígio silencioso do passado, mas como instrumento ativo de afirmação territorial, memória e futuro.