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Ratinho Jr quer “liquidar” Celepar por valor inferior ao dos contratos da companhia

Só com o próprio governo a estatal tem contratos que somam R$ 2,2 bi, mas valor inicial do leilão é de R$ 1,3 bi

Ratinho Jr quer “liquidar” Celepar por valor inferior ao dos contratos da companhia
O governador Ratinho Jr em evento no ano passado. Foto: Tami Taketani/Plural
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O possível comprador da Celepar terá um bom negócio garantido pelos impostos pagos pelos paranaenses: com um lance inicial de R$ 1,3 bilhão, o governador Ratinho Júnior (PSD) pretende vender uma companhia que tem cerca de R$ 2,2 bilhões em contratos firmados somente com órgãos estaduais. O edital de privatização foi publicado na semana passada e o leilão está marcado para o dia 17 de março, na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3.

Em junho de 2025, a Casa Civil do governo recomendou a secretarias e órgãos estaduais a renovação de contratos por cinco anos, para “mitigar os riscos de interrupção dos serviços”. São pelo menos 64 contratos com secretarias e órgãos como Detran, DER, Lottopar, Fundepar e Administração dos Portos, segundo informações do portal da transparência do governo.

Contratos no valor de R$ 2,2 bi devem ser “privatizados” junto com a Celepar
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Além de adquirir uma empresa por um preço inferior aos contratos firmados, o comprador vai herdar contratações feitas sem licitação – por ainda ser pública, a Celepar não precisa passar por concorrência para ser contratada por órgãos do governo. Para críticos da privatização, trata-se de uma forma de burlar a Lei de Licitações.

Os R$ 2,2 bilhões dizem respeito somente a contratos com o próprio governo, mas a Celepar também presta serviços para prefeituras. Só pelo sistema de Gestão de Infrações de Trânsito (GIT), a companhia atende 53 municípios do Estado e renovou com pelo menos seis no ano passado.

O comprador vai herdar ainda um contrato com o Google, que transformou a companhia em revendedora. No fim de 2025, a Secretaria de Estado da Administração e Previdência (Seap) contratou a Celepar por R$ 145,3 milhões para utilização de ferramentas do Google em 26 secretarias e órgãos do Estado.

Segundo o líder da oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Arilson Chiorato (PT), os contratos somarão R$ 4 bilhões até 2029. "Mas o governo quer vender ela por R$ 1,3 bilhão. Alguém não sabe fazer conta. Ou está fazendo um outro tipo de conta".

O deputado lembrou que o governo pretende repassar para o futuro comprador os softwares desenvolvidos pela Celepar, como mostrou o Plural em junho de 2025. "Só a propriedade intelectual do software, que foi desenvolvido em tecnologia livre, vale bilhões. Só isso já é maior do que o R$ 1,3 bilhão. Fora o patrimônio, a estrutura."

"Eu estou abismado porque foi feito esse processo em regime de urgência. O governo pressionou as próprias secretarias para renovar os contratos. Acontece que a Celepar não é uma empresa qualquer. Mantém o Estado funcionando. Guarda dados da saúde, educação, segurança, trânsito".
Arilson Chiorato, líder da oposição na Alep

O líder governista na Alep, Hussein Bakri (PSD), citou uma matéria sobre o Correios que viu na tevê e disse considerar "importante desestatizar no país". "Prédios abandonados, descaso", afirmou o deputado – sobre os Correios, não sobre a Celepar.

Bakri não rebateu os dados sobre a privatização e ressaltou a decisão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) desta quarta-feira (10 de fevereiro) que autorizou a continuidade do processo.

"Tantas palavras colocadas daqui, dali, interesse políticos do Tribunal de Contas, de alguns que não jogam com o governo e querem usufruir, não sei do quê."
Hussein Bakri, líder do governo, sobre as críticas à privatização da Celepar

Com a decisão do TJPR em mãos, Bakri garantiu que os dados dos paranaenses não correm risco. "Somente mudará o responsável pelo tráfego de dados e pelas ferramentas. Em nenhuma hipótese o dado será passado a ninguém".

Na Justiça

Ações contra a privatização da Celepar foram movidas no TJPR, no Tribunal de Contas do Estado (TCE) e no Supremo Tribunal Federal (STF). Na segunda (4 de fevereiro), o desembargador Wellington Emanuel Coimbra de Moura, da 4ª Câmara Cível, negou a suspensão do processo. A ação foi movida pelo PT, que contestou a liberação da venda por uma decisão monocrática no TCE. Cabe recurso.

A decisão contestada pelo PT foi dada em janeiro pelo conselheiro do TCE Durval Amaral, que cassou uma medida cautelar expedida pelo conselheiro Lívio Sotero Costa em setembro do ano passado. Após o despacho de Amaral, o conselheiro Fabio Camargo voltou a suspender a desestatização, mas a decisão foi derrubada pelo TJPR. O processo ainda será analisado pelo pleno – na última sessão, o conselheiro Fernando Guimarães pediu vista e adiou a decisão.

No STF, a Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI) movida pelo PT e pelo PSOL questiona a lei estadual que autorizou a desestatização, aprovada em novembro de 2024 pela Alep. Em novembro, o relator da ADI, ministro Flávio Dino, pediu informações ao governo do Paraná e à Assembleia sobre a privatização.

Leia tudo que foi publicado sobre a privatização da Celepar

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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