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Reintegração de posse vai retirar 400 famílias do Tatuquara

Defensoria Pública quer suspensão da ordem de despejo em razão, também, da pandemia

Por Mauren
Reintegração de posse vai retirar 400 famílias do Tatuquara
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O quarto filho de Marcelino Lemos, 60 anos, está para nascer. Sem dinheiro para continuar pagando aluguel, ele e a família foram para a ocupação do Tatuquara no dia 12 de dezembro de 2020. “Estou desempregado, vendo balas, doces e panos de prato no sinaleiro. A gente tenta batalhar do jeito que pode. Mas dá um medo tremendo de agora ser mandado pra rua. Nós mesmos, que Deus o livre aconteça, ter que pegar uma lona e ir pra BR, que se for preciso de R$ 100 amanhã, para dizer assim, num aluguel, a gente não têm condições”, revela Lemos.

Como eles, outras 400 famílias devem ser despejadas do terreno onde vivem no Tatuquara, em Curitiba, chamado pelos moradores de 'Britanite'. O local é alvo de uma disputa judicial, na qual atua o Núcleo Itinerante das Questões Fundiárias e Urbanísticas (NUFURB), da Defensoria Pública do Paraná. Este é mais um conflito entre o direito à propriedade e o direito à moradia.

A decisão judicial de reintegração de posse está sendo contestada pela Defensoria, que alega, entre outros motivos, não haver provas suficientes sobre a propriedade do terreno. O órgão pede a suspensão da ordem de reintegração. “Requer seja a pretensão possessória do autor julgada improcedente, resguardando-se, desta forma, o interesse público primário de proteção e promoção dos direitos fundamentais da população mais vulnerável”, diz a ação.

Terreno está desocupado há anos, dizem moradores. Foto: Giorgia Prates/Plural

O texto destaca que o direito à moradia representa o direito à subsistência, portanto, à vida e à saúde, sobretudo neste momento de pandemia. Se cumprida a decisão, “as pessoas ficarão na rua e o terreno voltará a ser vazio e sem uso, enquanto se aguarda decisão judicial. (...) Despejados, sem moradia, sem local para dormir, comer ou banhar-se, estarão em muito maior risco do que hoje, sobretudo em período de pandemia.”

Um dos líderes comunitários da ocupação do Tatuquara, que prefere não ser identificado, afirma que o terreno estava desocupada há anos.  “Se você quer saber de quem é uma área, faça uma ocupação. Pode estar há 100 anos abandonada, dentro de poucos minutos já aparece o dono. Isso é uma covardia. Eles não precisam dessas áreas. Quem precisa é o povo, para morar aqui. Não estou falando para ninguém doar. Se tiver um acordo, uma negociação, o povo aos pouquinhos vai pagando, porque aí ele sabe que está pagando o que é dele e não pagando um aluguel, porque nunca mais retorna esse dinheiro. Então é pela moradia mesmo, é pelo o bem-estar da população, da comunidade, que a gente ajuda esse povo”, diz.

Condições são de muita pobreza. Foto: Giorgia Prates/Plural

A Defensoria ressalta que a normativa internacional aponta para tentativas de solução pacífica do Poder Judiciário em detrimento a despejos forçados, especialmente quando os casos envolvem direitos fundamentais de crianças, idosos e deficientes. O órgão reforça, em caso de cumprimento do mandado, ser imprescindível que as famílias sejam informadas previamente e com tempo sobre o dia e a hora, “evitando que sejam pegas de surpresa e, desse modo, possam se preparar para a saída forçada”.

A data da operação também deverá ser comunicada previamente ao Ministério Público, à Defensoria Pública, ao Conselho Tutelar, às Secretarias Municipal e Estadual de Saúde, à Comissão de Direitos Humanos da OAB/PR e a todas as demais entidades envolvidas com questões fundiárias, "a fim de que compareçam e acompanhem a execução da ordem, que deverá, preferencialmente, ser filmada e seguida de relatório circunstanciado, posteriormente encaminhado a todos os órgãos envolvidos".

Foto: Giorgia Prates/Plural

Colaborou: Maria Cecília Zarpelon

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