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Renafro inaugura Núcleo em Curitiba e reforça papel dos terreiros como espaços de cuidado e resistência

Durante o lançamento, o que se construiu foi mais do que uma cerimônia inaugural, foi um diagnóstico coletivo sobre racismo religioso, saúde pública e o lugar dos terreiros na sociedade brasileira.

Renafro inaugura Núcleo em Curitiba e reforça papel dos terreiros como espaços de cuidado e resistência
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Nos dias 14 e 15/03, Curitiba ganhou um Núcleo da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro). O evento de lançamento aconteceu na sede da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (Apuf) e contou com a presença de centenas de pessoas em um encontro marcado por memória, denúncia e articulação política.

Ao longo de dois dias, o que se construiu foi mais do que uma cerimônia inaugural, foi um diagnóstico coletivo sobre racismo religioso, saúde pública e o lugar dos terreiros na sociedade brasileira.

A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) é uma articulação da sociedade civil que reúne povos de terreiro, gestores e profissionais de saúde, integrantes de organizações não governamentais, pesquisadores e lideranças do movimento negro trabalhando pela promoção da saúde da população dos terreiros.

Hoje, a Renafro tem núcleos em várias cidades do país. E agora, o Ilê Asé Tobi Odé Karê Igbo, terreiro com 26 anos de existência no bairro Cajuru, representará a Rede na capital paranaense sob a responsabilidade da Yalorisha Josianne de Ode Kare.

Entre as lideranças que participaram do lançamento estavam os coordenadores nacionais da rede, Mãe Nilce de Yansã do Rio de Janeiro e Baba Diba de Iyemonja, do Rio Grande do Sul. Aos 74 anos e com mais de cinco décadas de iniciação no candomblé, Mãe Nilce explicou que assumiu a condução da rede em 2017, ao lado de Babá Diba, após o falecimento de seu fundador, o Ogã José Marmo da Silva. A missão era dar continuidade ao projeto que sempre teve como marca uma diversidade interna. “A Renafro não é só candomblé. Ela agrega. Eu venho do candomblé, mas o Babá Diba é do batuque. É uma rede plural.”

Mãe Nilce, coordenadora nacional da Renafro. Foto: José Pires.

Ao longo de sua fala, Mãe Nilce destacou a necessidade de que lideranças religiosas ultrapassem os limites do terreiro e passem a ocupar espaços institucionais. Segundo ela, ainda é comum que o poder público enxergue esses espaços a partir de estigmas. “Acham que o terreiro produz barulho, produz o mal, que cultua o diabo, coisa que a gente nem sabe o que é”, afirmou. Para enfrentar essa visão, relatou, foi preciso sair da zona de conforto e disputar narrativas dentro das estruturas do Estado. “Teve um momento em que me disseram: ‘A senhora vai comigo ao Ministério da Saúde, à Secretaria de Saúde, para dizer quem a gente é’. E foi assim que começamos a dialogar.”

Esse movimento, segundo ela, não foi simples. Envolveu enfrentar o que definiu como racismo institucional e, principalmente, racismo religioso. “É a face mais perversa do racismo brasileiro”, afirmou. Ainda assim, defendeu que essa disputa é necessária para garantir direitos e reconhecimento.

Mãe Nilce destacou que os terreiros já exercem, historicamente, um papel central na promoção de saúde, ainda que isso raramente seja reconhecido pelas políticas públicas. “A gente se ver, se abraçar, falar das nossas coisas, isso é promoção de saúde. Nossa tradição é do toque, do cuidado”, disse. Ao lembrar os impactos da pandemia, destacou o quanto a ausência desse contato afetou as comunidades de terreiro.

Também citou exemplos concretos desse cuidado no cotidiano. “Quando uma mulher chega agredida, quem acolhe somos nós. Quando alguém precisa falar, somos nós que escutamos”, afirmou. E resgatou um episódio histórico frequentemente ignorado. “Na época da AIDS, quem acolheu as pessoas que estavam se descobrindo positivas foram os terreiros”.

Apesar disso, segundo Mãe Nilce, a proposta da Renafro não é substituir o Sistema Único de Saúde (SUS), mas estabelecer uma relação de diálogo. “A unidade básica de saúde é o SUS. O que queremos é que o sistema respeite e compreenda as nossas práticas. Esse reconhecimento passa também por entender outras concepções de corpo e vida. Nós somos energia. Se essa energia vai embora, sobra um corpo sem vida. Nossa tradição fala disso desde sempre, mas esse conhecimento é negado”.

Mãe Nilce enfatizou também que a atuação da rede também se dá no campo político. “Nós não queremos favores. Queremos política pública de proteção, de reparação e de punição”, disse, ao mencionar casos recorrentes de ataques a terreiros. “Não pode alguém invadir nossa casa, quebrar tudo e ficar por isso mesmo.”

Racismo religioso

A dimensão do racismo religioso foi destaque na fala de Babá Diba, que trouxe um resgate histórico das perseguições às religiões de matriz africana. Ele lembrou que por muito tempo os praticantes foram ensinados a se esconder. “Nos diziam: fiquem no seu canto, toquem baixo, não apareçam, senão vocês vão ser perseguidos, presos, mortos.” Esse cenário começou a mudar, afirmou, a partir do final dos anos 1990, quando lideranças passaram a se organizar politicamente.

Babá Diba também relacionou essa perseguição a processos históricos mais amplos, como a atuação da Igreja Católica durante a colonização e, mais recentemente, o crescimento de segmentos neopentecostais. Ao trazer experiências pessoais, evidenciou como o racismo se manifesta no cotidiano. “Uma vez uma mulher me pegou pelo colarinho e disse que Jesus ia me tirar disso. Em outra, me disseram que só me entrevistariam se eu tirasse minha roupa de terreiro”, relatou. Episódios como esses, destacou, não são exceções, mas parte de uma estrutura que ainda nega direitos básicos.

Coordenador nacional da Renafro, Babá Diba. Foto: José Pires

Para Babá Diba, o impacto desse racismo vai além da dimensão simbólica. “Racismo mata, racismo enlouquece. É um determinante de saúde”, afirmou, defendendo que o tema seja tratado como questão de saúde pública. Ele também destacou a importância de formar profissionais do Estado, como médicos e operadores do direito, para que compreendam as especificidades das religiões afro-brasileiras.

A população mais idosa dos terreiros e os cuidados que ela demanda foram abordados por Mãe Fernanda Machado, presidenta do Coletivo Cultural Sambadeiras de Bimba Filhas de Biloca e representante nacional do estado no Programa Cultura Viva, que mobiliza a formalização de pontos de cultura no país.

Ela destacou a centralidade de temas considerados urgentes para as comunidades de terreiro, especialmente o envelhecimento de seus integrantes. Mãe Fernanda ressaltou que falar dos mais velhos é reconhecer a ancestralidade viva — fonte de sabedoria, memória e resistência —, lembrando que são essas pessoas que preservam os fundamentos e os ensinamentos das tradições. Ao propor um momento de escuta coletiva, defendeu que o espaço sirva como oportunidade de aprendizado e reflexão para todos.

Ao abordar a trajetória da articulação política, ela também celebrou a criação do núcleo da Renafro no Paraná, lembrando sua própria participação na construção do núcleo em Brasília. Destacou que, embora muitas vezes se diga que “não há movimento” em determinados locais, há, na verdade, diversas iniciativas acontecendo de forma dispersa. Para ela, o desafio é justamente promover encontros, fortalecer vínculos e ampliar o diálogo entre lideranças.

Quem também fez uso da fala foi Iyagunã Dalzira. Yalorixá, educadora e ativista mineira, símbolo de resistência no Paraná. Aos 81 anos, tornou-se doutora em Educação pela UFPR (2022), focando sua pesquisa em professoras negras, racismo religioso e educação pública, destacando-se pela luta antirracista e defesa da tradição afro-brasileira.

Mesmo dizendo ter sido pega de surpresa, aproveitou o momento para refletir sobre os desafios enfrentados no Sul do país, onde, segundo ela, praticar o candomblé se torna ainda mais difícil. Além das barreiras estruturais, apontou o racismo religioso como um obstáculo constante, que muitas vezes gera medo e dificulta a organização coletiva. Ainda assim, ressaltou a resistência de quem segue mantendo tradições há décadas, mesmo diante das dificuldades impostas pela vida urbana.

Iyagunã Dalzira. Foto: José Pires

Ela também chamou atenção para os impactos da expansão das cidades sobre os terreiros, afirmando que não foram essas comunidades que avançaram sobre o espaço urbano, mas o contrário. Com a urbanização, muitas vezes desordenada, os terreiros passam a sofrer pressões e conflitos com novos vizinhos que não reconhecem sua presença histórica.

Visibilidade na saúde pública

Durante o evento, Babá Flávio Maciel, coordenador-geral do Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana, destacou que a simples presença de pessoas de terreiro em espaços públicos já provoca reações. “Quando a gente anda com roupa de terreiro, os olhares não são acolhedores. São olhares que medem, que julgam”, disse. Ainda assim, ele defendeu que afirmar essa identidade é parte da luta.

Também reforçou a ideia de que os terreiros desempenham múltiplas funções sociais. “O pai e a mãe de santo são médicos, psicólogos, conselheiros, mediadores”, afirmou, ao descrever o cotidiano dessas lideranças. Para ele, o desafio é transformar esse reconhecimento interno em legitimidade institucional. “A gente precisa sair da resistência e fazer incidência nas políticas públicas.”

A fala destacou que discutir saúde nos terreiros é reconhecer uma prática que já existe muito antes das políticas públicas formais. Os terreiros sempre exerceram um papel fundamental no cuidado comunitário, oferecendo acolhimento, escuta e orientação para pessoas de diferentes idades. Esse cuidado próximo, baseado na valorização da presença e da vivência de cada indivíduo, é apontado como uma forma legítima de atenção à saúde, construída historicamente dentro desses espaços.

A Renafro em Curitiba

O encontro caminhou para o seu momento simbólico com a inauguração do núcleo da Renafro em Curitiba, conduzida por Mãe Josianne. Ela relembrou como se aproximou da rede que se deu por identificação imediata com a forma direta e espontânea de uma liderança, apresentada em um evento da Secretaria da Mulher. A partir dali, nasceu o desejo de fazer parte de um espaço que expressasse aquilo em que acredita: a valorização do povo de terreiro, do candomblé, da umbanda e das relações construídas nesses espaços, que também incluem pessoas de diferentes origens. Nesse contexto, a saúde aparece como eixo central, entendida de forma ampla e presente no cotidiano das comunidades, desde a infância até a vida adulta.

“Eu vi aquela mulher falando e pensei: é isso que eu acredito. Falar de saúde, de acolhimento, de povo de terreiro”, disse.

Yalorisha Josianne de Ode Kare, coordenadora da Renafro em Curitiba. Foto: José Pires

A cerimônia, que inicialmente aconteceria no barracão de seu terreiro, foi transferida para um espaço maior. “Meu barracão é pequeno, eu quis dar mais conforto para vocês”, explicou. A placa inaugural foi apresentada ao público e será instalada posteriormente na sede.

Mais do que marcar o início de uma nova unidade, Mãe Josianne destacou que o objetivo é expandir a articulação. Citou cidades da região metropolitana e do litoral como próximos passos e fez um chamado à participação coletiva. “É emocionante caminhar com a Renafro. E eu quero estar em cada núcleo que surgir”, afirmou.

Mãe Josianne, que participa da rede há quatro anos, destacou que desde sua criação, a Renafro começou a atuar dentro dos Ministérios, procurando aproximar o SUS dos povos de terreiro. “A gente sempre teve muita dificuldade de conseguir um atendimento público de saúde adequado às nossas necessidades. Assim, a Renafro tem atuado ao longo de anos para quebrar barreiras e fazer valer os direitos dos praticantes de religiões afro”.

Ao final, o encontro deixou evidente que a criação do núcleo em Curitiba não é um ponto de chegada, mas de partida. Entre denúncias de racismo, afirmações de identidade e propostas de políticas públicas, a Renafro reafirma seu papel como uma das principais articulações do povo de terreiro no país — sustentando a ideia de que cuidar da saúde também passa por reconhecer saberes, territórios e formas de vida historicamente marginalizadas.

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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