Pular para o conteúdo

Seu diagnóstico de TEA ou TDAH está correto? Tem certeza?

Será que uma consulta de 30 minutos é suficiente para avaliar se você tem algum desses transtornos? 

Seu diagnóstico de TEA ou TDAH está correto? Tem certeza?
Publicado:

Os diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são bem comuns atualmente. Talvez você ou uma pessoa querida sua tenha um deles ou ambos. Porém, esses diagnósticos, muitas vezes, são tratados de forma simplista.

É comum imaginar que uma avaliação dessas pode ser feita em poucos minutos de consulta, mas a realidade é bem diferente. Ambos os transtornos são complexos, exigindo avaliações detalhadas e criteriosas. A Psicologia não se debruçaria tão cuidadosamente sobre eles se assim não fosse.

Saber que se tem TEA ou TDAH traz impacto significativo para a vida da pessoa diagnosticada e de sua família, com benefícios, mas também desafios. Gostaria que você soubesse por que uma abordagem multidisciplinar, que envolva tempo e responsabilidade, é fundamental para garantir diagnósticos éticos e precisos.

Por que diagnosticar não é tão simples assim?

TEA e TDAH são transtornos do neurodesenvolvimento com características amplamente variáveis. O TEA pode envolver dificuldades de comunicação social, padrões restritos de comportamento e sensibilidade sensorial, com muita variação de pessoa para pessoa. Já o TDAH é caracterizado por desatenção, impulsividade e hiperatividade, com igual possibilidade de diferença entre um e outro indivíduo. Além disso, esses transtornos podem coexistir, complicando ainda mais o processo diagnóstico.

Muitas vezes, avaliações rápidas podem captar apenas aspectos superficiais do comportamento, resultando em diagnósticos equivocados, imprecisos ou até mesmo completamente errados.

É por isso que o diagnóstico de TEA e TDAH deve ser conduzido com métodos baseados em evidências científicas, respeitando a singularidade de cada pessoa. Como estabelece a Resolução CFP nº 31/2022, os psicólogos devem fundamentar suas práticas em métodos éticos e cientificamente reconhecidos, garantindo avaliações criteriosas e respeitosas. Essa normativa atualiza as diretrizes sobre avaliação psicológica, destacando a integração de fontes fundamentais, como testes aprovados e observação direta, e fontes complementares, como relatórios de equipes multiprofissionais..

E isso pode levar semanas. Até mesmo meses. E, definitivamente, não apenas 30 minutos. Trata-se de algo muito sério, com desdobramentos importantes, para ser avaliado em apenas uma ida ao médico.

A Avaliação Psicológica como um processo essencial

A avaliação neuropsicológica é uma das ferramentas fundamentais para o diagnóstico de TEA e TDAH, pois combina diferentes métodos para compreender o funcionamento cognitivo, comportamental e emocional do indivíduo.

Componentes de uma avaliação cuidadosa:

Uma avaliação psicológica criteriosa deve ser conduzida de acordo com os princípios estabelecidos pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), como descrito na Resolução CFP nº 31/2022, que destaca a importância de fontes fundamentais e complementares de informação na prática profissional.

Fontes Fundamentais de Informação:

  1. Entrevistas psicológicas detalhadas: Essas conversas estruturadas com o paciente, familiares e, quando necessário, outros profissionais, permitem acessar o histórico de vida, identificar padrões de comportamento e compreender o contexto atual do avaliado. A anamnese e a entrevista são ferramentas essenciais na coleta de dados e formulação de hipóteses clínicas.
  2. Observação de comportamentos: Protocolos ou registros sistemáticos de comportamento, realizados de forma individual ou em processos grupais, são indispensáveis para captar nuances que nem sempre são detectáveis em outros métodos. A observação contribui para a contextualização e validação das hipóteses levantadas durante a avaliação.
  3. Testes psicológicos padronizados: Instrumentos aprovados pelo CFP e registrados no Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI) são utilizados para mensurar características psicológicas específicas. Embora ainda não existam testes aprovados para diagnóstico específico de TEA no Brasil, instrumentos voltados para outras finalidades podem ser utilizados de maneira ética e criteriosa, alinhados à Resolução CFP nº 31/2022.

Fontes Complementares de Informação:

  1. Técnicas e instrumentos não psicológicos: Métodos respaldados pela literatura científica podem ser usados para complementar a avaliação, desde que respeitem o Código de Ética e a legislação da profissão.
  2. Documentos técnicos: Protocolos ou relatórios de equipes multiprofissionais podem enriquecer a análise e ampliar a compreensão do contexto do avaliado, especialmente em casos que demandem uma abordagem interdisciplinar.

A Resolução CFP nº 31/2022 reforça que a avaliação psicológica deve sempre se fundamentar em métodos e técnicas reconhecidos cientificamente, garantindo a ética e a qualidade do processo avaliativo. A integração dessas fontes, considerando as necessidades do contexto e a singularidade do avaliado, é essencial para um diagnóstico preciso e responsável​

Conforme destacado por Amaral e Guerreiro (2021), o diagnóstico de TDAH requer uma combinação de entrevistas, observação clínica e testes específicos para alcançar precisão e confiabilidade. Essa abordagem integrada é essencial para diferenciar o transtorno de outros problemas com sintomas semelhantes.

No caso do TEA, o artigo Instrumentos de Avaliação no Transtorno do Espectro Autista: Uma Revisão Sistemática (Costa e Elias, 2020) evidenciava que, à época de sua publicação, não havia instrumentos específicos validados para avaliação do TEA no Brasil. Atualmente, a Resolução CFP nº 31/2022 permite que psicólogos integrem fontes complementares de informação, como relatórios multiprofissionais e técnicas não psicológicas respaldadas cientificamente, para suprir essas lacunas.".

Bônus e ônus de um diagnóstico

Receber um diagnóstico pode transformar a vida de uma pessoa, tanto positivamente quanto de forma desafiadora.

Os bônus:

Os ônus:

Entre os desafios, pode-se incluir a prevalência de abordagens que, em alguns casos, priorizam exclusivamente métodos biomédicos, como a medicalização. No entanto, o ideal é que a avaliação e o acompanhamento sejam multidisciplinares, respeitando a individualidade e os direitos da pessoa, e que envolvam tanto estratégias terapêuticas quanto inclusivas.

Conclusão

Diagnosticar TEA e TDAH não é uma tarefa simples e exige muito mais do que uma consulta rápida, embora não se questione a capacidade da Psiquiatria em captar a possibilidade de um deles ou de ambos e a necessidade de uma avaliação mais criteriosa. Bater o martelo para qualquer um desses transtornos demanda tempo, cuidado e uma abordagem multidisciplinar, garantindo que o diagnóstico seja preciso, ético e respeitoso.

A Resolução CFP nº 31/2022 reforça a responsabilidade dos profissionais em adotar métodos cientificamente validados e éticos, fundamentais para um trabalho de qualidade. Mais do que um rótulo, o diagnóstico deve ser visto como uma ferramenta que promove autoconhecimento, inclusão e acesso a direitos.

Quando conduzido com critério, o diagnóstico não é apenas uma explicação para os sintomas, mas um passo em direção à melhoria da qualidade de vida da pessoa e de sua família.

Referências

Tags: colunista

Mais em colunista

Ver todos

Mais de Alessandro Martins

Ver todos

De nossos parceiros